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Crítica | O Gângster – Um Estudo de Personagens

A ascensão e queda de Frank Lucas.

Guilherme Coral
Guilherme Coral Redação
21 de janeiro de 2018 · 6 min de leitura
Crítica | O Gângster – Um Estudo de Personagens

Com grandes exemplos de filmes sobre gângsteres, como O Poderoso Chefão, Scarface, Os Bons Companheiros, dentre muitos outros, não é tarefa fácil realizar um longa-metragem sobre o assunto e assegurar sua relevância. Criar algo inédito, ou próximo disso, tornou-se um dos maiores desafios para quem se aproxima desse subgênero e nessas duas últimas décadas, tivemos alguns exemplares de obras que falharam em, de fato, cativar o público (ou a crítica) por essa exata razão. Isso, contudo, não desanimou Ridley Scott, que, em 2007, nos entregou seu próprio longa sobre o assunto, O Gângster.

Scott, no entanto, somente assumiu o projeto pouco antes das filmagens começarem. De início, Antoine Fuqua ocupou a cadeira da direção, mas acabou sendo demitido por “diferenças criativas” – ele estava gastando mais do que deveria nesse filme e a Universal Pictures decidiu o mandar embora e encerrar o projeto, que acabou sendo revivido quando Scott assumiu a direção, após o roteiro ser retrabalhado e ter inúmeros trechos cortados.

Essa problemática fase inicial da produção, felizmente, não afetou o longa no que diz respeito a sua relevância e abordagem diferenciada do assunto, por mais que esteja longe de ser um perfeito exemplar de filmes de gângster.

Baseado em fatos, a trama gira em torno de Frank Lucas (Denzel Washington) e Richie Roberts (Russell Crowe) e se passa nos anos 1970. O primeiro, um traficante de drogas do Harlem, em Nova York, que utiliza os aviões vindos do Vietnã para trazer heroína do país asiático – droga que é consideravelmente mais pura que as vendidas pela competição de Lucas. Ao vender pela metade do preço, esse produto com o dobro da qualidade, o gângster acaba ascendendo ao poder, adquirindo uma fortuna, enquanto domina as ruas do Harlem. Já Roberts é um policial honesto (embora não muito ortodoxo), que acaba sendo encarregado de liderar uma equipe encarregada de descobrir de onde vem o produto vendido por Lucas.

De início, a divisão em dois núcleos distintos causa bastante confusão no espectador, mas se trata de um recurso claramente intencional, ao passo que o roteiro de Steven Zaillian, busca evidenciar as diferenças entre Lucas e Roberts, comparando os dois personagens a fim de desmistificá-los – com um realizando ações que esperaríamos ver sendo feitas pelo outro.

Zaillian, que já demonstrou sua habilidade em trabalhar com focos distintos em A Lista de Schindler, conduz a história de maneira fluida e orgânica, traçando constantes paralelos entre as trajetórias dos dois personagens, como se um, pouco a pouco, caminhasse na direção do outro, mesmo sem saber.

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Dessa maneira, a narrativa constantemente recobra nossa atenção, jamais permitindo que o ritmo se perca – quando um lado começa a demonstrar sinais de estagnação, já trocamos para o outro, de forma que nossa imersão é garantida do início ao fim. Claro, por mais que o longa consiga assumir um ritmo mais veloz, o lento estabelecimento desses dois personagens, no início do filme, acaba fazendo desse um exercício de perseverança por parte do espectador, que deve lutar para entender o que está, de fato, acontecendo – fruto de uma montagem não muito bem realizada nesses minutos iniciais e de um texto que poderia ser menos confuso. Aliás, alguns notáveis trechos são completamente dispensáveis e somente fazem com que o longa assuma a desnecessária duração de quase três horas.

Felizmente, tanto Denzel Washington, quanto Russell Crowe se entregam plenamente ao papel, ambos funcionando como perfeitas antíteses um do outro, em todos os aspectos. O Frank Lucas de Washington é uma figura extremamente carismática, que verdadeiramente nos diverte com suas aparições em tela, não sendo pintado como o clássico antagonista.

É tal aspecto que torna suas ações violentas ainda mais impactantes, contrastando nitidamente com aquele sujeito que sorri, se preocupa com a família e senta na lanchonete falando sobre os negócios da maneira mais descontraída possível. Ao lidar com devedores, ou afins, o personagem se transforma de maneira assustadora, com o ator sempre em domínio do personagem.

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Já o Roberts de Crowe, segue pelo mesmo caminho, mas de forma um pouco diferente. Sabemos desde o início que ele é um policial honesto – quando ele acaba se tornando mais agressivo (seja verbal ou fisicamente), portanto, o choque é imediato.

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Claramente sua preocupação é unicamente a de prender quem está por trás desse novo lote de drogas e ele cumprirá essa missão, custe o que custar. São seus métodos não ortodoxos que fazem dele o espelho de Lucas, agindo de maneira similar, somente do lado oposto. Ainda assim, é importante notar sua recusa em roubar ou matar por nada, algo para o qual o antagonista não demonstra hesitação.

Todo esse contraste entre os dois personagens centrais é perfeitamente envolvido pela direção de arte de Nicholas Lundy, que nos transporta totalmente para os anos 1970, jamais deixando dúvidas sobre em qual época o filme se passa. Desde os carros, locais, até os figurinos, Lundy e sua equipe acertaram em cheio – aliás, é preciso notar como as vestimentas de Lucas e Roberts se contrapõem, algo que é deixado bem evidente em um dos diálogos do personagem de Washington, que fala sobre não chamar a atenção, enquanto assume sua sóbria aparência, com um terno elegante, que não chama atenção para si.

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Roberts é o oposto, tem uma aparência mais descuidada, com uma jaqueta de couro, cabelo mais longo, refletindo sua preocupação com o trabalho e nada mais. Naturalmente que isso, aos poucos, vai se alterando – Lucas passa se vestir de forma mais suntuosa, exibindo sua arrogância, adquirida com sua proeminente ascensão. Dessa forma, o figurino funciona como uma parte viva do personagem, dizendo muito sobre ele.

No fim, O Gângster certamente prova sua relevância no subgênero, ao ser uma história carregada e definida pelos seus dois personagens centrais. Claramente a preocupação aqui não é a de contar a trama geral e sim a de construir os dois indivíduos vividos por Denzel Washington e Russell Crowe – felizmente, os dois atores mais do que provam ser aptos de carregar essa história em suas costas, nos cativando assim que passamos dos problemáticos minutos iniciais. Certamente não é o filme de gângster perfeito, mas, ainda assim, merece nossa atenção.

O Gângster (American Gangster – EUA/ Reino Unido, 2007)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Steven Zaillian (baseado no artigo de Mark Jacobson)
Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Roger Guenveur Smith, John Hawkes, Carla Gugino, Idris Elba
Duração: 157 min.

Tags: #Carla Gugino #Chiwetel Ejiofor #Denzel Washington #Idris Elba #John Hawkes #Josh Brolin #O Gângster #Ridley Scott #Russell Crowe #Steven Zaillian
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Guilherme Coral
Escrito por

Guilherme Coral

Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.

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