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Meu primeiro contato com Star Wars foi em 2002, com Ataque dos Clones. Ainda com oito anos e muito ingênuo, nem fazia ideia de que já existiam os episódios IV, V e VI em DVD e VHS. Somente com poucos meses antes da estreia de A Vingança dos Sith, em 2005, acabei comprando a trilogia antiga. Enfim, conheci o sexteto mais querido do cinema: Luke, Leia, Han Solo, Chewbacca, C-3PO e R2D2.

Não há palavras para descrever como Star Wars afeta uma criança. É absurdamente mágico. Até mesmo dos episódios I, II, e III eu gostava quando pequeno. Simplesmente, me sentia hipnotizado pelas batalhas de sabres de luz, dos efeitos visuais e sobre a Força – mesmo que eu não entendesse metade dos filmes graças a burocracia e politicagem da nova trilogia.

Depois de ter visto todos os filmes lançados até 2004, em 2005 eu fui assistir à A Vingança dos Sith na estreia. E sinceramente, eu tinha adorado. O mais engraçado era que eu tinha consciência de que aquela provavelmente seria a última vez que eu veria Star Wars no cinema. Logo, eu apreciei o filme de outro modo.

Então cresci. Fiquei mais velho, rabugento, chato e crítico. Mas ainda assim tinha uma memória afetiva forte com a saga Star Wars. Então revi e me toquei que o encanto começava a acabar, principalmente pela trilogia prequel. Em 2012, todos foram pegos de surpresa quando a Disney anunciou que havia comprado a Lucasfilm por 4 bilhões de dólares – o negócio de uma vida. Três anos depois, aqui estamos. Novamente, Star Wars desperta nos cinemas do mundo.

O filme é, sem dúvida alguma, o que os fãs tanto pediam por mais de trinta anos. Finalmente, com a remoção de George Lucas, que atentava com sua obra a cada filme e edição especial, a franquia conseguiu se reerguer. Somente com esse episódio, a Disney conseguiu entregar um filme superior a toda trilogia prequel, mas conseguiu ao trabalhar dentro da zona de segurança tendo muita coragem em apenas um momento – que tornou esse filme histórico.

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A narrativa se concentra em um drama de busca. A busca por Luke Skywalker. O cavaleiro Jedi desapareceu. E a partir das cinzas do Império, a Primeira Ordem se ergue para atentar contra a paz da Nova República. Com isso, a última esperança da galáxia reside em encontrar onde Luke se escondeu. Então, Leia envia seu melhor piloto a Jakku para pegar uma peça de um mapa que pode mostrar a localização do Jedi. Porém, a Primeira Ordem e Kylo Ren atacam o vilarejo onde Poe Dameron está. Sem saída, Poe coloca o mapa no droid BB-8 e ordena que ele procure ajuda em alguma cidade.

BB-8 foge e Poe é capturado por Kylo. Enquanto deriva no deserto, BB-8 é atacado por um alienígena, mas é salvo pela catadora de sucata, Rey. Ela resolve ajudá-lo a chegar na base da Resistência após o dróide fazer um charme. Assim se inicia a nova trilogia de Star Wars.

Lendo essa breve sinopse, qualquer um que tenha conhecimento básico sobre a franquia, já deve ter notado como a narrativa é muito, mas muito semelhante à história de Uma Nova Esperança. O roteiro é escrito por J.J. Abrams e Lawrence Kasdan, o mesmo roteirista dos episódios V e VI – o que garante uma vaga noção de continuidade da história já que os personagens clássicos aparecem na metade do filme.

Como havia dito, podem ter certeza que esse roteiro teve amarras criativas intensas para trabalhar na margem do conforto e reapresentar a história para uma nova geração de espectadores. Sendo direto, O Despertar da Força é um “remake” de Uma Nova Esperança. E a partir daqui o texto contará a trama inteira incluindo a maior reviravolta do filme então peço, por favor, não continue lendo se não viu ao filme. Para quem não viu e conhece Star Wars, tenha em mente isso, essa história é muito semelhante à do Episódio IV, assim você não sairá um pouco decepcionado assim como eu fiquei.

Bom, o filme já começa com o ataque dos vilões em uma reunião dos heróis. Em ambos os casos, a mensagem que pode salvar a galáxia é levada por um droide (R2D2 e BB-8) que vai para um planeta desértico, árido e implacável (Tattoine e Jakku). O herói (Leia e Poe Dameron) são capturados, toda sua equipe sofre baixa e ambos são torturados pelo antagonista dentro de um destroyer (Darth Vader e Kylo Ren).

No planeta árido, seres alienígenas atentam contra a “vida” do droide, mas acabam, de algum modo, na mão do protagonista (Luke e Rey). Ambos acabam confiando em seus “mestres” e depois de um tempo mostram seu segredo – ainda que em IV R2D2 só mostre a mensagem por completo quando encontram com Obi-Wan. BB-8 também só exibe o mapa quando o grupo já está reunido com Han e Chewie.

Depois, os personagens passam por um sufoco graças aos esforços dos antagonistas em capturá-los no planeta árido e fogem em uma nave (Millenium Falcon). Nessa mesma nave, a amizade entre os heróis e seus aliados começa a germinar (Luke e Obi-Wan com Han Solo e Chewbacca; Rey e Finn com Han Solo e Chewbacca). Nesse ponto, mesmo que em ordem diferente, os heróis passam a ser auxiliados/tutorados por um guerreiro do passado, uma lenda (Obi-Wan e, agora, Han Solo).

Agora, seguem as ironias e espelhamentos. Dessa vez, a Millenium Falcon não é capturada pelo raio de tração da Estrela da Morte, mas sim de um cargueiro misterioso. Depois do suspense, descobrimos que quem raptou a Millenium foram os próprios Han Solo e Chewbacca. Detalhe, os heróis também se escondem no subsolo da nave assim como no episódio IV.

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Após aceitarem levar Finn, Rey e BB-8, Han e Chewie seguem para Takodana, lar de Maz Kanata. A partir daqui, os acontecimentos continuam parecidos, mas seguem ordens diferentes entre os dois filmes. O castelo da Maz funciona como uma Cantina de Mos Eislei. Um lugar ambíguo, nem amigável e nem perigoso. Ali, Rey descobre seu destino ao tocar no sabre de Anakin Skywalker, vê seu futuro e confronta seus medos em uma passagem que lembra muito com a sequência da caverna em Dagobah com Luke.

Depois, para ampará-la e apresentá-la a Força, Maz, um ser pequenino e laranja, cumpre o papel de Yoda. Rey nega seu destino – jornada do herói clássica, foge para longe, mas é capturada por Kylo e a Primeira Ordem. Nesse trecho, o filme passa a ser mais “original”, mas é só aqui. Nesse meio tempo, o planeta Starkiller – a Estrela da Morte III, destrói os cinco planetas que constituíam a Nova República com seu raio da morte, assim como acontece quando Alderaan é destruída pela primeira Estrela da Morte.

Depois da captura de Rey, o restante do grupo se encontra com Leia e parte para o sistema de Illenium onde fica a base da Resistência. Exatamente quando Leia, Han e Luke partem para Yavin-4, base da Aliança Rebelde. Nesses lugares, os heróis traçam um plano para destruir as bases antagonistas. Também temos os rápidos encontros dos protagonistas antes de embarcarem em seus X-Wings ou respectivas naves. R2D2 e BB-8 são os droides que acompanham os X-Wings responsáveis pela destruição da maior arma dos inimigos – destruídas por Luke e Poe Dameron.

Agora, as narrativas se separam e Uma Nova Esperança termina já que não visitamos novamente a Estrela da Morte. Isso acontece antes. Só temos uma troca de situações. Han, Chewie e Finn partem para a superfície de Starkiller na tentativa de resgatar Rey – semelhante na teoria com o resgate de Leia no episódio IV. Depois de resgatarem Rey, o grupo se dedica a auxiliar os X-Wings para enfraquecer o aparato principal de controle da arma da Starkiller – após terem desativado o escudo da arma. Isso também se assemelha quando Han, Leia, os ewoks e os rebeldes estão em Endor para desativar o escudo da Estrela da Morte II em O Retorno de Jedi. Enquanto isso, o objetivo de ambas as bases inimigas é destruir o planeta onde estão os protagonistas. Obviamente, as duas são destruídas antes de atirar seu raio mortal.

Então temos a melhor cena do filme inteiro – a morte de Han Solo. Também com base na tragédia de Édipo, já que Kylo Ren, seu filho, mata o pai. Assim como Darth Vader matou Obi-Wan que era visto como uma figura paterna na trilogia prequel. Também vale contar as tentativas de Luke em mandar Vader para o caixão. Além disso, há uma tradição em matar os mestres, sábios, tutores ou anciões nos inicios de novas trilogias Star Wars, afinal Qui-Gon Jin também morre em A Ameaça Fantasma. E, também, seguindo a tradição, os protagonistas, pupilos, assistem a morte de seu mestre querido gritando um breve “não! ”.  O conflito entre Han e Kylo se dá em uma ponte sobre um abismo iluminado que se parece com a plataforma em Bespin onde Darth Vader vence Luke no duelo mais intenso da saga.

Depois, em O Despertar da Força, temos o confronto final entre Finn e Rey com Kylo Ren sendo Rey saindo vitoriosa após utilizar a força – assim como Luke a usou para destruir a Estrela da Morte. Após isso, pulamos a celebração de medalhas – ainda bem! Mas o filme ainda segue a linha narrativa da trilogia anterior, pulando a batalha em Hoth. Aqui, Rey parte para, enfim, encontrar Luke Skywalker, que virou um ermitão em um planeta distante cercado por um vasto oceano afim de buscar treinamento. Enquanto em O Império Contra-Ataca, Luke parte em busca de Yoda, um ermitão, em um planeta distante cercado por um pântano com a intenção de dominar e aprender a usar a força. Finalmente, as comparações acerca da história terminam e fica muito claro que O Despertar da Força mais se assemelha com um remake de Uma Nova Esperança do que com uma continuação propriamente dita.

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Agora nós iniciamos as comparações entre os personagens da nova e velha geração, pois até nisso há semelhanças sendo Finn o único verdadeiramente original neste novo filme,

Para começar, Rey, a protagonista desta nova trilogia, possivelmente, uma das personagens mais legais até aqui, tem tudo para ser uma Skywalker. Ela tem habilidade com tecnologia e parafernalhas, vive em um planeta árido, é uma pilota excepcional, sonha com um grande futuro, o sabre de Anakin Skywalker “chama” por ela – Em O Despertar da Força, o Jedi, o sabre escolhe. A Força é tão forte na moça que ela nem precisa de treinamentos básicos para já realizar algumas habilidades Jedi complexas. Enfim, é uma guerreira otimista assim como Luke era. A maior diferença para Luke é que ao contrário do mestre Jedi, Rey insiste em voltar a Jakku. Ela é uma personagem extremamente presa ao passado enquanto Luke sonha com o dia que ele deixará Tatooine. O roteiro só falha ao elevar a garota quando ela descobre como usar a Força. É tudo muito repentino e apressado, infelizmente. Também é difícil crer que ela, com tão pouco tempo e treino, é capaz de vencer Kylo Ren, um guerreiro treinado por anos, em absolutamente todos os aspectos.

Já Kylo Ren é o antagonista baseado em Darth Vader, porém, aparentemente, será trabalhado pelo caminho oposto – mostrando o personagem voltando para a Luz, abandonando o Lado Negro. Ao contrário de Vader, o Sith quase perfeito, Ren é afobado, ansioso, impaciente, completamente instável, força uma convicção em sua mente, apesar de não acreditar tanto nela – precisa meditar com o capacete de Vader, inflige dor a si próprio durante a luta com Rey, além de matar seu próprio pai. Usa uma máscara quando não há necessidade, alterando sua própria voz conferindo uma figura ameaçadora e onipotente quando na verdade se trata de um menino com aspecto nada ameaçador. Isso reforça essa dualidade do personagem. Tudo isso para reforçar a sua vontade no Lado Negro. No fim, ainda se trata de um rebelde sem causa.

Poe Dameron é um misto de Han Solo e Luke Skywalker. O espertinho com senso de humor apurado extremamente correto. Pela primeira vez temos um piloto que é habilidoso sem a necessidade de usar a Força. Uma pena que o personagem vai sendo esquecido gradualmente ao decorrer do filme reaparecendo sem mais nem menos.

O estridente General Hux é uma releitura de Moff Tarkin, o comandante da Estrela da Morte I. A única novidade aqui é a disputa com Kylo Ren para mostrar serviço ao Líder Supremo Snoke.

Snoke (aliás, que nome penoso de gostar, hein?) é a figura sempre necessária do comandante supremo do mal. Em todos os filmes anteriores, tivemos Darth Sidious acabando com a República e erguendo o Império, além de ser o mestre de todos os sith que conhecemos na saga. Agora, Snoke é o mestre de Kylo Ren e da Primeira Ordem. Infelizmente, seja lá por qual motivo, Snoke é feito totalmente em computação gráfica o que lhe confere um aspecto um tanto borrachudo, além de o design do alienígena não despertar temor algum. O que ainda não sabemos é se ele tem o tamanho gigantesco de seu holograma. Por enquanto, ainda é um Mágico de Oz.

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A tão propagandeada Capitã Phasma preenche os sapatos de Bobba Fett. Apenas muda a forma do contrato, ela não é terceirizada. Assim como Bobba, a personagem sofre da má utilização pelo roteiro. Não dispara sua arma uma única vez e é descartada em favor de uma piadinha saudosista. Espero muito que não tenha sido a primeira e última vez que vimos a Comandante stormtrooper. Senão terá sido outro personagem que só presta no design. Literalmente jogada no lixo.

BB-8 é o variante muito bem vindo de R2D2. Enquanto o charme do droide azul e branco era ser rabugento, grosso com C-3PO, teimoso e extremamente leal, BB-8 é um personagem que cativa pela fofura, pela sua quase antropomorfização, ótimo senso de humor aliado pela ingenuidade, além de possuir uma gama mais vasta de gestos e expressões que o droide antigo já que possui uma cabeça muito mais móvel.

Unkar, o alienígena que paga miséria pela sucata oferecida pelos catadores, tem tons de Jabba e Watto. Um ser desprezível que mantém diversas pessoas de seu círculo de convivência presos a sua existência. Enquanto não possibilita a independência de seus “trabalhadores”, já que paga o mínimo pela subsistência dos habitantes da cidade.

Maz Kanata, uma alienígena baixinha, colorida, com grandes olhos distorcidos pelos óculos, milenar, sábia e apresenta a Força à Rey. Enfim, uma substituta cool e mais descolada para Yoda. Engraçado notar como sua personagem some da narrativa repentinamente após o ataque da Primeira Ordem em Takodana. Entrega o sabre a Finn, com direito a uma animação gráfica muito inferior às apresentadas no palácio, e some de vez. Puff.

O único novo personagem verdadeiramente original do filme inteiro – e o mais promissor também, é Finn. A ideia de “humanizar” um stormtrooper é absolutamente genial. Algo que eu queria ver há algum tempo. No começo do longa, enquanto o texto insiste menos em usá-lo como um enorme alívio cômico, Finn perde um companheiro stormtrooper em batalha. Ele vê seu amigo (?) morrer sofrendo. Ali, Finn percebe que o mais valioso que ele tem na vida, é, justamente, sua vida. Do que adianta morrer por um bando de panacas que matam gente inocente? Nenhuma ideologia justifica isso. Esse momento de epifania contida é algo libertador. Realmente belo no personagem.

O texto também trabalha com uma ironia cruel em Finn – justamente quem mata seu amigo (?) é Poe Dameron, o mesmo homem que ele liberta da tortura no Destroyer Imperial e o ajuda a fugir. Durante o filme, os dois tornam-se bons amigos e tenho certeza de que não veremos alguma cena explorando esse conflito gigantesco, digno de tragédias gregas, nos próximos episódios.

Depois de abandonar seu passado obscuro, Finn acaba se autonomeando herói da Resistência para Rey tentando, obviamente, jogar um charme na misteriosa e bela garota – aliás, ele usa a jaqueta de Poe, reforçando seu flerte com o heroísmo. Porém, o que sabemos de fato de Finn é que ele é um homem que flerta com o heroísmo, mas sabe que atitudes heroicas geralmente levam à morte. É uma dicotomia encantadora ver o personagem lutar consigo mesmo para perder o medo de virar um herói de fato deixando de ser um covarde.

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E isso acontece justamente quando ele revela seu passado para Rey tentando justificar sua fuga. É nesse exato momento que o destino dos dois personagens muda. O texto passa a ser menos racional com os dois e parte para a emoção. Temos, enfim, a catarse de nossos dois protagonistas

Rey, sentindo se abandonada mais uma vez na vida, revivendo seu maior trauma, desperta a Força – é lindo ver como J.J. Abrams e Kasdan estavam cuidando tão bem do texto até aqui. Ela passa a escutar a si própria quando criança implorando, em prantos, que não a abandonem em Jakku. Seguindo os gritos, ela descobre o sabre de Anakin Skywalker. Ali, fica claro que o destino de Rey é virar uma grande Jedi – um herói de trunfos mais individuais.

Enquanto isso, Finn, prestes a fugir de Takodana, assiste a destruição dos cinco planetas da República. Sabendo que a Primeira Ordem atacará, ele corre de volta para tentar alertar Rey em uma tentiva fracassada de resgate já que a personagem é capturada por Kylo. Nisso, Finn tem que ser um herói pela primeira vez ao confrontar seu passado. O heroísmo é representado no momento em que ele liga o sabre de luz e parte para a batalha. Lá, ele luta com um stormtrooper que o chama de traidor. Ironicamente, Finn fracassa nas duas lutas que ele empunha o sabre e é confrontado por alguém que o chama de traidor (stormtrooper e Kylo). O heroísmo do personagem, a meu ver, nunca é concretizado de fato, já que o triunfo dele nunca é individual, mas sim coletivo. Quando Finn ganha, ele sempre está acompanhado de outro personagem, seja Poe, Rey ou Han e Chewbacca. Ou seja, ele vira um herói de equipe diferentemente de um stormtrooper, um vilão de equipe.

A diferença é que Finn ganha enquanto os stormtroopers (o passado) perdem.

Além disso, os dois protagonistas se completam de modo singelo. Ambos são solitários e procuram a liberdade. Para Finn é algo mais objetivo enquanto para Rey se trata do retorno da família que a libertará de Jakku. Os dois encontram a liberdade pela força da amizade e de um vindouro núcleo romântico. É através da aventura, do altruísmo, das constantes felicitações, da simbiose entre eles – os personagens não conseguem se separar excetuando dois momentos, dos olhares fascinados que trocam, os resgates mútuos para salvar um ou outro, entre tantas interações inspiradas ao longo do filme. É a melhor relação de personagens que vi no cinema nesse ano.

Rey e Finn são os maiores trunfos de O Despertar da Força.

Enquanto J.J. e Kasdan brilham com os protagonistas e sabem inserir muitíssimo bem os momentos certos para reapresentar os personagens clássicos, eles perdem o tom a partir do momento que Leia entra em cena. Toda a história que vinha bem desenvolvida, respirava bem, torna-se apressada quase tão afobada quanto Kylo Ren. E nesse terço final que o filme se atropela e começa a tombar nos furos da história, soluções arbitrárias e, principalmente, pela falta de resolução de muitas, muitas coisas. E, sinto muito, eu não compro essa história de que o próximo filme vai explicar tudo e tenho bons motivos para isso.

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Primeiro, nunca na história de todos esses filmes, o próximo começa exatamente no ponto em que o anterior termina. Segundo, cada novo episódio terá seus próprios conflitos e outras características para resolver e desenvolver sem ter tempo para tapar buraco de filmes anteriores. Terceiro, cada episódio será escrito e dirigido por roteiristas e diretores completamente diferentes, cada um com sua visão do universo de Star Wars, ainda que, espero, mantenham a unidade da trilogia.

Infelizmente, a pressa do ato final não permite que nós conheçamos de fato o propósito da Resistencia. Porque ela se chama Resistencia? Resistir infere na tentativa de derrotar um regime opressor, no caso, o Império. Mas como todos sabemos, o Império foi derrotado. A galáxia pode muito bem ter virado uma anarquia – ainda que isso não fique claro, no entanto, o texto comenta sobre a Nova República que é destruída pela Primeira Ordem.

Ainda não consigo entender porque a Nova República não combatia diretamente a Primeira Ordem, optando por usar a Resistência, a financiando secretamente dando origem a uma guerra fria de um lado só. Estranho também é ver que Leia optou por virar general de uma guerrilha pequena em vez de firmar-se como diplomata na Nova República levando a guerra contra o lado negro de modo mais direto. Afinal, é ridículo notar que todo o sistema republicano foi dizimado por um planeta-arma gigantesco como se ninguém tivesse notado a alteração geográfica do planeta para montar a Starkiller.

O ataque à Nova república é tão repentino que também nos pega de surpresa. Mas até aí, tudo bem, pois é a primeira vez que vemos Starkiller. Mas como ninguém esperava, como fica claro na cena que mostra os cidadãos do planeta prestes a ser destruídos a contemplar o raio mortal, que a Primeira Ordem fosse atacar justamente a quem ela declarou guerra? Simplesmente não faz sentido. Ou a Nova República é uma criança ingênua ou é desarmamentista – sabemos que ela não é, já que C-3PO comenta sobre a frota militar dela.

Não seria mais fácil assumir a Resistência como o exército oficial da Nova República e investir direito no mercado da guerra? No fim, voltamos à estaca zero. Não existe mais república. Só a Primeira Ordem e sua coerção. Outra sabotagem do próprio roteiro consigo mesmo se dá na reunião da Resistencia em Illenium. Lá os heróis mostram um mapa inteiro (!) da Starkiller e descobrem rapidamente a sua fraqueza absurdamente similar a da Estrela da Morte.

Se a Resistência já tinha um mapa completo da base inimiga, sabia da existência da arma destruidora de mundos e, ainda por cima, é capaz de conseguir descobrir a fraqueza do esquema de modo tão rápido, por que raios não informaram a Nova República antes dela ser destruída? Ou isso faz parte de um plano obscuro de Leia para firmar o leiaismo ou é um atestado de estupidez gigantesco. O chato disso tudo é que a maioria das coisas que estou citando aqui seriam resolvidas com uma desculpa qualquer ou um diálogo rasteiro.

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Fora isso temos o problema da própria Starkiller. No filme, descobrimos que a principal arma da base é carregada a partir do roubo da energia do sol. No processo de carregar a arma, o sol é extinguido. Então começam a surgir os questionamentos. Como a Starkiller conseguiu carregar a arma duas vezes com o mesmo sol? Certamente o tiro que destruiu cinco planetas deve ter acabado com um sol. Como raios se move um planeta inteiro entre sistemas solares para carregar a arma novamente? No fim se trata de uma magnifica arma de um tiro só? Pelo jeito, até mesmo os antagonistas sabiam que a Starkiller seria destruída pela Resistência no final. Ainda assim, que arma inútil então. Pelo menos a Estrela da Morte era uma arma mais lógica e funcional.

Depois, temos a ausência do backstory satisfatório para os personagens clássicos e Kylo Ren. Nunca é detalhado satisfatoriamente o divórcio de Han e Leia, apesar de ser compreensível. Também, o reencontro dos dois é um tanto decepcionante. Falta mais tempo de diálogo para eles, mais daquele conteúdo apresentado na última cena com os dois juntos. Além de uma construção de passado mais relevante para o núcleo familiar entre Leia, Han e Kylo. Tudo isso fica mais grave levando em conta que este é o último episódio que temos Han Solo vivo.

De Luke então, trinta anos são resumidos em meia dúzia de frases ditas por Han. Nisso, é chato dizer, mas o filme pinta Luke como um grande covarde. Mesmo que Kylo (Ben) tenha matado todos os pupilos de Luke e fugido com Snoke para aprender as artes do lado negro, não acho que isso seja motivo para destruir a motivação de Luke e leva-lo a depressão. Vendo assim, Obi-Wan foi muito mais responsável. Mesmo sabendo que Anakin matou todos os pequenos padawans, ele foi atrás de seu aprendiz com a intenção de resolver o problema de vez. Luke simplesmente desiste de tudo e de todos, incluindo de sua irmã e sua dor, some da face da galáxia, vira um eremita e, convenientemente, deixa um rastro para encontrá-lo depois. Eles basicamente desconstruíram toda a união do grupo sustentada pelos filmes anteriores. Do modo que foi apresentado aqui, além de apressado, deixaram uma impressão meio amarga pelo herói de outrora.

Entendo que se trata de uma nova trilogia, um novo começo, uma outra história. Mas não dá para trabalhar com a falta de explicação de diversas coisas em Uma Nova Esperança estreado nos anos 1970, agora em 2015, após Star Wars virar uma das franquias mais rentáveis e populares da História do Cinema. Simplesmente, não tem como esquecermos da trilogia clássica. Mas sei que isso que estou apontando pouco importa para espectadores de primeira viagem. Se eu tivesse conhecido Star Wars com O Despertar da Força, eu teria adorado esse filme. Pena que não foi o caso.

Além disso, por vezes o roteiro tem a cara de pau de debochar da nossa cara. Isso é explicito quando Han pergunta a Maz como ela conseguiu o sabre de Anakin. Ela responde, “uma boa história para outra hora”. Lá vem spin off. Para quem não lembra, o clássico sabre caiu num abismo junto com a mão de Luke a mais de quilômetros de altura. É muito implausível o retorno deste sabre. Teremos que pagar para ver, literalmente.

Também há o famigerado motivo para engrenar a narrativa: a busca por Luke Skywalker. O herói vira um macguffin para a Resistência e a Primeira Ordem, ambos querem encontrá-lo por motivos distintos. Apesar do roteiro justificar como a Primeira Ordem possui grande parte do mapa, é difícil acreditar que mesmo após o Império ter sido destruído e ficado sem líder – e ainda se somarmos os anos que levou para Luke sumir, os vilões, de algum modo, salvaram essa peça do mapa que leva até ele. Além disso, pouquíssimos detalhes de backstory da Primeira Ordem são apresentados aqui.

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Também é muito preguiçosa a forma que os roteiristas resolvem esse conflito besta e pouco urgente do mapa e Luke. Eles solucionam com um deus ex machina por meio de R2D2 que sai de seu modo “deprimido” e revela a todos que ele possuía a maior parte do mapa que é completo pela projeção do pedaço restante que estava com BB-8. Até mesmo antes, o filme tenta abordar esse tema, o sugerindo, como se tivesse pedindo desculpas pela solução rasteira. Entretanto, há uma poesia óbvia em usar R2D2 representando a velha geração e BB-8, a nova, que se complementam. Agora são uma só.

Também me incomoda como eles revelam o grande segredo do filme de forma extremamente banal e sem graça — quando Snoke interpela Kylo informando a plateia que o antagonista é filho de Han Solo sem mais nem menos. O pior é saber que essa revelação teria muito mais força se fosse inserida na durante a cena da morte Han. Aquilo nos pegaria completamente de surpresa. Seria um twist tão emocionante quanto o de Vader revelar que é pai de Luke. Uma lástima de magnitude colossal o modo que isso foi apresentado aqui. A cena se tornaria ainda mais memorável pois teríamos dois acontecimentos de peso em pouco tempo – a revelação e a morte do herói.

Enquanto os roteiristas decepcionam nesses aspectos, eles acertam a mão em diversas outras coisas. A cadencia de piadas e do drama é muito bem equilibrada em sua maioria, o desenvolvimento dos dois protagonistas que é algo maravilhoso. As reapresentações dos personagens clássicos sempre muito bem pensadas para tirar o máximo de nostalgia dos fãs. Da coragem em matar Han Solo, um dos melhores personagens da História do Cinema. Por conectar bem as homenagens e referências aos outros filmes, além do conflito interno de Kylo Ren que é tentado a largar o Lado Negro. Enfim, a maioria das qualidades do texto, se inserem no desenvolvimento de alguns personagens, já que a história, como provado, é um remake de Uma Nova Esperança com pitadas de outros filmes da saga.

A conclusão disso tudo é: se você encarar O Despertar da Força como uma mistura de reboot e remake, essas falhas do roteiro terão pouca relevância ou nenhuma. Entretanto, se você encarar o Episódio VII como uma sequência, então sim, esses buracos lhe incomodarão em alguma forma. Seja mais ou menos intensa.

Para segurar as pontas do filme mais aguardado da década, J. J. Abrams provou ser um diretor com nervos de aço. Ele simplesmente aguentou a pressão como poucos conseguiriam. Elaborou visualmente o filme que queria e eu tenho que admitir, seu trabalho na direção é espetacular. Provavelmente seja sua direção mais afiada de toda sua carreira.

O diretor se apropriou da linguagem de Star Wars de modo único. Ao mesmo tempo que apresenta coisas novas, ele sabe homenagear com decupagens clássicas – como a sequência que monta a atmosfera boêmia e misteriosa do palácio de Maz.

De imediato, este é o primeiro Star Wars com trabalho primoroso de encenação, movimentação de câmera e decupagem variada. Há momentos em que Abrams dança com a câmera puxando a ação da esquerda para a direita do eixo de movimentação enquanto tudo se desenrola belissimamente no plano. No começo do filme tem um plano assim quando os aliados de Poe se preparam para combater a Primeira Ordem, porém, o melhor uso da técnica se dá na batalha de Takaneda quando Finn observa Poe destruir todos os inimigos presentes na tela com seu X-Wing enquanto faz manobras graciosas no ar. É um nível de realismo e encenação assustador.

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Abrams também tem o talento de dizer muito sobre seus personagens a partir de planos e sequencias bem montadas eliminando a necessidade de diálogos. Os melhores exemplos que posso dar são as cenas que abordam o cotidiano solitário de Rey, a origem de Finn e a maioria dos que envolvem Kylo Ren. Com o olhar cuidadoso, Abrams pega planos distantes, bem abertos, ao mostrar Rey, solitária, trabalhando ao catar sucata. Quando retorna, temos até uma reflexão interessante quando a personagem vê uma mulher idosa escovando uma peça de sucata, assim como ela, sugerindo o futuro nada atraente para Rey caso ela não participasse da aventura.

Depois, conhecemos os detalhes de sua casa. Ela enfeita com flores, tem alguns brinquedos e cozinha sua refeição. Então, enfim, J.J. apresenta o segundo plano de contemplação do filme ao exibir que a heroína mora em um AT-AT destruído na batalha de Jakku. Aliás, Abrams apresenta diversos planos contemplativos durante o filme. Planos que dizem muito para quem souber interpretá-los. Dentre esses, temos um dos mais importantes que mostra os pilotos da Resistência comemorando a vitória em um canto da tela enquanto no outro vemos Leia e Rey se abraçando em luto pela morte de Han.

Para Kylo, o diretor insere alguns contra plongees em close mostrando a pressa do personagem, sempre afobado, caminhando nas instalações da Starkiller. São planos claustrofóbicos que reforçam a ansiedade do personagem.  Não somente os enquadramentos acertados que ajudam a modelar o vilão, mas como também o design de seu capacete e de seu sabre de luz. Pelo capacete, podemos depreender com as formas prateadas que contornam o visor que Kylo força uma visão para si mesmo. É como se os contornos forçassem o olhar de quem usa o aparato. Além disso, sua boca é “amordaçada” pela placa de metal preto, fora o modulador que altera sua voz.

O capacete isola o personagem do mundo exterior forçando que ele aceite de vez o lado negro. E o mais interessante é que mesmo com tanta parafernalha para forçar sua convicção, ele sofre com desejos de ir para a luz. Um conflito muito digno que merece ser desenvolvido nos próximos filmes. Além do capacete, temos o seu sabre muito diferenciado. Apesar de não termos nenhum tipo de explicação do porquê do formato em cruz, as diferenças dele com um sabre normal são nítidas. Assim como seu dono, o sabre é instável, disforme e violento abandonando as formas mais contidas e elegantes de um sabre normal empunhado por um Sith ou Jedi.

Ainda em design, a releitura do uniforme do stormtrooper clássico para os soldados da Primeira Ordem é tão elaborada quanto o figurino de Kylo. As diferenças se dão principalmente no capacete. Agora os visores são unidos por uma linha preta que segue até onde seria a boca dos soldados. Desse modo, nós podemos interpretar que esses stormtroopers tem plena convicção no sistema da Ordem, pois o que eles vêm é o que eles falam. Ou seja, tratam-se de fanáticos. Tanto que assim que Finn é confrontado por um deles é chamado de traidor, alguém que deve ser eliminado a todo custo por fugir da convicção e palavra da Ordem. Por isso que trabalhar justo com o heroísmo humanizado do ex-stormtrooper Finn é ainda mais genial.

O diretor também presenteia o espectador com os efeitos práticos característicos da série. Este novo filme depende de efeitos visuais virtuais apenas em momentos-chave. Na maioria do tempo, vemos alienígenas construídos por maquiagem intensa, naves reais, algum trabalho minucioso de miniaturas, entre outras diversas coisas que tornam esse universo muito palpável. Além disso, o design de produção é tão bem concebido que consegue contar pequenas histórias do presente e do passado pelos itens e cenários exibidos em tela.

Abrams tem a competência de não tornar o filme em entretenimento barato que se segura somente através de fan service e nostalgia gratuita. As homenagens existem. Algumas são fáceis de notar, outras nem tanto. O diretor, aliás, dá atenção especial para o uso do som em seu filme. Aliada a ótima mixagem sonora, Abrams usa os sons a partir do extracampo para elevar o suspense da cena ou apenas para explicar a ação seguinte de seu personagem – isso acontece quando Finn escuta os Tie Fighters na cena da feira em Jakku. Aliás, o trabalho de montagem do filme inteiro é simplesmente primoroso. O encaixe entre os planos e dos bons raccords visuais é assustador de tão bem trabalhado. Até mesmo na sempre presente interpolação entre cenas dos clímaces das histórias da saga, é feita muito mais organicamente.

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O diretor apenas desaponta em duas situações – as das cenas de tortura e das reuniões de Kylo, Hux e Snoke. Todas essas passagens possuem decupagens muito similares levando a uma pobreza visual, mas isto acontece apenas aqui. Na maior parte do tempo, ele cria cenas muito diversificadas. Uma das melhores sacadas é inserir a câmera a partir do ponto de vista de um piloto de X-Wing em meio a uma batalha aérea – pena os planos serem tão restritos e curtos. A luta de sabres também satisfaz. É uma das mais intensas, mas conta com bem menos violência do que as anteriores. É inegável, Abrams sabe muito bem como filmar ação. No clímax da luta, o diretor mimetiza o momento mágico que Luke usa a Força para destruir a Estrela da Morte. Porém, mesmo conseguindo capturar a magia da cena ao conter o som, a encenação decepciona, pois Rey apenas rodopia Kylo em vez de usar a Força de fato, seja para empurrá-lo ou fazer outra coisa.

J.J. retoma a longa parceria com seu fotógrafo Daniel Mindel e o resultado é espetacular. É impressionate como os dois capturam o visual tão característico da saga com enorme facilidade. Entretanto, somente na melhor cena do filme que Abrams e Mindel ultrapassam a barreira da cinematografia atmosférica. Na cena da morte de Han Solo, a iluminação passa a ser pensada de modo a contribuir narrativamente.

Quando Han caminha em direção a seu filho, temos a predominância do vermelho, justificado pelos sinalizadores no solo da ponte, com lampejos de luzes brancas que vem do abismo e do sol representando o Lado Negro e a Luz. Conforme Han se aproxima de Kylo, Rey e Finn chegam no local abrindo uma enorme porta que jorra a luz branca do sol em ângulo agudo – mais um plano belíssimo de contemplação de Abrams. Essa nova luz ilumina Han na contraluz e serve como principal para Kylo. Enquanto ele tenta convencer seu filho para voltar com ele, o sol vai se extinguindo diminuindo gradualmente a luz branca.

Nesse momento de indecisão, onde somos levados a crer que Kylo está prestes a ceder a Han, vemos a mistura das luzes vermelha e branca na sua face indicando o conflito interno do personagem enquanto em Han, o vermelho vai ganhando força. Então, temos o diálogo mais ambíguo de toda a saga. Kylo diz: “Estou sendo destroçado. Eu sei o que preciso fazer, mas não sei se tenho a coragem de fazê-lo. Você me ajuda? ” Han responde: “Claro, qualquer coisa”. Então Kylo oferece o seu sabre a seu pai. Nisso, a encenação colabora para acreditarmos que o antagonista está mesmo arrependido e que há a chance de redenção, mas a fotografia diz exatamente o oposto graças a forte predominância do vermelho e da escuridão.

Nesse momento, o sol se extingue. A luz branca morre, assim como a esperança da reconciliação. A fotografia agora se torna completamente escura, ocultando tudo que há por trás de Kylo. O vermelho agora preenche e contorna a face dos dois. Então Ren diz: “Obrigado” ao assassinar seu pai o empalando com o sabre vermelho. Antes de ser jogado no abismo, Han toca a face de seu filho com ternura. O corpo já sem vida do herói cai para a luz.

O que faz essa cena ser tão fantástica é a harmonia de todas as áreas criativas que temos no cinema. A direção, a fotografia interpretativa, a montagem certeira, o desenho de som, a trilha musical pontual, o texto extremamente ambíguo que não promete absolutamente nada e a força da excelente atuação de Harrison Ford fazem desta uma das mais memoráveis sequências de toda a saga.

Porém, além do uso narrativo da iluminação, já indicando a morte do herói antes mesmo dela acontecer, o que mais me encante é o diálogo entre os dois. É possível depreender das palavras Kylo que ele sabe que a única coisa que pode fazê-lo voltar para a Luz é seu pai. Logo, para atingir o poder que tanto almeja, para ser tão poderoso quanto seu avô Darth Vader, ele deve eliminar Han Solo. E o que torna o personagem ainda mais cínico e cruel é o fato de ele pedir ajuda para realizar tamanha covardia. Ele praticamente pede a permissão do pai para assassiná-lo. E Han, pela primeira vez, confia plenamente em alguém pondo sua malícia em escanteio. O lendário Han Solo é passado para trás pela primeira vez. A morte dele é irônica, sem dúvidas. Cruel e modela a psique completamente perturbada de Kylo Ren. Porém, ainda assim é heroica, pois mostra que o herói, outrora com a moral ambígua no passado, se dispôs a sacrificar sua vida para tentar reconstituir sua família. Han Solo morre altruísta.

Querendo ou não, J. J. Abrams marcou história em sua passagem na direção de Star Wars e apesar de errar a mão na pressa do ato final e nos problemas do texto, nos entregou um dos mais belos filmes de toda a saga. O Despertar da Força marca o início de uma nova etapa dessa franquia absolutamente rica e querida por todos nós. O filme tem ótimos momentos, conta com um elenco excepcional, personagens fortes e ótimas cenas de ação, porém está longe de ser perfeito.

Essa escolha de terem feito um “filme homenagem” ou remake/reboot não permitiu que a história avançasse o tanto que ela deveria. Logo, temos um filme muito mais aberto do que Uma Nova Esperança e deixa diversas perguntas que dificilmente serão respondidas nos próximos filmes. Entretanto, temos aqui uns dos inícios mais promissores de uma nova fase para Star Wars. Somente com esse filme, a Disney conseguiu entregar algo que está anos-luz de distância a frente da trilogia prelúdio. Além de ser extremamente convidativo para novas audiências que terão seu primeiro contato com Star Wars. Para os fãs de longa data, a nostalgia compensa a repetição da história que nós já vimos antes. Resta ter esperança que os próximos episódios trarão história mais originais e corajosas. Enfim, trata-se de um ótimo retorno para Star Wars.

O Despertar da Força é um filme que já nasceu clássico.

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, EUA – 2015)

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams e Lawrence Kasdan
Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Adam Driver, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Gwendoline Christie, Andy Serkis
Gênero: Aventura, Ficção Científica, Space Opera
Duração: 136 min

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