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Algo que certamente tende a beneficiar uma produção em sua corrida pelo Oscar de filme estrangeiro é, como já é de se esperar, o fato de mostrar a realidade sócio-cultural do país em que foi feita. No caso de O Insulto, que concedeu ao Líbano sua primeira indicação ao prêmio da Academia, há um pequeno e curioso paradoxo: sim, o longa serve como uma porta de entrada perfeita para quem quer entender objetivamente o conflito entre judeus e cristãos que ocorre naquela região; ao mesmo tempo, este trabalho do cineasta Ziad Doueiri é, também, um reflexo de um problema universal, indicando como o ódio e a intolerância são inevitavelmente corrosivos para qualquer relação – e é uma pena, portanto, que ambos estejam tão presentes em nossa realidade (basta passar dois minutos numa rede social como o Twitter para saber do que estou falando).

Dirigido e escrito de maneira grandiosa por Doueiri (junto à co-roteirista Joëlle Touma), O Insulto começa nos apresentando ao cristão libanês Tony Hanna, que aguarda o nascimento de seu filho ao lado da esposa Shirine. Quando um judeu palestino chamado Yasser Abdallah Salameh passa a trabalhar para a prefeitura e ordena que o encanamento de Hanna seja consertado, este imediatamente o trata com truculência e, mais tarde, o xinga por ser um refugiado, chegando a lamentar que seu povo não tenha sido exterminado no passado. A partir daí, os dois vão ao tribunal e iniciam uma guerra que aos poucos assume ares megalomaníacos, deixando a rivalidade vazar para as ruas e atenuando a tensão entre libaneses e palestinos.

Abordados de forma apropriadamente tridimensional, os dois personagens principais são estabelecidos não como meros avatares de ideologias pré-concebidas, mas como seres humanos que carregam preconceitos reais, traumas particulares e indignações constantes. Assim, é provável que Tony Hanna seja simultaneamente a persona mais nojenta e complexa que surge ao longo do filme: por um lado, é lógico que seu anti-semitismo é condenável (para dizer o mínimo), merecendo uma punição severa pelo discurso de ódio que propagou (aliás, é triste que “discurso de ódio” seja uma expressão que muitos adoram confundir com “liberdade de expressão”); por outro, conforme a narrativa progride e nos aprofundamos mais nos dramas pessoais de Tony, compreendemos que ele é também uma vítima de um problema maior – o que obviamente não justifica sua agressividade discriminatória. Neste sentido, inclusive, a performance de Adel Karam torna-se digna de nota, conseguindo ilustrar com precisão todas as nuances do personagem (desde a pose viril que pretende manter ao xingar o imigrante até a dor que sente ao ver como a briga impactou o parto de seu filho e ao relembrar, no terceiro ato, seu passado inquestionavelmente trágico).

Do outro lado do espectro, há Yasser Abdallah Salameh, outro que carrega, à sua própria maneira, uma história pregressa infeliz: além da necessidade de ter se refugiado (o que já é, por si só, uma tragédia), o judeu palestino ainda é obrigado a receber insultos e ser visto com maus olhos apenas por ser… um refugiado judeu palestino. Aqui, por sinal, o ator Kamel El Basha acerta ao preservar um semblante sempre introspectivo e fragilizado, como se jamais abandonasse o peso da tristeza que a realidade atirou em suas costas – e por causa disso que o intérprete (e o roteiro) merece pontos pelo que acontece no ato final, quando um Yasser bem mais irreverente se impõe de forma reveladora e pega o espectador de surpresa, já que passou o tempo inteiro com uma expressão sofrida.

Comandado por Ziad Doueiri de modo progressivamente instável e angustiante (mantendo a câmera sempre inquieta e evocando uma aura quase documental), O Insulto é fotografado por Tommaso Fiorilli com inteligência e praticidade, alternando entre tomadas aéreas que exploram com eficácia as paisagens urbanas do Líbano e planos fechados que conferem uma atmosfera claustrofóbica às cenas que envolvem diálogos (principalmente aquelas ambientadas no tribunal). E se a ausência de trilha sonora serve para construir a apreensão do espectador através de sons diegéticos (o que é digno de nota), a montagem de Dominique Marcombe ajuda a transformar a narrativa numa experiência ágil e emocionalmente poderosa (embora eu não tenha conseguido aceitar os fades, que em alguns momentos quase me levaram a crer que uma falha técnica havia ocorrido no projetor do cinema em que me encontrava).

Para completar, O Insulto é intrigante no que se refere não só aos temas que discute, mas ao gênero que pertence: assumindo uma postura visceral desde o princípio, quando mostra parte do dia-a-dia de Tony Hanna e introduz seu conflito com Yasser Abdallah Salameh como se fosse algo lamentavelmente rotineiro, o longa executa uma transição curiosa ao transformar-se num “filme de tribunal” – e por falar nisso, não é exagero dizer que essa é uma obra que merecia ser exibida em faculdades de Direito. E que tudo isso esteja a serviço de uma história relevante que mergulha em assuntos espinhosos, porém indispensáveis na sociedade odiosa em que vivemos, é uma prova de que Ziad Doueiri fez um trabalho, no mínimo, engenhoso, perspicaz e admirável.

Conseguindo encaixar um desfecho relativamente otimista sem diminuir o impacto de tudo aquilo que vimos antes, O Insulto pinta um retrato social denso e grandioso – e mesmo que o faça sem sutileza alguma, isto não pode ser encarado como demérito, já que funciona muitíssimo bem dentro da proposta deste que é, sem dúvida alguma, um filme importantíssimo em tempos de ódio e intolerância crescentes; tanto no Líbano quanto no Brasil e no resto do mundo.

O Insulto (قضية رقم ٢٣ — Líbano, 2017)

Direção: Ziad Doueiri
Roteiro: Ziad Doueiri, Joelle Touma
Elenco: Adel Karam, Kamel El Basha, Rita Hayek, Camille Salameh, Diamond Bou Abbound, Tatal Jurdi
Gênero:
Drama
Duração: 112 min

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