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Nos últimos anos, Pedro Almodóvar oscilou entre ótimos filmes (Volver e A Pele Que Habito) e algumas obras irregulares (Abraços Partidos e Amantes Passageiros). Com mais de 30 anos de carreira, o cineasta estava num daqueles momentos críticos pelo qual todo artista genuíno passa: consagrado e com um estilo próprio, o diretor tinha de encontrar uma maneira de se reinventar sem perder as características que o transformaram em um dos nomes recentes mais venerados da sétima arte. Para a felicidade de seus fãs e de vários cinéfilos ao redor do mundo, Almodóvar não só conseguiu superar as dificuldades, como entregou uma legítima obra-prima.

Julieta (Emma Suárez) está prestes a sair de Madri e ir para Portugal para viver ao lado de Lorenzo (Darío Grandinetti), seu namorado, quando um encontro inesperado com uma figura de seu passado traz à tona sentimentos e pensamentos há um bom tempo enterrados. Decidida a acertar as contas com a própria história, ela escreve uma longa carta endereçada a Antía (Blanca Parés), a filha que não vê há doze anos, na esperança de que as pontas soltas no relacionamento das duas sejam enfim atadas.

Adaptado de alguns textos da escritora canadense Alice Munro, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, é um dos inúmeros acertos que permeiam a última obra do experiente cineasta espanhol. Poderosa e emotiva, a história, que Almodóvar transformou em uma única a partir de três contos distintos, percorre com enorme destreza caminhos ardilosos: ao investir em narrações e flashbacks, o filme corria o risco de soar redundante boa parte do tempo, mas, como um mestre em pleno domínio de sua arte, Almodóvar alterna de maneira brilhante os dois recursos; outra armadilha da qual a obra escapa com louvor é a de parecer extremamente expositiva nas cenas em que a protagonista narra para a filha momentos nos quais ambas estavam presentes, mas a opção de dedicar esses instantes à verdadeiras descrições de estados de espírito se mostra correta e enriquecedora. Por fim, começar a história com o primeiro encontro entre Julieta e Xoan (Daniel Grao), mostrar trechos da época em que a filha era apenas um bebê e fazer com que Antía estivesse longe no dia em que um evento central da trama ocorre não só servem para evitar a já mencionada exposição, como contextualizam a história e dão a esta uma dimensão muito maior.

Sutil nos temas que apresenta, o texto de Almodóvar também é maduro o suficiente para saber que nem tudo precisa ser explicado. Reparem, por exemplo, como a interação entre Julieta e Marian (Rossy de Palma) se transforma ao longo dos anos. Inicialmente hostil, uma vez que Marian, por ser governanta e ter presenciado os sofrimentos enfrentados pela esposa de Xoan durante os últimos dias de vida, recepciona a nova inquilina como se fosse uma invasora, a relação se torna aparentemente mais fértil e pacífica depois de um tempo. No entanto, quando Antía já está mais velha, Marian finalmente deixa a casa. Embora a justificativa dada seja a de que a governanta teve de sair para cuidar do marido doente, o rompimento pode ter ocorrido tanto pelos vários percalços que as duas tiveram de percorrer para estabelecer um vínculo saudável quanto pela possibilidade de Julieta, após ter visitado os pais quando Antía ainda tinha dois anos e notado que a enfermidade que acabou por deixar a mãe presa numa cama tinha levado o pai a encontrar conforto nos braços da empregada, ter visto nos olhos de Marian a mesma reprovação com a qual olhou para a nova amante de seu pai (o que é, inclusive, uma rima temática inteligentíssima). Notem também que não há uma resposta definitiva para o desaparecimento de Antía: ela pode ter sumido por causa da jornada espiritual que empreendeu depois de um tempo num retiro, como pode ter ido embora após descobrir alguns segredos do passado escondidos pelas pessoas ao seu redor. Essas ambiguidades, ao invés de incomodar e gerar uma sensação de incompletude, deixam o filme mais complexo e fincado na realidade.

Igualmente brilhante na direção, Almodóvar exibe um rigor técnico e um controle da mise-en-scène de encher os olhos. Não há em Julieta um plano fora do lugar, um movimento de câmera impensado ou algum objeto deslocado (no entanto, esse rigor nunca deixa o filme engessado, pelo contrário, a concentração com a qual a narrativa é construída é que dá à história a sua fluidez). Tudo que está em cena tem o propósito de levar a trama adiante e enriquecê-la. Até mesmo o simbolismo é usado de forma prática. Percebam como a tempestade presente no segundo ato do filme é ao mesmo tempo uma metáfora visual da briga entre Xoan e Julieta e um elemento que afetará profundamente a vida dos personagens e como a revelação do conteúdo misteriosamente colocado dentro de um envelope serve para ilustrar a fragmentação interior de Julieta e Antía.

Relevante também em seus aspectos técnicos, o filme tem nas cores trabalhadas pelo figurino e design de produção uma de suas principais forças. Enquanto no início as roupas usadas por Julieta são majoritariamente azuis, depois da noite em que dorme com Xoan, ela passa a vestir vermelho constantemente. Representando a paixão que nasce dentro da personagem, o vermelho também simboliza a impregnação do marido em sua vida, já que é a cor que Xoan veste tanto no primeiro encontro entre os dois quanto em outros momentos da história.

Outro destaque é o trabalho realizado pelo montador. Antigo colaborador de Almodóvar, José Salcedo teve pela frente a difícil tarefa de conferir a um filme repleto de saltos no tempo uma lógica cronológica que pudesse ser facilmente acompanhada pelo espectador. E ele não apenas é bem sucedido no emprego orgânico e inventivo de algumas elipses, como brinda o espectador com um momento que admito ter me segurado para não aplaudir de pé. Estou falando da cena em Antía enxuga os cabelos de uma Julieta ainda jovem (a personagem na juventude é interpretada por Adriana Ugarte), quando, após um corte imperceptível, é revelado ao público o rosto envelhecido de Emma Suárez. Além de extremamente elegante, o recurso é usado para ilustrar o envelhecimento precoce e exponencial de Julieta.

Contido e rigoroso, o novo filme de Pedro Almodóvar aponta para o começo de uma nova fase na vida do diretor. Conhecido pelos excessos, o cineasta de Julieta é um artista cujas arestas no estilo foram aparadas sem que nenhum elemento que o caracterize tenha sido negligenciado. O melodrama, as cores intensas, a música dramática, o universo feminino: tudo está lá. Mas, em vez de chamarem atenção para si mesmos, eles servem como apoio a uma história contada sem a menor solenidade e perfeitamente dirigida. Com o novo filme, Pedro Almodóvar deixa de ser um cineasta admirado pelos seus contemporâneos e começa a entrar no rol dos grandes gênios do Cinema. Para um diretor que ainda está em plena atividade e que tem ainda bastante anos pela frente, isso representa um feito e tanto.

Julieta (Idem, Espanha – 2016)

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Darío Grandinetti, Daniel Grao, Inma Cuesta, Roosy De Palma
Gênero: Drama
Duração: 99 min

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