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Desde seus primórdios, o Cinema sempre nos trouxe representações visuais de dinossauros, com suas primeiras aparições marcadas por Brute Force (ou The Primitive Man), de D.W. Griffith, e Gertie the Dinosaur, um dos primeiros curtas animados. De 1914 a 1993, no entanto, tais criaturas jamais haviam dado as caras de maneira tão realista e espetacular – no sentido pleno da palavra – quanto em Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, no qual Steven Spielberg demonstrou, de uma vez por todas, ser possível fazer magia com o Cinema.

Para isso ser possível, Spielberg precisava recriar os dinossauros de uma maneira que realmente pudéssemos acreditar neles e, para tal, utilizou o que de mais moderno havia na tecnologia da época, aliando o revolucionário uso de computação gráfica com efeitos práticos, sem falar de um design de produção que levava em conta não meramente a fidelidade com descobertas paleontológicas, como tomava as devidas liberdades a fim de criar o maior impacto visual. O resultado, claro, fala por si só e foi responsável pela reestruturação do imaginário popular acerca de tais criaturas, a tal ponto que, ao imaginarmos um T-Rex, visualizamos justamente aquele visto no filme, chegando a estranhar quando vemos alguma representação que se distancie do que conhecemos em Jurassic Park.

Mas vamos por partes, afinal, é uma confluência de fatores que torna esse filme o que ele é.

A Teoria do Caos

Antes mesmo de publicar seu romance homônimo, Michael Crichton vendeu os direitos da adaptação para a Universal, que adquiriu tais direitos especificamente para que Spielberg dirigisse a adaptação cinematográfica, após uma acirrada disputa com outros estúdios, também interessados no material base. De fato, já tendo lido o romance original, posso dizer sem sombras de dúvidas que Crichton, o que vale para a maior parte de seus livros, o escreveu já pensando em uma versão cinematográfica. Toda sua narrativa é extremamente visual e consideravelmente mais visceral que o filme em si, diga-se de passagem.

Dito isso, por mais que tenha assinado o roteiro, foi a revisão do também creditado David Koepp, que definiu o caminho a ser trilhado pelo longa-metragem. Com passagens mais violentas, que descrevem as mortes em bem mais detalhes, o texto original foi amenizado, passando a combinar mais com a linguagem utilizada por Spielberg em Tubarão, que lida muito mais com o ‘não-visto’ do que com a superexposição propriamente dita. Evidente que, em termos visuais, Jurassic Park explora muito mais as criaturas que perseguem os personagens do que o filme sobre o tubarão assassino, mas em ambos enxergamos claramente mais similaridades que disparidades.
Assim sendo, temos obras essencialmente diferentes quando comparamos o romance ao longa-metragem, com personagens de mesmo nome propositadamente alterados a fim de se encaixarem com a narrativa mais concisa do Cinema. Personagens como Grant (Sam Neill) e Malcolm (Jeff Goldblum) foram, em partes, ‘fundidos’, permitindo uma estrutura mais linear, que foca quase que exclusivamente em Grant e nas crianças, com breves focos paralelos em Ellie (Laura Dern) e Hammond (vivido pelo saudoso Richard Attenborough).

Essa mudança acaba acarretando no fato que certos personagens são jogados para o escanteio em certos pontos – o próprio Malcolm é um deles, o que pode levantar sobrancelhas daqueles que esperavam maior construção de personagem, mas que, no fim, não gera grandes consequências para o filme como um todo.

Claro que certos pontos ainda soam como detalhes mal planejados, como as mortes de Arnold (Samuel L. Jackson) e Muldoon (Bob Peck), completamente ignoradas pelos outros indivíduos que acompanhamos em tela. Novamente, são pontos menores quando comparados ao restante do filme, mas que ainda podem ser encarados como deslizes.

Torna-se claro que esses, assim como alguns outros personagens, são utilizados para desempenharem funções bastantes específicas dentro da narrativa e nenhum desses secundários conta com papel mais importante que Malcolm, cujo discurso sobre a Teoria do Caos basicamente funciona como um foreshadowing de absolutamente tudo que irá acontecer ao longo da projeção. Vejam: Malcolm fala sobre a possibilidade de pequenas imprevisibilidades surgirem ao longo do caminho, de grandes eventos serem catalisados por minúsculas e aparentemente inconsequentes ações. Em dado momento ele chega a dizer “eu odeio estar certo o tempo todo” e, realmente, ele está certo do início ao fim do filme.

E por que isso? Porque toda a narrativa de Jurassic Park é pautada na imprevisibilidade, em pequenas coincidências acarretando em grandes tragédias – para dar alguns exemplos, podemos pegar o fato dos carros pararem justamente em frente à área do Tiranossauro, ou os raptors aprenderem a abrir portas, ou, claro, o simples fato de Nedry (Wayne Knight) decidir desligar parte dos sistemas, para roubar os genes dos dinossauros, justamente no dia que o parque recebe suas seus primeiros visitantes. Trata-se de um acúmulo de coincidências, que diretamente dialogam, propositalmente, claro, com a linha de raciocínio de Malcolm, culminando na quase nula probabilidade do T-Rex aparecer na hora certa, sem ninguém perceber, para salvar os personagens centrais dos raptors. Assim sendo, é seguro dizer que o roteiro do filme é uma grande brincadeira, que inverte a probabilidade dos eventos, fazendo tudo dar errado na hora errada (para os personagens, naturalmente).

Seu louco filho da p****, você conseguiu

Para transformar esse texto em realidade, Spielberg claramente tirou algumas páginas de Tubarão, chegando a, inclusive, afirmar que Jurassic Park é uma continuação na terra do seu filme de 1975. Como já dito antes, porém, o longa aqui em questão é muito mais expositivo e funciona mais como um thriller de ação do que um suspense propriamente dito. Assim sendo, o diretor desviou dos planos ponto de vista das criaturas e optou por algo que convocasse toda a grandiosidade dessa representação visual das criaturas extintas. Mantendo, no entanto, focos constantes nas reações dos personagens ao verem esses seres, escolha muito bem exemplificada pela cena na qual vêem pela primeira vez o braquiossauro.

Spielberg desejava retratar os dinossauros como animais e não monstros, mais um distanciamento do que vemos em Tubarão e mais de uma vez utiliza closes que mostram os olhos das criaturas, beirando a humanização de tais criaturas, através da ideia de que eles, em algum nível específico, estão raciocinando dentro de determinadas situações.É importante notar, porém, como a abordagem de cada dinossauro é diferente, algo que se estende para o design de som (mas chegaremos nesse quesito em específico mais tarde).

Em termos de direção, Spielberg retrata o T-Rex – claro que vamos começar por ele – da maneira mais ameaçadora possível, filmando sempre de baixo para cima e, quando ele se apresenta no mesmo nível de olhar, vemos apenas um recorte, como o olhar feroz ou as mandíbulas gigantescas. Desde a primeira vez que vemos a criatura temos a total certeza de que será impossível acabar com ela de qualquer forma. Aliás, a própria introdução do bichano já é realizada de maneira grandiosa, com o impacto de seus movimentos fazendo o chão tremer, nos premiando com o emblemático plano da água tremendo, seja dentro do copo ou nas pegadas deixadas no chão.

Assim sendo, notavelmente não há nada ali que possa ir de encontro a ele e sabemos que a única opção dos personagens é fugir. Entra a questão da visão por movimento (que não corresponde à mais recentes descobertas), que dá ao menos uma chance dos visitantes sobreviverem e, claro, sua velocidade aumentada, via licença poética, para possibilitar perseguições mais angustiantes, vide a emblemática sequência do carro com o T-Rex atrás.

Pulamos, então, para os braquiossauros, que são apresentados como criaturas mais dóceis e, não por acaso, são uns dos poucos animais nos quais os personagens de fato encostam. A sequência da árvore, após o amanhecer, demonstra esse tom mais ‘pacífico’ com clareza, colocando o gigantesco animal no mesmo nível de olhar de Grant e as crianças e, claro, os próprios olhos de tais criaturas tiram qualquer sensação de perigo que elas poderiam transmitir, funcionando como uma pausa para respirar após momentos verdadeiramente tensos do filme.

Chegamos, enfim, aos velociraptors, que não por acaso abrem o filme com a cena na qual um dos funcionários do parque é devorado por um desses animais. Spielberg demonstra bem a perspicácia dessas criaturas através de frequentes plenos enquadrando suas cabeças, como se estivessem pensando. Mais de uma vez vemos seus olhares se fechando, como se percebessem algo, por fim, eles praticamente dialogam entre si quando mostrados em conjunto, uma jogada muito bem realizada pelo diretor, que faz deles uma ameaça não através da força bruta, como é o caso do T-Rex e sim através de sua inteligência. São seres implacáveis, caçadores natos, que sabiamente são deixados para os momentos finais do filme, renovando a narrativa através de um perigo diferenciado, que impede que a obra caia na mesmice.

A Vida encontra um Meio

Toda essa exposição seria um grande tiro no pé se Spielberg não tivesse completa ciência da qualidade dos efeitos especiais (práticos e digitais) à sua disposição. Jurassic Park não é apenas fruto da mente de seu diretor, é fruto de seu tempo, uma obra que se tornou realidade através dos avanços tecnológicos em diversas áreas. E duas companhias em específico foram essenciais para que a visão do diretor viesse à tona: a ILM (Industrial Light & Magic) e a DTS, na qual o próprio Spielberg investiu para que fosse fundada.

Originalmente, a ideia era utilizar animatrônicos, como foi o (desastroso) caso em Tubarão, para criar os dinossauros. O CGI, no entanto, acabou ganhando espaço no filme, após Spielberg ser apresentado (e convencido) de que a ILM seria capaz de realizar algo verossímil o suficiente. Foi realizado, então, todo um trabalho cuidadoso para definir a movimentação de cada criatura, para que nada soasse artificial. De fato, o resultado não poderia ser melhor e traz o que muitos longas de hoje em dia não conseguem fazer: dar a sensação de que os animais têm peso, que realmente ocupam aqueles lugares.

Evidente que, o uso do CGI é limitado a certas ocasiões, Spielberg ainda optou por efeitos práticos, sejam pessoas vestidas de raptors ou alguns animatrônicos para criar muitos planos, especialmente os mais próximos, demonstrando, assim, grande preocupação com a textura desses animais, especialmente considerando que boa parte das tomadas são diurnas, dificultando ainda mais esconder ocasionais defeitos dos efeitos especiais. Podemos ver, assim, como o diretor não se deixou levar, como é o caso de inúmeras produções atuais – ele confiou em sua equipe, mas não cegamente e todos ali tinham perfeita ciência do que poderiam e do que não poderiam fazer – evidente que os trechos “impossíveis” de serem realizados do livro foram deixados de fora ainda na sala de roteiristas, portanto não podemos resumir tudo aos esforços da equipe de efeitos ou do diretor.

A verossimilhança da imagem, no entanto, caminha de mãos dadas com o design de som – de nada adianta criar uma criatura que pareça viva, mas não soe viva. Para isso, a DTS fez uso de sons de diversos animais, desde baleias até elefantes, para criar os diferentes sons emitidos por cada uma das criaturas. É importante notar como cada um dos dinossauros emite um som diferente – os graves tons do tiranossauro, por exemplo, dialogam com sua imponência, o poder de sua representação; já os mais agudos e desconcertantes ruídos dos raptors são menos ‘relacionáveis’ com sons de criaturas que conhecemos, flertando com o medo do desconhecido, firmando de vez o temor acerca dessas criaturas que vinha sendo construído desde os minutos iniciais do longa. Há uma certa distinguível malícia nesses sons dos velociraptors que, de imediato, nos atinge.

A cereja no topo do bolo vem na forma da trilha de John Williams, que captura perfeitamente todo o encantamento dos personagens, e do próprio espectador, quando vêem os dinossauros pela primeira vez. Através de variações de dois temas principais (bastante similares entre si), as melodias de Williams oscilam entre esse fascínio, o espetáculo, a beleza de toda essa construção imagética e, claro, a tensão proporcionada pelos carnívoros no longa. Há um ar de fantasia em suas notas, definidas perfeitamente pela rítmica composição do tema principal, que culmina em uma das trilhas mais emblemáticas do Cinema, cujas melodias podem ser reconhecidas em meros segundos.

Quando os dinossauros dominavam a Terra

São todos esses elementos que fazem de Jurassic Park não apenas um filme, mas verdadeira magia, e o que é Cinema se não magia? Afinal, qual outra expressão artística nos faria acreditar tão piamente que estamos vendo e ouvindo dinossauros à nossa frente? É justamente esse espetáculo que nos permite ignorar solenemente aqueles defeitos que levantei lá atrás, permitindo que encaremos esse filme de Steven Spielberg como o marco cinematográfico que ele é.

Claramente uma obra de seu tempo, mas realizada da melhor maneira possível, o longa abriu caminho para centenas de outras produções, incluindo a trilogia prelúdio de Star Wars, a trilogia O Senhor dos Anéis, dentre muitas outras. Jamais, porém, veríamos os dinossauros reinando sobre a Terra como vimos aqui, trata-se de algo único e, felizmente, atemporal.

Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park – EUA, 1993)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Michael Crichton, David Koepp (baseado no livro homônimo de Michael Crichton)
Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, BD Wong, Joseph Mazzello, Ariana Richards, Samuel L. Jackson, Wayne Knight
Gênero: Aventura, Ficção Científica, Thriller
Duração: 127 min.

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