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Um Bom Ano deve ser um dos filmes que mais vi na vida. Não porque sou fã inveterado ou apaixonado pela história que conta, mas pelo exagero da repetição que exibiam esse filme nos canais a cabo. Refém do controle remoto em poder da minha mãe, essa sim apaixonado pela inusitada comédia romântica de Ridley Scott, acabei assistindo ao longa muito mais vezes do que gostaria.

Por conta disso, diante da oportunidade de escrever sobre a filmografia de Scott, era evidente que eu não ia deixar essa chance passar em branco. Ironicamente, eu não tenho uma grande aversão ao filme, mesmo que eu já esteja enjoado de assistir a mesma história depois de tantas vezes. A verdade é que Um Bom Ano é um filme bastante agradável.

É inegável que Ridley Scott seja um grande diretor, mas nunca tínhamos visto ele abordar a comédia romântica como ocorre aqui. É uma mudança de ares que vai totalmente contra às ficções científicas, aos épicos religiosos, aos inusitados filmes de fantasia e até mesmo sobre o nicho urbano que ele se aventurou nos anos 1980. Um Bom Ano é uma característica única da carreira de Scott, dividindo opiniões de cinéfilos até hoje. Mas afinal, o que há nesse longa para ser tão divisivo?

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Férias de Verão

Ironicamente, há pouco em Um Bom Ano. Deve ser isso que pode ter irritado tanta gente, afinal, como pode um diretor tão prestigiado como Scott fazer um filme tão indiferente e, por vezes, vazio? É um belo enigma, mas é inegável que o diretor se divertiu ao trazer a história de Max, um britânico workaholic egocêntrico e pedante, sendo obrigado a ir ao chateau de seu amado e distante tio Henry logo após seu falecimento em uma pequena vila francesa.

Marc Klein, o roteirista, adapta o livro de Peter Mayle de bastante literal, sem meias-palavras ou qualquer proselitismo. Para estabelecer nosso protagonista, Klein aposta no contraste entre a doçura do passado do garoto, no qual brincava e aprendia com seu tio no charmoso chateau, para o presente. Max é o completo oposto de quem já foi um dia, virando um homem cínico, ambicioso, trapaceiro e muito inteligente. Sua vontade de ganhar dinheiro praticamente ocupa todo o seu tempo seja fora ou dentro do trabalho como diretor em uma grande agência da bolsa de valores londrina.

O roteiro elabora Max dessa forma por um bom tempo, deixando o personagem próximo de ser detestável. Felizmente, graças a boa atuação de Russell Crowe, que consegue conferir o carisma necessário para tornar o protagonista razoavelmente divertido, isso não acontece. A história é bastante formulaica e convencional como um espectador de primeira viagem pode apostar. No básico, se trata de uma jornada de transformação que tira o protagonista de sua zona de conforto, além de obriga-lo a confrontar os fantasmas de seu passado.

Klein desperdiça uma boa chance de tornar Max um personagem realmente memorável em decidir nunca contar um pouco sobre o que levou a criança tão ingênua e apegada ao tio a se tornar um babaca completo, o que joga o personagem em um véu de superficialidade que nunca é removido. Mas, mesmo assim, ele funciona ao interagir com outros personagens muito mais distintos como os empregados da vinícola de Henry, Francis e Ludivine Duflot, que possuem motivações genuínas para tentar impedir que Max venda a propriedade.

O principal problema do roteiro é que ele carece de conflito genuíno, de algo real que seja perigoso para Max. Há tentativas para tanto, como inserir uma suspeita de investigação sobre a manobra arriscada que ele realiza na bolsa logo na abertura do filme, ou com o surgimento surpresa de uma parente de Henry que não desperta muito interesse nem dele ou do espectador. Para conseguir fazer a história se mover, temos a introdução do núcleo romântico com a tempestuosa Fanny Chenal interpretada também com muita vontade por Marion Cotillard.

Mesmo que seja desenvolvido precariamente, os dois atores conseguem ter uma boa sincronia que se torna em uma boa faísca de tensão sexual entre ambos, tornando tudo um pouco mais crível. Há muitas conveniências narrativas para que os dois se encontrem, mas geralmente as cenas dedicadas aos dois são bastante originais e divertidas. É justamente aqui que a comédia funciona bem, além das impagáveis passagens de disputa com Francis.

Aliás, Francis também é outro personagem desperdiçado, pois Klein, quando apresenta o sujeito, sugere um certo ressentimento dele com o falecido Henry por ter deixado a vinícola com Max e não com ele, o homem que cuidou daquele terreno por toda sua vida. Porém, isso logo some e deixa de se tornar um problema para o personagem após firmar um acordo com Max a respeito do seu futuro depois da venda da propriedade.

Para gerar qualquer catarse no protagonista, enfim alavancando um desenvolvimento previsível para Max, temos a evocação das suas memórias de infância, sobre quem ele era, seu tio e sobre o carinho secreto que ele finge desperceber pelo lugar. Tudo isso é bastante bonito e seria o suficiente para gerar a conclusão do filme, com Max percebendo que se tornou um escravo do dinheiro, um homem que não sabe mais aproveitar os pequenos prazeres da vida. Porém, Klein decide ir por um caminho muito comportado e clichê que, embora funcional, não torna essa história tão poderosa.

Há também um excesso de personagens secundários irritantes que servem para pouco ou nada na trama, além de conseguirem prejudicar o desenvolvimento de Max até então ao vermos ele se comportar novamente como antes, mesmo depois da transformação moral que sofreu no chateau. Existem também alguns problemas sobre reviravoltas infundadas ou porcamente estabelecidas, jogadas sem muita vontade de serem exploradas, apenas na vã tentativa de surpreender o espectador de modo preguiçoso. Ao menos, há um inesperado foreshadowing em uma das cenas iniciais que é bastante bem-vindo.

Para segurar um roteiro tão flácido como esse, de poucos momentos inspirados, é preciso um esforço considerável na direção. Felizmente, Um Bom Ano tem Ridley Scott para salvá-lo do marasmo, além de um elenco muito dedicado.

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A Dificuldade Cômica

Existe um senso comum famoso entre os profissionais do show business: “Fazer os outros chorarem é fácil. O verdadeiro desafio se encontra no riso”. De fato, é uma grande verdade tanto que sabemos da enorme quantidade de comédias ruins que existem por aí.

Ridley Scott tinha um enorme desafio em mãos ao se aventurar com um gênero que raramente tinha se arriscado antes, afinal seus filmes não são conhecidos por serem engraçados. De fato, o que mais se sente em Um Bom Ano é Scott tentando criar comédia, seja com a montagem ou através de um timing levemente estranho. Algumas gags funcionam pela espontaneidade da situação, porém outras apostam em clichês já há muito esgotados até mesmo para a época como piadas com GPS, uso de fast forwards que quebram a boa estética do filme ou simplesmente outras baseadas em estereótipos baratos sem criatividade.

Isso também acaba interferindo no aspecto sonoro do filme. Scott usa diversas canções licenciadas de modo extremo: ora casam com a proposta, ora são totalmente distrativas. O exagero no uso do toque do celular de Max também é uma irritação constante. A metáfora é óbvia: Londres chama por Max, para retornar ao seu habitat natural e consideravelmente insalubre, além de perturbar a paz de um lugar idílico.

Mesmo que boa parte da estética também se baseie em estereótipos, o visual que Ridley Scott ornamenta para Um Bom Ano é um belíssimo e agradável. Usando os contrastes para definir a disparidade dos locais e da atmosfera, temos uma Londres azul-esverdeada, muito fria, polida e sem textura. É um clima perene de solidão. Já em Provença, há uma invasão de cores saturadas, com ênfase para o amarelo-bege, luz mais direta e quente, além de uma explosão de texturas que permeiam vida para todo aquele lugar aconchegante. É bastante óbvio, mas funcional para complementar a transformação de Max ao longo do filme.

Momentos catárticos também recebem o uso convencional da chuva, além de um profundo uso de sombras para indicar uma enorme culpa que Max carrega consigo quando está sozinho no chateau. Outro detalhe muito adequado da direção de Scott é o poder que consegue gerar através de um jogo simples de plano/contraplano com Max observando objetos da casa fornecendo a impressão da recordação de memórias secretas e íntimas.

Isso também é utilizado para introduzir mais cenas flashback de modo pouco invasivo. Detalhes da encenação para dar início a essas pequenas sequências só colaboram para deixá-las mais poderosas. Outro bom detalhe da estética do filme é o fato de Scott saber aproveitar muito bem o visual da locação e das paisagens maravilhosas de Provença. É realmente muito bonito e romântico, mesmo que haja exagero na representação visual do lugar. Porém, como tudo é bastante extremo na estética do longa, não é nada que fuja da proposta inicial de Scott.

Um detalhe curioso é que Um Bom Ano talvez seja um dos filmes com mais câmera parada que Scott já tenha dirigido. A encenação é bastante banal, realizando apenas o básico. A única vez que temos um momento inteligente de movimentação de câmera, é no início do longa quando Max visita um restaurante. Ali, a hostess pede para que ele a siga, porém logo vai cumprimentar outras pessoas. Uma desculpa para se colocar na frente na moça. Max não segue ninguém, somente ele mesmo. Como disse, Scott não é lá muito sutil nesse filme.

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Um Bom Filme

Apesar das reações um tanto exasperadas que o filme recebeu, Um Bom Ano está longe de ser o desastre completo que muitos taxam. É apenas uma obra despretensiosa sobre memória e entes queridos que também recebe sua dose de romance, além da clássica moral de que a vida não se trata de ser um escravo do dinheiro – algo bastante fácil para quem já é milionário como nosso protagonista.

Com carisma o suficiente, um visual espetacular, atuações satisfatórias e temas musicais originais apaixonados temos a receita básica de um bom filme. E nada mais do que isso.

Um Bom Ano (A Good Year, EUA, Reino Unido – 2006)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Marc Klein, Peter Mayle
Elenco: Russell Crowe, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Albert Finney, Rafe Spall, Didier Bourdon, Isabelle Candelier, Kenneth Graham, Archie Panjabi, Freddie Highmore
Gênero: Drama, Comédia Romântica
Duração: 117 minutos

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