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Pabllo Vittar é um dos maiores expoentes da cultura LGBTQIA+ tanto dentro do Brasil quando fora. Ganhando atenção da mídia ainda em 2015, quando produziu e estrelou como lead singer uma paródia festiva de Lean On, do grupo Major Lazer, sua carreira alavancou de modo assustador e reafirmaram sua posição como um dos maiores ídolos da comunidade e porta-voz da minoria dentro de um crescente espectro moralista e retrógrado. Sua fama concretizou-se com mais força quando, em janeiro de 2017, lançou o primeiro álbum de estúdio intitulado Vai Passar Mal, com músicas contemporâneas que até hoje são relembradas pelos fãs e que se tornaram ícones melódicos para as diversas festas brasileiras.

De qualquer modo, Pabllo encontrou um caminho fortuito e fértil para continuar trilhando sua incrível história – ainda que estivesse pecando, citando os críticos mais eruditos e clássicos da música, “na convicção vocal”. Na verdade, as discussões acerca da extensão dx cantorx pouco importam, visto que suas composições são abraçadas pela maior parte do público e volta e meia são direcionadas para as rádios e os serviços de streaming. Não há como negar que o fenômeno Vittar é real e dá força até mesmo para a entrada de artistas desconhecidos na indústria do entretenimento – afinal, elx teve um início pueril, por assim dizer, e encontrou um merecido espaço no lugar que sempre almejou: os palcos.

E como é de praxe para os cantores pop da atualidade, x artista resolveu lançar seu álbum de surpresa às vésperas de um dos momentos mais conturbados do país, talvez procurando uma forma de amenizar as tensões. Não Para Não, seu segundo trabalho profissional, alcançou números importantes para sua carreira nas poucas horas depois de ter sido lançado – e não é por menos: aqui, o espírito de brasilidade parece ganhar força, mesclando inúmeros estilos musicais e concentrando-os em dez faixas divertidas e no melhor estilo “chiclete”. Ainda que não esteja livre de problemas eventuais, principalmente na identidade da obra, cada música tem o seu valor comercial e abre margens para a produção de mais singles futuros, com imenso potencial artístico.

Buzina pode não ser um início perfeito, mas sem sombra de dúvida é envolvente, indicando o tom predominante do restante das tracks. Pabllo encontra o território adequado para uma letra animada, otimista e própria de uma cultura ballroom dos dias de hoje, com o crescendo bem marcado até o beatdrop do refrão mudo, que traz referências de um synthpop travestido por marcas brasileiras. É claro que a sutileza é o que ganha mais pontos aqui, e não seria até Seu Crime que a miscelânea se estrutura como premissa: o definitivo ponto alto do álbum é uma construção nostálgica e atemporal que conversa tanto com o estilo do pop nacional dos anos 2000 quanto com o forró e o brega, num mergulho inesperado e quase catártico.

Ainda assim, a produção não abre mão das batidas eletrônicas – e nem deveria. É fácil ver a mantida parceria entre a lead singer e compositores como Diplo e Rodrigo Gorky, este estando com elx desde as primeiras investidas no âmbito mercadológico. Em Problema Seu, o primeiro single dessa era, o refrão verborrágico que facilmente poderia ser empregado dá lugar a um respiro, um compasso mais uma vez bem demarcado que ajuda em sua fluidez. As tangências do eletropop mostram as caras com repaginações mais originais que outras faixas. Porém, uma coisa que pode ser dita é que a originalidade em questão de forma alguma chega aos pés da espontaneidade de seu trabalho predecessor, e os motivos são bem óbvios.

Vittar agora está dentro de uma comunidade que, se não x respeita por motivos injustos, deve aceitar o que representa. Manter o status está nos planos dx artista – e é justamente que elx opta por um disco virado mais para o comercial que para o pessoal. Em momento algum tiro o mérito das músicas, ainda mais porque todas são muito bem aproveitadas por um time competente e que definitivamente merece reconhecimento. Mesmo assim, a tríade formada por Não Vou Deitar, Ouro e Trago Seu Amor de Volta parece mecanizada quando justaposta ao restante do álbum: não importa em que ordem você as escute, as semelhanças são indiscutíveis e representa um leve deslize. De qualquer forma, a participação de instrumentos como o bumbo e o pandeiro conseguem incrementá-las e poli-las em certa parte.

As motivações de alegria não são as únicas que movem Não Para Não. Pabllo também faz bom uso de um escopo mais melódico em detrimento das compulsórias batidas em Disk Me. Ainda que a letra seja reflexo inerente à grande parte das faixas, falando sobre relacionamentos, amores não correspondidos e ilusões românticas, é a voz e a suavidade da composição sonora que marcam um passo interessante e funcionam como uma extensão técnica de Indestrutível. É claro que há algumas imperfeições; todavia, a conexão é quase tão imediata que as mudanças bruscas existentes na construção da faixa desvanecem em um piscar de olhos. A calmaria e a serenidade dessa ballad puramente brasileira é o que vale mais a pena a ser discutido.

Apesar do declive supracitado, a obra se reencontra novamente em um exponencial crescente, partindo de Vai Embora, passando por No Hablo Español, uma divertida e enraizada canção icônica e anacrônica, e culminando em Miragem, uma das melhores produções dx cantorx. Desde a contínua e fluida mudança do ritmo até a manutenção de notas seguras e bem estruturadas, as entradas carnavalescas e nostálgicas quase gritam por atenção sem fazer muito – e, no final, funcionam muito bem.

O segundo disco de Pabllo Vittar pode até perdido um pouco do enlouquecido brilho de seu trabalho inicial, mas mesmo sua estrutura mais pensada e mais comercial não são capazes de tirar o potencial de envolvência. Não Para Não se entrega à busca de um espírito próprio da nossa cultura e o faz dentro de um fusionismo musical interessante e bastante digno de reconhecimento.

Nota por faixa:

  • Buzina – 3,5/5
  • Seu Crime – 4,5/5
  • Problema Seu – 4/5
  • Disk Me – 4,5/5
  • Não Vou Deitar – 4/5
  • Ouro (feat. Urias) – 3,5/5
  • Trago Seu Amor de Volta (feat. Dilsinho) – 3,5/5
  • Vai Embora (feat. Ludmilla) – 4,5/5
  • No Hablo Español – 4/5
  • Miragem – 4,5/5

Não Para Não (Idem, Brasil – 2018)

Label: Sony Music
Lead: Pabllo Vittar
Composição: Pabllo Vittar, Maffalda, Zebu, Rodrigo Gorky, Pablo Bispo, Arthur Marques, Diplo, King Henry, Alice Caymmi, Noize Men
Gênero: Dance-pop, Eletropop
Faixas: 10
Duração: 26 min.