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A sociedade contemporânea atingiu um status de competição dentro de si mesma; em outras palavras, o que antes configurava-se como uma saudável ultrapassagem dos nossos próprios limites agora tornou-se uma excessiva necessidade de se transformar no melhor, no inalcançável, no perfeito. Basicamente, é essa a premissa que o novo documentário da jovem cineasta Alison Klayman busca analisar: como a liquidez das comunidades dos dias atuais cedeu a um ciclo vicioso onde os hábeis e capazes são descartados como objetos para dar lugar aos gênios-mirins, aos superdotados e até mesmo àqueles que não carregam nenhum tipo de escrúpulos para conseguirem o que querem.

O anúncio da estreia de Take Your Pills, longa-metragem não-ficcional produzido pela Netflix, talvez tenha adicionado mais uma camada de preocupação aos consumidores de remédios e medicamentos para tratamento de distúrbios psicológicos e mentais – e não pela falta de informações, visto que Klayman realiza uma profunda pesquisa para discorrer acerca do assunto, mas sim pelo produto final emergir como uma bola de neve questionável e erroneamente infundada pela quantidade de informações repetidas. O pano de fundo dessa análise médica e antropológica parte de um hábito comum a todos nós, o de tomar pílulas, porém com o agravante dessa ingestão não ter uma prescrição médica, por assim dizer, e sim um desejo de transfigurar-se em uma figura sobre-humana.

Sem dúvida alguma, o documentário inicia de modo bem impactante: diferentemente de outras obras do mesmo gênero e tema que buscam partir de preceitos médicos e quase ininteligíveis pela maior parte do público-alvo, essa rendição já merece alguns pontos apenas pelo modo como resolve introduzir o assunto em pauta. Levando-nos para um ambiente acadêmico, mais precisamente na corrida e exaustiva rotina universitária, a cineasta resolve nos apresentar para uma série de depoimentos pessoais de alunos e alunas que sofriam diariamente com o preço do sucesso e da conquista; sendo bombardeados por uma necessidade de despontarem como os melhores de suas turmas e possíveis prodígios, eles mesmos se renderam a uma promessa de alcançarem um potencial que normalmente não seria possível ao ingerirem uma pequena cápsula da droga conhecida como Adderall.

Klayman obtém um sucesso quase aplaudível ao tornar sua dissertação fílmica essencialmente didática sem cair em vícios de linguagem como a condescendência e a excessiva repetição de explicações, permitindo uma maior abrangência de público ao invés de restringir-se a uma pequena parcela. Sendo assim, vejo-me obrigado a explanar alguma coisas antes de continuar essa breve análise: o medicamente Adderall, conforme explicado no documentário, é um psicoestimulante introduzido no mercado farmacêutico no final da década de 1990 e, partindo da mesma composição da anfetamina e metanfetamina, foi e é ainda utilizado por inúmeros especialistas para o tratamento de distúrbios como TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) e outros que atrapalhem o desenvolvimento da criança e do adolescente. Tal droga recentemente foi proibida em inúmeros países pela Organização Mundial de Saúde por um motivo factual e até mesmo assustador: seu uso indiscriminado.

É justamente nesse quesito que o primeiro ato do filme canaliza a nossa atenção: juntando o desejo de despontar em meio a uma massa medíocre desses alunos e as substâncias estimuladoras do Adderall, é mais que óbvio imaginar que certo contrabando começaria a ocorrer nos corredores das faculdades, com um número crescente de estudantes criando seus próprios contatos para conseguirem receitas médicas e “arsenais” para manterem-se o mais próximo possível da perfeição acadêmica – e, bom, considerando que, para as pessoas que não sofrem de TDAH, os efeitos permitem um número mais concentrado de sinapses neurológicas e uma descarga de adrenalina que permanece durante mais horas, é quase inebriante querer sentir na pele esse aumento considerável de potencial cerebral. E o mais interessante é como a diretora consegue articular essa moderna linguagem em algo sedutor o suficiente para nos deixar com a pulga atrás da orelha em relação ao que tais cápsulas realmente causam.

Entretanto, é claro que um documentário com este porte não deixaria de trazer opiniões de especialistas – e até metade de sua relativamente pequena duração (pouco mais que 80 minutos), as entrevistas inseridas não seguem um padrão clichê e ao qual estamos acostumados a ouvir. É refrescante termos um dos responsáveis pela introdução dos psicoestimulantes arrepender-se de sua criação e de como ela alcançou níveis absurdos de consumo, colocando “uma sociedade que deveria prezar pelo naturalismo à mercê dos médicos e dos medicamentos”, assim como é interessante analisarmos a forma com a qual as pessoas banalizam esse tratamento, ainda que cientes de todos os possíveis efeitos colaterais a longo prazo e observando inúmeros efeitos colaterais experenciados por pessoas que são obrigadas a se medicarem com tais remédios.

Eventualmente, Take Your Pills passa a se inclinar de modo compulsório às fabulescas morais do vício e de um futuro quase pós-apocalíptico para uma sociedade que não sabe mais conviver sem suas “pílulas diárias”. Ainda que tente afastar-se desses clichês, a estrutura documental começa a partir-se em pequenos fragmentos soltos e que funcionam mais como tapa-buraco que qualquer outra coisa, optando por uma excessiva musicalidade e até mesmo infantilidade para tentar cobrir os aparentes erros. No final das contas, a inovadora premissa apresentada na introdução é descartada para abrir espaço a inúmeras frases prontas de conscientização coletiva que todos sabemos que não causam nenhum surto epifânico de compreensão e entendimento no público.

Felizmente, o longa-metragem é dotado de uma fantástica estética e montagem que por vezes fala mais alto que a falha linha de pesquisa. Jennifer Fineran, responsável pela edição final, sabe muito bem como trabalhar uma linguagem moderna e clássica, arquitetando uma amálgama aplaudível que traz elementos de uma identidade futurista ao mesmo tempo em que permite um diálogo aberto a composições de décadas anteriores. Aliado ao trabalho fotográfico minucioso de Julia Liu, percebemos uma crescente opção pelo pop-art e pelas vanguardas artísticas de meados do século XX em uma agradável mescla com luzes neon e a angustiante técnica conhecida como “falha na transmissão”, utilizando-se da entrada de chuviscos e bugs na tela entre um bloco e outro. Além disso, conforme as entrevistas mergulham nos efeitos das drogas como Adderall, as construções cênicas são revestidas com um filtro embaçado e com pouca profundidade de campo, prezando pela acentuação de um único foco e de uma ambiência gera desfocada e intimista.

O mais novo documentário da Netflix funciona no que não deveria e deixa desejar onde não poderia. Ainda que tente sair dos convencionalismos narrativos, tal obra até consegue abrir outras portas para projetos futuros, mas não explora a potencialidade que tem do jeito certo – e considerando que é válido assisti-la mais por sua estética que pela história a ser contada, é meio óbvio que temos um problema estrutural a ser enfrentado aqui.

Take Your Pills (Idem, EUA – 2018)

Direção: Alison Klayman
Elenco: Eben Britton, Dr. Wendy Brown, Anjan Chatterjee
Gênero: Documentário
Duração: 87 min.

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