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Filmes baseados em histórias reais tem uma deliciosa inclinação para a ruína de qualquer almejo a se tornar uma obra-prima: os clichês de gênero. É claro que, em se tratando de acontecimentos verídicos, pouco se pode fazer para fugir desses maneirismos; entretanto, é possível sim criar maneiras de contar a mesma história de perspectivas diferentes ou com uma identidade um tanto quanto transgressora, criando uma estética original e agradável para uma audiência saturada com narrativas desse jeito. E as coisas ficam ainda mais complicadas quando, além da verossimilhança, o material original ser um romance – as saídas ficam mais apertadas, mas ainda existem.

Temos inúmeros casos em que o encontro desses mundos foi realizado de forma aplaudível, como por exemplo com a adaptação cinematográfica de O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger, cuja história gira em torno de um heterônimo da autora, a qual passou pelas mesmas situações que a protagonista do filme. A franquia Invocação do Mal também segue um padrão similar de apreço crítico e público, resgatando a vida do casal Warren e relatos escritos e traduzindo-os para as telonas. E é aí que entra O Castelo de Vidro, novo longa-metragem do diretor Destin Daniel Cretton, baseado no romance autobiográfico homônimo de Jeannette Walls: a tentativa é focar em uma montagem diferenciada e paralela – e o esforço é inegável; só não é alcançado como a priori se desejava.

A releitura não se preocupa em manter as identidades das personas reais sob sigilo; desse modo, a trama principal gira em torno da própria autora, aqui interpretada pela incrível versatilidade e amadurecimento de Brie Larson (trazendo seu carisma e sua capacidade de mergulhar em um personagem de seu trabalho em O Quarto de Jack). Nos dias atuais, Walls é uma jornalista estável, pronta para contrair matrimônio com David (Max Greenfield) e fazendo de tudo para apoiá-lo em sua carreira como designer, sendo com jargões próprios de sua antiga vida ou até mesmo com o carregado sotaque sulista que não deixou de ser abandonado quando esta se mudou para os grandes centros cosmopolitas. Entretanto, desde o princípio sentimos que alguma coisa está errada: quando a conversa migra para seus parentes, ela hesita alguns momentos antes de falar dos incríveis projetos que seu pai idealizou sobre a extração de minério de ferro, ou sobre o talento artístico da mãe.

Tudo começa a adotar um tom de estranheza quando somos transportados para três décadas atrás, numa sequência durante a qual a pequena Jeannette está com fome e sua mãe está muito ocupada terminando um quadro para lhe fazer comida. Sendo “pressionada” por ela, a jovem começa a preparar sua própria refeição até que é consumida pelas chamas e levada às pressas para o hospital. A cena tem grande sucesso no quesito de emoções contraditórias, visto que não podemos encontrar qualquer naturalidade no que acabamos de ver: pais completamente irresponsáveis e excêntricos deixando seus filhos à mercê de situações perigosas e quase mortais – as queimaduras que Jeannette sofreu são carregadas por ela até mesmo quando adulta.

E então entendemos o teor da narrativa que nos é apresentada: Walls é uma colunista numa revista de fofoca que, após internalizar todos os traumas de seu passado, decide desnudar sua própria história na qual teve de lutar para sobreviver à negligência dos pais disfuncionais. Tão genial quanto genioso, Rex (Woody Harrelson), o pai, vivia de acordo com regras que não seguiam o tradicionalismo das famílias do interior e, apesar de seu amor não-ortodoxo pela família, emergiu como uma figura extremamente dúbia, regida por conveniências e seu nível de embriaguez. Rose Mary (Naomi Watts), pintora e professora, renegava a escola formal por tolher a criatividade infantil e ao mesmo tempo expunha seus próprios filhos à fome e ao frio, alegando que as adversidades contribuíam para o fortalecimento físico e psicológico.

A trama inteira funciona como uma grande montanha-russa. De início, sentimos um frio na barriga, a mesma sensação que os quatro filhos da família protagonista, mas logo depois entramos em uma constância inerte de subidas e descidas que se mantém previsível até o final do segundo ato. Na maioria das vezes, o roteiro assinado tanto pelo Cretton quanto por Andrew Lanham consegue roubar essa premeditação de acontecimentos com diálogos incríveis e existencialistas que demonstram a sagacidade de Rex e como ele deseja transpassar sua sabedoria para a “filha favorita” – Jeannette. Porém, a longevidade da obra em si – que ultrapassa os cento e vinte minutos – é suficiente para tirar o brilho das viradas e torná-lo opaco o suficiente para nos distanciar dos personagens e de suas relações.

Os grandes deslizes vem com a direção. Primeiro, a alternância de narrativas não tem qualquer equilíbrio: ao vez de se preocupar com a tonalidade destoante entre as duas fases da protagonista, Cretton decide jogar suas fichas na cronologia passada, permanecendo muito tempo escavando as minuciosas discussões que Jeannette e Rex tinham sobre bebedeira, relacionamentos e até mesmo futuro. Apesar de não se portarem como uma família conservadora, o personagem encarnado por Harrelson é controlador e completamente deturpado no tocante a prioridades; sua filha é o exato oposto e sempre fez de tudo para dar um pouco mais de esperança para seus irmãos e para si mesma. O problema é quando tudo se trata disso, restringindo os escapes narrativos.

Segundo, Cretton parece ter uma queda por criar momentos melodramáticos. As composições, perscrutadas com um potencial incrível, são desperdiçadas pelos clichês do gênero de drama, buscando com uma intensidade absurda as resoluções límpidas e plenas do reencontro de pai e filha, do perdão e do esquecimento dos traumas como evolução pessoal. Diferentemente de seus trabalhos anteriores, como Short Term 12 (também estrelado por Larson e funcionando como uma narrativa de superação), aqui o diretor implora para que você se emocione, saturando o público com a mesma história de sempre em detrimento do que poderia ser uma nova perspectiva para esse nicho cinematográfico.

Por fim, O Castelo de Vidro é um filme interessante por seus atores e pela química que trazem em cena – com ressalva para os maneirismos caricatos de Watts e sua dissonância em comparação com os outros personagens -, mas que peca muito na estética e na identidade fílmica. Tudo bem, esta pode não ser a história mais emocionante do ano, mas sem dúvida é capaz de nos fazer refletir, ainda que infimamente, sobre nossos próprios rancores.

O Castelo de Vidro (The Glass Castle, EUA – 2017)

Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham, baseado na obra homônima de Jeannette Walls
Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Josh Caras, Sarah Snook, Ella Anderson, Brigette Lundy-Paine
Gênero: Drama
Duração: 127 min.

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