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É difícil colocar em palavras o que Dragged Across Concrete exatamente é imediatamente após ter assistido. Talvez isso seja a principal maior prova do tipo de diretor que é o senhor S. Craig Zahler, e como ele vem se provando ser em sua até agora interessantíssima carreira um artista de estilo muito próprio de se fazer cinema. Fazendo filmes um mais desafiador do que o outro, e que marcam uma fortíssima assinatura própria de um autor de voz única, cada vez mais raro de se encontrar atualmente.

E como todo bom crescendo, seu novo filme se mostra com certeza o seu mais desafiador até então, e talvez não apenas desafiador em uma perspectiva de como realiza o filme elevando seu estilo à décima máxima potência de pretensão, mas algo que realmente desafia o espectador a prestar total atenção e querer se adentrar em um filme que promete o levar para uma realidade enervante e brutal, tal quanto a nossa verdadeiramente é, e com o podre de seu mundo sendo lentamente desmembrado.

A trama tem início quando a dupla formada pelo veterano policial Brett Ridgeman (Mel Gibson) e seu parceiro Anthony Lurasetti (Vince Vaughn), são suspensos sem pagamento quando um vídeo de suas táticas de trabalho brutais vazam no noticiário. Sem dinheiro e sem opções, eles decidem fazer justiça com as próprias mãos ao mesmo tempo em que buscam lucrar ao entrarem nesse mundo do crime que sempre os cercou. Em simultâneo, acompanhamos o ex presidiário Henry Johns (Tory Kittles) adentrando no tráfico para poder prover uma vida melhor para a sua família. Porém, o que todos eles encontram na criminalidade é algo muito mais obscuro do que jamais poderiam esperar enquanto os seus objetivos eventualmente se intercalam em um violento confronto.

Uma Obscura Realidade

Avisos deveriam ser feitos para alertar aos demais que quiserem ver o filme, o como não se devem ir esperando o seu típico thriller policial que vai tentar mostrar a corrupção do mundo do crime em ambos os lados da lei, e que siga os conceitos mais básicos de certo e errado, bom e mal, o (literal) preto e branco. Temos homens da lei com ideais e métodos ortodoxos e questionáveis, mas que acabam mostrando fazer o que fazem por aqueles a quem amam e pelo mínimo senso de “justiça” que compõe suas formações e ideias familiares.

Enquanto em contrapartida também temos aqui criminosos igualmente violentos, mas alguns, como Henry, que igualmente buscam o melhor para aqueles que amam mesmo que por seus métodos movidos à ganância, enquanto outros que são a pura encarnação do mal absoluto, sedentos por violência em sua natureza pérfida que se forma no trio de antagonistas mascarados liderados por Lorentz Vogelmann (Thomas Kretschmann).

Pois aí vai um aviso prévio e acredite, muito facilmente você não vai gostar nem um pouco desse filme, seu ritmo é lentamente vagaroso e metódico; seus personagens são carregados de discursos bem frágeis e perigosos envolvendo questões criminais e raciais ainda fervorosos da nossa atualidade; e traz uma violência gráfica sem poupar nada nem ninguém.

Quase que um filme total anti-padrões de expectativa e que parece ter sido feito especialmente para ser algo capaz de enfurecer os valores politicamente corretos da crítica de cinema da atualidade, indo em lugares que quase nenhum diretor ou filme de estúdio hoje teriam os culhões para ir. Daí é capaz de se tornar impossível não se respeitar o filme de Zahler especialmente por isso, e na forma como ele o realiza como se estivesse gritando em voz alta o significado sobre o que é na verdade a assinatura de um autor cinematográfico dentro de um filme.

Além de claro estar mantendo seu até então recorrente tom de filmes que exploram a natureza humana embarcando em uma jornada rumo ao inferno e de volta, e é aqui em Dragged Across Concrete que ele atinge o seu ápice nesse seu estilo de fazer cinema e mostra em suas ambições o melhor de suas inspirações de um cinema mais brutamontes e talvez bem desvalorizado atualmente.

Na forma como que constrói a sua escala maior que a vida digna de um épico de crime policial ala Michael Mann, o diretor mostra evocar quase que o espírito do cinema de Sergio Leone e Michael Cimmino como que criando esse escopo aparentemente enorme para um filme de história tão íntimo e simples. Que quase seguindo uma vibe neorrealista, te mergulha naquela realidade logo de cara e sem poupar fisgadas nos temas sociais que busca tocar.

Pois o mesmo escopo que se vê na escala grande e ao mesmo tempo íntima do filme, também é notada na forma com que ele eleva suas discussões raciais para um contexto social assustadoramente real, colocando sem medo o dedo em questões frágeis e que são muitas vezes tratadas com cautela, enquanto aqui, Zahler põe o dedo na ferida escancarada.

Seja na forma como que demonstra o fato da filha de Brett ser antagonizada pelos meninos negros do seu bairro, suscitando motivos de seja pela sua cor e classe (?). Ou quando vemos o noticiário reportando a suspensão de ambos Brett e Anthony enquanto vemos em simultâneo um assalto violento e à sangue frio em uma pacata lojinha de conveniências.

Mas nada disso vem na forma de julgamentos e apontamentos de dedos pois ninguém aqui está completamente certo ou errado no que acreditam, e faz com que o público consiga seguir cada uma das diferentes perspectivas da história. Criando algo próximo de uma narrativa com vários protagonistas estilo Pulp Fiction, que pula de um personagem a outro, onde você sente a mudança de ambiente, contexto social, e criando uma construção e desenvolvimento de personagens bem consciente das diferentes identidades e a importância de cada personagem na história.

Desde aos seus protagonistas centrais como a dupla de detetives de que buscam fazer o certo com medidas extremas, e o fora da lei Henry (um surpreendente Tory Kittles) que tem o seu coração no lugar certo mas ações criminosas como sua bússola quebrada de sobrevivência; ou até mesmo a breve personagem de Jennifer Carpenter, com todos mostrando seu lugar temático nessa grande e ambiciosa narrativa que alcança altos níveis mesmo dentro de um casulo de intimidade.

Denotando o já óbvio, sobre que não há personagens bonzinhos nessa história ou tampouco heróis. Ao mesmo tempo em que mostra como o ponto principal que une todos eles, sendo o conhecimento da crueza daquela realidade em que habitam e lidam com elas na forma que conseguem e com menos dano possível à suas vidas, enquanto outros conseguem viver em suas caixinhas individuais, absentes e ignorantes da crueza existente no mundo à sua volta.

Ao mesmo tempo em que Zahler ainda se mostra capaz de encontrar humor no meio do que talvez seja sua história mais sombria até hoje. Mas com a presença de um humor bem mais sádico do que um proposital adereço de leveza como fora em seu Bone Tomahawk, seja nos debates na ótima relação Buddy-cop criada entre os personagens de Gibson e Vaugh, com uma ótima química e relação construída entre um cão velho e seu aprendiz amadurecido pelo trabalho. Quanto no humor negro tragicômico cheio de uma ironias sombrias presentes nas cenas dos misteriosos antagonistas mascarados, borbulhando em crueldade.

Rumo ao Inferno

Mas tudo poderia se desmoronar para o público com o seu ritmo e duração deliberadamente longos e que com certeza se estica ultrapassando o limiar do plausível em sua ambições, mas mostra fazer disso algo que quase como um adereço proposital de análise da realidade que o filme transpõe na tela, de forma física e abstratamente emocional na criação de sensações palpáveis e imersivas que a trama é capaz de despertar.

Sendo assim uma obra contemplativa muito sutil do que se pode notar. nunca focado em um quadro de câmera por dizer (embora a fotografia de Benji Bakshi seja muito bem atrativa para isso) e sim uma contemplação dos ambientes pelo que o filme passa, os apartamentos enclausurados, as ruas movimentadas, uma ambientação viva que te faz sentir imerso nesse universo junto de um silêncio ensurdecedor que desperta a pura sensação de todos estarmos vivendo sempre em constante medo e a espera do mal violento aparecer à qualquer momento.

Como já em uma das cenas iniciais em que um personagem está apenas encarando o cigarro pendurado na sacada, lentamente se apagando e logo desfarelando caindo pra baixo, é tanto a forma visual de dizer como o tempo está fora de controle e contra os seus personagens, e como eles já estavam na beirada do precipício para o inferno no caminho que eles estavam para tomar. Onde eles chegam a levar dias até descobrirem os alvos de sua investigação e quando entram em ação é quase tarde demais.

Tudo se encaminhando para o grande clímax do filme que se torna outra de suas versões da descida ao inferno de Dante, como ele já havia feito antes no cenário Faroeste no ótimo Rastro de Maldade, melhor conhecido como Bone Tomahawk, e na prisão no fantástico Conflito no Pavilhão 99, enquanto aqui em Dragged Across Concrete este toma o formato de um típico tiroteio policial vs bandido, mas que desconstrói toda e qualquer expectativa desse tipo de cena com sua construção rítmica bem vagarosa, dando a perfeita característica de um tiroteio realista, mas sem deixar de ser tão cinematográfico.

Com ninguém se apressando em carregar as armas, planejar uma ação, rapidamente refletir sobre a existência quando um deles é atingido, mas sem perder o fator de brutalidade que garante um verdadeiro cenário catártico e emocionalmente brutal quando realmente aprendemos a, senão gostar, apenas compreender os personagens ali presentes.

O ritmo pode se esticar ao ponto de quase uma hora de duração fora de um clímax inteiro, mas que é tão bem conduzido sem perder o fôlego ou um pingo da tensão muitíssimo bem construída, que amarra muito bem a atenção e interesse do público para como raios isso vai terminar. Aliás alguns irão reparar a peculiar semelhança de como o confronto final muito fica se parecendo com uma versão policial do tiroteio final de Três Homens em Conflito, só que em uma situação bem mais distinta e moralmente complexa, mas o alvo do ouro é ironicamente o mesmo.

Só que claro, com extras doses de violência sádica digna de um filme de Sam Peckinpah, garantindo o bel prazer em ver alguns poucos frames de cabeças e partes do corpo decepadas, entre outros desmembramentos chocantes, você encara o nível de sadismo que ele atingiu aqui que é quase bizarro e estranhamente divertido de tão chocante.

Outra boa palavra para definir o tipo de filme que Dragged Across Concrete é. Pois esse pode não ser um filme para ninguém como você pode ter lido aqui, mas pelo menos é sim um que se é capaz de tanto respeitar a imensa coragem que tem nos temas com que lida, e ainda mais por mostrar a marca de um autor apaixonado que novamente o diretor S. Craig. Zahler mostra ter até hoje, e já mal posso esperar o que mais ele vai ter para dar no futuro em suas jornadas rumo ao cerne mais sombrio do ser humano.

Dragged Across Concrete (EUA, 2019)

Direção: S. Craig Zahler
Roteiro: S. Craig Zahler
Elenco: Mel Gibson, Vince Vaugh, Tory Kittles, Laurie Holden, Michael Jai White, Thomas Kretschmann, Don Johnson
Gênero: Ação, Crime, Drama
Duração: 159 min

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