Fazem 16 anos que o primeiro jogo da série Far Cry foi lançado nos computadores. Já nesse game, as ideias que asseguraram seu sucesso se fazem presentes. Apresenta um vasto ambiente na natureza selvagem, onde não existem leis e é dada ao jogador a liberdade para explorá-la como bem quiser, Far Cry é diversão pura. Desde então a franquia da Ubisoft vem acumulando diversos sucessos, tendo seu auge em Far Cry 3. O encanto da ilha Rook com seus personagens icônicos, vilões insanos e elementos sobrenaturais veio para ficar, tornando-se a fórmula Far Cry. Assim, os jogos subsequentes obtiveram um sucesso seguindo a receita criada pelo terceiro jogo numerado da franquia. O novo jogo, Far Cry New Dawn, continuação direta de Far Cry 5 não decepciona esse legado.

Familiar, mas ainda divertido

O jogo se passa 18 anos após o cataclísmico final de Far Cry 5. Após a bomba atômica explodir a região de Hope County ficou inóspita por todos esses anos. Passado esse tempo, as pessoas perceberam que a vida retornou e decidiram sair. Mas o lugar agora tem recursos escassos e há facções em conflito pelas sobras de outrora. Dito isso, a franquia começa a explorar aqui um mundo pós apocalíptico.

Em relação ao visual, é uma surpresa observar os tons coloridos que os desenvolvedores utilizaram em contraste ao trágico final de Far Cry 5. Os cenários são muito bem feitos, é possível sentir o capricho que a Ubisoft empregou ao criar seu design. Os efeitos em geral são realistas, o brilho do sol, as chamas e as faíscas flutuando ao redor do fogo, a água é praticamente perfeita, entre outros efeitos executados com esmero.

A única coisa que decepciona no tocante ao visual é o design de personagens, sua renderização e detalhamento ficam muito aquém de jogos mais atuais, às vezes até mesmo parecendo modelos tirados da geração passada. A animação, ora é boa, principalmente em personagens principais nas cutscenes e passagens essenciais, onde não há muito o que reclamar e ora é terrível. Há momentos em que os personagens possuem movimentos quase robóticos e o lip sync simplesmente não bate, o que já causa uma estranheza tamanha. Esse é um dos elementos que denotam a pressa que o estúdio teve para entregar esse game.

Quanto ao gameplay não há muitas diferenças em relação ao seu antecessor. A mecânica dos parceiros que você pode levar com você para ajuda-lo nos combates e explorar o mundo da Hope County pós apocalíptica, que tem uma influencia clara nas mecânicas dos parceiros de Metal Gear Solid V permanece. Cada um desses personagens que você pode atribuir à equipe possui diferentes habilidades, que vão sendo atribuídas conforme o número de inimigos que ele mata. Entre eles temos Carmina Rye, uma garota que tem como habilidade especial usar dinamites, o juiz que consegue eliminar inimigos silenciosamente com seu arco e o cãozinho Timber, que vai marcar todos os inimigos na área para você.

A inteligência artificial, tanto dos parceiros quanto a dos inimigos, é perfeita. Quando você cai, prestes a morrer, seu parceiro irá tentar salvá-lo imediatamente, mas se houver algum obstáculo na frente, como um inimigo, ele tentará eliminá-lo primeiro e não se suicidar tentando encontra-lo. Transeuntes de facções aliadas se juntarão à batalha quando perceberem que ocorre uma e no meio disso tudo pode haver também animais selvagens como ursos, lobos e carcajus que atacarão todos que encontrarem no caminho, fazendo a batalha caótica pela qual a franquia  é conhecida.

Cada uma das missões tem um nível de dificuldade, com inimigos mais fortes e resistentes, desse modo o jogo fará com que o jogador interrompa a campanha principal para melhorar Prosperity, a base principal. Para melhorar as instalações da base é necessário o material etanol, que é adquirido capturando bases inimigas, interceptando caminhões e saqueando caixas especiais que são jogadas de helicópteros. Melhorando a base, o personagem o personagem desbloqueia melhores armas, equipamentos e veículos que serão necessários para cumprir o restante das missões, que estão classificadas em níveis de dificuldade 1, 2 e 3.

Já os equipamentos tem um nível adicional, os de elite. Com armas de nível 1 e 2, você dificilmente conseguirá enfrentar um inimigo de nível 3 para cima, mas com armas de elite você não terá problemas em seu progresso, pois derrotará qualquer inimigo facilmente. A grande novidade desse jogo é a arma lança serras, que consiste em uma besta modificada para atirar discos serrilhados que fazem grande dano, ricocheteiam em metal e dependendo do jeito que o jogador usar pode matar mais de um inimigo com apenas um tiro.

O combate funciona da mesma maneira de shooters convencionais, você tem diversos tipos de armas como metralhadoras, submetralhadoras, pistolas, escopetas, fuzis de precisão e arcos. O jogador pode portar armas de combate brancas que vão de tacos a pás e utilizar dispositivos arremessáveis como granadas de fumaça, dinamites, facas de arremesso, entre tantos outros. A partir daí fica a cargo do jogador saber como preferirá proceder, se será no modo stealth, sorrateiramente nocauteando os inimigos e usando armas silenciosas como arcos ou pistolas furtivas ou se optará pela batalha que resulta no caos total. Outra novidade é que se pode utilizar poderes especiais como super força, invisibilidade e saltos duplos que fazem com que o combate seja mais variado e divertido.

Insanidade sem limites

A estória começa quando Carmina Rye pede ajuda ao grupo do protagonista para combater os salteadores que vem saqueando o vilarejo de Prosperity. Mas no caminho são interceptados por esses mesmos salteadores. Após uma difícil escapada, o personagem principal, chamado apenas de “O Capitão”, auxiliado por Carmina, finalmente chega a Prosperity. O Capitão é um personagem mudo e, por isso, sua participação na estória fica limitada apenas por ações, ele não interage verbalmente com nenhum outro personagem.

Far Cry como sempre é embebido de insanidade, tanto no seu gameplay irreverente e imprevisível e na fama de seus vilões psicopatas e agora temos insanidade em dobro com as gêmeas Mickey e Lou que causam uma nada agradável primeira impressão logo no inicio do game. Mas, após esse primeiro encontro, fica mais claro que as gêmeas são personagens unidimensionais. Há indícios de um desenvolvimento melhor para elas, mas o jogo não oferece tempo suficiente para tal e elas ficam como personagens de uma nota só. Provavelmente as vilãs mais fracas da franquia.

Alguns personagens de Far Cry 5 retornam nesse jogo, como o líder da seita dos edenitas, Joseph Seed. Quando encontramos Seed, que era presumido como morto devido a sua ausência no acampamento dos edenitas, ele estava fazendo alguma peregrinação no norte, onde se encontra um fruto que dá poderes especiais a uma pessoa. Seed é a conexão com o sobrenatural nesse jogo e as seções sobrenaturais são algumas das melhores na campanha desse game. No entanto a participação do personagem é breve e tem um desfecho um tanto decepcionante.

A pressa é inimiga da perfeição

A impressão que fica é que a Ubisoft se apressou para entregar esse game, aproveitando o sucesso de Far Cry 5 que foi lançado não tem nem um ano. Apresenta alguns problemas técnicos e bugs imperdoáveis ocorrendo. Além disso falta inspiração na narrativa, o brilho encontrado em outros jogos da franquia é inexistente aqui. A temática pós apocalíptica não foi adereçada adequadamente, as vezes parecendo não ter tanto impacto. Tanto os personagens quanto a estória poderiam ser mais bem trabalhados.

Dito isso, a estória não é o forte de Far Cry New Dawn, mas a boa noticia é que apesar desse ser um dos títulos mais fracos, a fórmula Far Cry continua funcionando e a jogatina permanece regada de diversão. Caso já seja um fã da série ou procura mais um jogo de tiro, é altamente recomendado para você. Mas se está procurando por algo um pouco melhor que apenas OK, pode passar esse jogo e esperar que a Ubisoft tenha planos melhores para a franquia daqui pra frente.

Agradecemos a Ubisoft pela cópia especialmente cedida para avaliação.

Far Cry New Dawn (2019)

Desenvolvedora: Ubisoft
Estúdio: Ubisoft
Plataformas: PC, PS4, Xbox One
Gênero: RPG, FPS