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O Ano que Vivemos em Perigo traz a segunda grande produção que Peter Weir assumiu em sua carreira em franca ascensão. Tendo abordado bem um cenário histórico polêmico em Gallipoli, o diretor logo mergulhou em outro tema dificílimo procurando trazer uma boa narrativa de romance em meio ao caos do genocídio indonésio de 1965, marcando o início do período mais brutal do governo marxista de Sukarno.

Entretanto, mesmo trazendo um cenário tão interessante para debate, algumas das deficiências do início da carreira de Weir se fazem presentes na obra, em um estranho retrocesso em comparação com seu grande filme anterior.

Palavras de Sangue

Às vezes há um enorme zeitgeist no Cinema. Nesses períodos, diversos filmes com temas similares são lançados com pouco tempo de intervalo entre eles. Os anos 1980 foram bastante expressivos para narrativas envolvendo jornalistas visitando países passando por momentos políticos instáveis. O Ano que Vivemos em Perigo certamente é o pontapé inicial para outras obras como Salvador, Deadline e Sob Fogo Cerrado surgirem a ponto de criarem um subgênero caraterístico.

Aqui, vemos a jornada do repórter australiano da ABS, Guy Hamilton (Mel Gibson não muito inspirado), enviado para acompanhar de perto toda a situação caótica instalada na Indonésia. Chegando lá, rapidamente se torna amigo do fotógrafo local, Billy Kwan (Linda Hunt) que apresenta a ele uma assistente da embaixada britânica, Jill Bryant (Sigourney Weaver espetacularmente linda, mas apática). Nesse intenso florescer de paixão, o casal terá que enfrentar o pior para escapar de um país perigoso quando todas as máscaras caem.

Retomando a parceria no roteiro de Gallipoli, Weir escreve com David Williamson mais uma vez preservando a incrível lentidão de seus primeiros filmes, embora comportadas em narrativas mais interessantes. De cara, o principal problema do texto dos roteiristas é o tratamento dado ao protagonista consideravelmente desinteressante, de poucas motivações ou complexidade. Ele é apenas uma testemunha dos eventos que acontecem no país.

Apesar do romance mal estruturado e ligeiro com Jil Bryant dar algum gás para elevar nosso interesse com o personagem, os roteiristas escolhem rotas bobas, comportando clichês desnecessários para separá-los no fim do segundo ato, conferindo algumas camadas que certamente dão uma ambiguidade moral para o personagem, o aproximando de um babaca ganancioso. Embora haja esse ganho, é triste que o filme sacrifique o bendito romance para revelar um conflito inédito e tenha tão pouco tempo para explorá-lo.

Jill, infelizmente, segue a mesma linha de complexidade do protagonista, tendo muito menos espaço para mostrar algo interessante. É curioso que os roteiristas tentem aproximar tanto esse drama de romance para uma estrutura clássica de film noir envolvendo um mistério (desinteressante), uma femme fatale e um narrador over.

No caso, a narração fica por conta do melhor personagem da obra, Billy Kwan. Envolto por um enorme mistério, o personagem é um fotógrafo anão que, além de lidar com as constantes provocações de outros repórteres estrangeiros, sofre constantemente com a situação degradante de seu país e da miséria que o povo sofre.

Apesar de muitas coisas ficarem na sugestão sobre Billy, é através da narração dele sobre os outros personagens que temos a apresentação de alguma profundidade sobre o casal. Há também diversos conflitos internos que o personagem sofre, como uma paixão nada secreta sobre Jill, além de uma família que ele adota. Diversos pensamentos críticos sobre o governo surgem, além do temor da guerra civil se aproximar, desvirtuando ainda mais o sentido de Estado daquele lugar.

O destaque fica para a performance de Linda Hunt ao encarar um papel masculino sem apostar em qualquer maneirismo ou afetação. A conquista de seu Oscar é mais do que merecida se tornando a única mulher até hoje a receber a estatueta por encarnar um papel masculino. Aliás, o filme inteiro seria melhor e mais corajoso se tivesse apostado em Billy como o protagonista.

Em termos de história, temos um progresso não muito agitado ou interessante. Há muita calmaria e quando a tempestade finalmente chega, o protagonista é colocado para fora da ação. A narrativa se arrasta demais com personagens desinteressantes conferindo características superficiais a boa parte deles. Porém, há sim elementos que O Ano que Vivemos em Perigo um bom filme.

O Perigo de Viver

Mesmo que Weir cometa erros bobos com o roteiro do filme, retomando antigos vícios de seus primeiros filmes, o contínuo crescimento da competência com direção é mais que evidente. Obviamente proibidos de filmar na Indonésia, Weir e o espetacular design de produção conseguem recriar todo o look oprimido de um país arrasado pela fome, miséria, violência e prostituição.

Tudo é orgânico e muito vivo em diversas das cenas envolvendo a cidade. Um nível de encenação para imprimir realismo bastante raro de se ver, digno de produções caríssimas. A fotografia de Russell Boyd, trazendo um forte grão, bastante chuva e poucas luzes, conferem o clima perfeito de decadência e também do perigo que dá o título ao filme.

É nítido que Weir está menos inspirado – provavelmente pela exaustão de encaminhar projetos em anos consecutivos. Ele opta por não usar a câmera além do modo mais trivial, com planos pouco inspirados e uma montagem ordinária que nunca consegue provocar tensão até mesmo em cenas definitivas para os personagens, como se houvesse um próprio desinteresse do diretor em oferecer algum dinamismo ou emoção.

Porém, a ambientação fantástica criada para o período, algumas boas sequencias de sonho que revelam a crescente paranoia em Guy e a encenação dos momentos mais tumultuosos do período exibem um bom capricho da direção. A múltipla variedade de cenários, além de outros que evocam toda a beleza natural do lugar, tornam o filme sempre interessante visualmente. A ótima trilha musical de Maurice Jarre, empenhado em trazer tonalidades características do país para as músicas do longa que conferem sim maior identidade na obra.

Hipnose da Atmosfera

Longe de ser o melhor trabalho de Peter Weir, O Ano que Vivemos em Perigo se sustenta bem como um entretenimento de qualidade, apesar do roteiro sofrer com uma notória falta de foco, refém do estilo lento que o diretor tanto admira. Há uma criação de atmosfera espetacular, além da performance inspiradora de Linda Hunt.

Uma pena que mesmo focado em um acontecimento tão brutal, não tenhamos uma maior compreensão do evento e do que se sucedeu depois da carnificina. O exercício sobre o jornalismo é falho para encaixar um romance que não engrena e sofre com reviravoltas bobas. Apesar de haver perigo nesse fatídico filme, não há muita emoção para quem o assiste.

O Ano que Vivemos em Perigo (The Year of Living Dangerously, EUA, Austrália – 1982)

Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir, David Williamson
Elenco: Mel Gibson, Sigourney Weaver, Linda Hunt, Bill Kerr, Michael Murphy
Gênero: Drama, Romance
Duração: 115 minutos.

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