Quatro Vidas de um Cachorro é uma dessas produções que acabam tornando-se controvertidas antes mesmo de sua estreia por motivos que, em geral, não são especificamente cinematográficos. No caso do filme dirigido por Lasse Hallström, o que permanecerá por um certo tempo na memória não será exatamente a obra, mas possivelmente o infame vídeo das filmagens, no qual a equipe tenta obrigar um dos cães-atores a mergulhar numa piscina assustadora – evidentemente contra sua vontade.

Se o mundo fosse um interminável cenário de “La La Land”, onde jovens brancos e lindos sapateiam em engarrafamentos enquanto confrontam o terrível de dilema entre se tornar ou não uma celebridade milionária, provavelmente “Quatro Vidas…” seria o entretenimento familiar perfeito: é bem produzido, bem fotografado, a direção não perde tempo ofuscando as verdadeiras estrelas (de quatro patas), a metragem é precisa, há um delicado balanço entre risos e lágrimas.

Ocorre, no entanto, que não estamos num musical vintage de Hollywood. Então confrontemos a realidade antes de retornar ao filme.

Uma das maneiras possíveis de percorrer a História do Cinema é através da evolução do tratamento conferido a atores não humanos que, para proporcionar o resultado desejado pela produção nas telas, foram inumeráveis vezes submetidos a condições hostis – quando não perversas -, expondo uma face da indústria arrebatada por cinismo. Tão duvidoso quanto fingir que tal realidade não existe é supor que os abusos tenham tido início com “Quatro Vidas…” ou que a baixeza moral de colocar seres sencientes a serviço do entretenimento lançando mão de violência é exclusividade da “frieza capitalista” de Hollywood. Ou alguém se ilude imaginando que a galinha está se divertindo na perseguição que dá início ao brasileiro “Cidade de Deus”?

Embora no início do cinemão mais comercial e em gêneros clássicos como o faroeste (onde cavalos que pareciam estar se jogando de penhascos estavam, efetivamente, sendo jogados) os abusos tenham se tornado mais reconhecidos e incômodos ao longo do tempo, é difícil ignorar que figurões do “cinema de arte” como JL.Godard (em “Week-end à Francesa”). F.F.Coppola (em “Apocalipse Now”), A.Tarkovsky (em “Andrei Rublev“), Luís Buñuel (em “Terra sem pão”), M. Haneke (em aborrecida recorrência). Lars Von Trier (em “Manderlay”) e P. Almodóvar (no repugnante episódio de “Fale com Ela”) tenham se deparado, mais cedo ou mais tarde, com o conflito ético envolvido no assunto, sem aparentemente terem cortado suas tomadas até que a vaidade autoral houvesse sido satisfeita.

Mais recentemente, fato este potencializado pelo dinamismo da troca de informações em redes sociais, superproduções como “Cavalo de Guerra”, “Hobbit” e “Speed Racer” também foram flagrados em circunstâncias não exatamente auspiciosas pelo tratamento dado aos atores não humanos, obrigando a indústria e a audiência a mais uma vez confrontar-se com a pergunta incômoda: é correto submeter animais a constrangimento, cansaço ou simplesmente violência com o objetivo de divertir as pessoas e ganhar dinheiro com isso?

Sabe-se que o conflito tornou-se uma questão social mais ampla quando, durante as filmagens do opulento e fracassado “Portal do Paraíso”, de Michael Cimino, acidentes recorrentes levaram à morte de muitos cavalos (novamente, os pobrezinhos), acirrando o processo que desencadearia na obrigatoriedade de monitoramento dos animais em sets de filmagem, a qual supostamente deveria inibir os abusos na indústria norte-americana – o que evidentemente revelou-se fraudulento ou inócuo em casos como o de “Quatro Vidas de um Cachorro”, onde a indignidade talvez seja amplificada pelo fato de que o filme busca entre os aficionados por cães o retorno de seu investimento.

Embora o vídeo vazado das filmagens torne clara a constatação de que, possivelmente, conseguir excelência de resultados usando atores não humanos em grandes produções envolva, por si só, submeter tais animais a um estresse semelhante ao dos outros profissionais – pelo qual eles, contudo, não puderam optar – há ainda uma outra espécie de revelação que ajuda a formar um juízo mais razoável a respeito da produção e da Hollywood atual.

O vídeo deixa claro, da mesma forma que o cachorro não está feliz em ser submetido à uma situação perigosa à força, que é ingenuidade acreditar no “diretor” como maestro rigoroso dos filmes produzidos em escala industrial, em sets de produção fragmentados e paralelos – portanto, é tolice quando alguém imagina que o diretor possa estar diretamente envolvido nas inumeráveis decisões tomadas o tempo todo nos meandros do complexo processo de produção cinematográfica (especialmente quando falamos de filmes que concentram dezenas de milhões de dólares e estão seriamente condicionados a cronogramas rigorosos, em cujos eventuais atrasos podem residir prejuízos também milionários).

“Eu não estava presente”, dirá Hallström – ele mesmo, longe de ser um neófito na indústria -, pretendendo não ser responsabilizado (o que é ridículo, visto que ele dificilmente usaria a mesma alegação para recusar uma premiação, para ficar no exemplo mais banal). O treinador do cachorro, por sua vez, é flagrado durante o vídeo vazado passando carinhosamente a mão na cabecinha confusa do bicho – ele também não é o culpado. Quem leva a culpa, então, se é impensável sequer imaginar uma cultura de “bem-estar animal” fora dos limites do capitalismo? (Sendo tal cultura decorrência direta do excedente de riqueza, uma vez que animal nenhum tem expectativa a qualquer “direito” numa sociedade primitiva ou onde as pessoas morrem de fome – vide os casos recentes da Venezuela e da Síria, onde cachorros convertem-se de companhias em refeições porque as pessoas estão famintas).

Se há alguma lição que todos podemos tirar do episódio é que “filmar a qualquer preço” tem, sim, um preço bem alto: no caso deste filme, talvez seja uma perda significativa do investimento porque nenhum homem foi capaz de perceber – durante a filmagem – que a suposta economia de forçar aquele cão, naquele momento, a fazer algo que ele não queria, para não atrasar o cronograma, por exemplo, seria uma indignidade muito cara a ser cobrada, mais tarde – especialmente quando os sets de filmagens estão repletos de câmeras (vejam só!) e, eventualmente, celulares por todos os lados.

Mas e o filme, o que dizer dele? Mais uma vez, é preciso salientar que o realismo (uma opção dos produtores) cobra seu preço. Enquanto o resultado de ter uma composição bem mais natural e orgânica na tela (os cachorrinhos estão lá, e são irresistíveis) posiciona o filme muito acima de boa parte das produções atuais (e mesmo as mais caras), tão mal resolvidas na tela do computador (porque falta disposição e coragem para resolver na hora de filmar), aqui podíamos muito bem ter animais computadorizados que talvez poupassem estresse e polêmica – mas aí não seria a vez de a “crítica” reclamar do artificialismo das cenas?

Inspirado no livro do cronista W. Bruce Cameron, “Quatro Vidas…” acompanha as peripécias de um cão (ou de sua alma, talvez) por sucessivas reencarnações em busca do reencontro com seu dono original. O enredo não problematiza algumas questões (como por exemplo onde estava a alma do cãozinho antes da primeira vinda ao mundo), mas resolve muito bem todas as outras às quais se propõe. Como não poderia deixar de ser numa produção como esta, o palco está todo armado para que os animais trabalhem (com todas as implicações disso, como se viu). Então, os atores humanos têm peso secundário, o que apenas reforça a proposta do filme e a torna mais bem-sucedida na execução.

Se você gostou de filmes como “Lembranças de Outra Vida” e “Marley & eu” (com os quais esta produção guarda notáveis semelhanças), irá inevitavelmente encantar-se com “Quatro Vidas de um Cachorro” – que é possivelmente um filme ainda mais atraente que ambos. Mas se recomenda não esquecer que a indústria do cinema (com seus inumeráveis sabichões) costuma ser péssima conselheira (em política, em economia, em conflitos internacionais) se não conseguiu resolver sequer o conflito a respeito de como tratar animais em sets de filmagem, atingindo ainda assim o realismo e o coração do público – sem, contudo, impor a quem não tem poderosos advogados ou agentes um sofrimento desnecessário e que nada tem de “cinematográfico”.

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