Muito antes de a tirania politicamente correta espalhar-se como uma praga pela dramaturgia de humor, houve uma série cômica que antecipou o mal estar da sociedade culturalmente patrulhada. Antes de hashtags virarem ferramenta de comunicação, houve “the yada-yada” e seus múltiplos usos. Uma série que “viralizava” antes mesmo que a expressão adquirisse o significado que tem hoje, “Seinfeld” foi tão revolucionária e desafiadora que alguns de seus princípios permanecem intocados – como a regra informal de jamais finalizar um episódio com “abraços” (ou a situação dramática que reinstaura o equilíbrio perdido), o que mesmo seriados desafiadores e elaborados como “The Office” e “Brooklyn Nine-Nine” não conseguiram igualar.

Para quem não sabe exatamente do que se trata, “Seinfeld” foi uma típica sitcom norte-americana (daquelas com claque após as piadas) apresentada durante nove temporadas (entre 1989 e 1998) e que rivaliza na memória de quem tem mais de 30 anos com “Friends”, por exemplo. Embora esta última permaneça na história da dramaturgia da TV como um sucesso charmoso e nostálgico, não há termo de comparação entre ambas além do retrato de uma mesma cidade (Nova York), época e formato. Enquanto “Friends” sempre foi uma comédia de situações típica, romântica, sem nunca abdicar dos costumeiros laivos de sentimentalismo, “Seinfeld” foi do princípio ao fim uma crônica ácida da comunidade liberal (no sentido norte-americano do termo), pequeno-burguesa, do final de século, neurótica, refém de códigos de conduta social, cultivando relações pautadas em aparência e interesses mesquinhos e obcecada pela vida alheia. Na verdade, uma irônica premonição do que se tornaria a imensa comunidade que vivencia, no século XXI, a rotina virtual em grupo.

Vencedora de inúmeros prêmios Emmy e Globos de Ouro, a série deixou de existir pouco antes de uma inevitável decadência. Um de seus criadores (ao lado de Larry David), Jerry Seinfeld, rejeitou a milionária proposta de continuar estrelando a atração por saber que seria impossível ir ainda mais longe do ponto aonde haviam chegado. Uma decisão inteligente que ajudou a tornar o seriado numa mitologia perene e que permanece atual mesmo num período quando mudanças ocorrem mais rapidamente do que podemos antecipar.

Sua premissa ficou conhecida como uma “série sobre o nada”, em que o bate-papo aparentemente irrelevante entre seus quatro protagonistas (o cômico profissional que dá nome ao programa, seu amigo de infância fracassado e inseguro George Constanza, seu vizinho amalucado Cosmo Kramer e sua ex-namorada eventualmente ninfomaníaca Elaine Benes) é a maior atração.

Seinfeld 1

Seria um desperdício de raciocínio, entretanto, reduzir “Seinfeld” a um “seriado de personagens”, uma vez que muitas das situações apresentadas individualmente em cada episódio têm importância tão grande quanto a mera caracterização dos protagonistas. Muitos deles, inclusive, dificilmente seriam produzidos hoje, quando mesmo as atrações de ponta obedecem a rígidos códigos morais determinados pela agenda politicamente correta. Quem arriscaria em 2016 fazer piada com assistentes sociais afroamericanas autoritárias de nome “Rebecca De Mornay” (o mesmo nome de uma atriz loira dos anos 1990), com feriados hispânicos, com militantes LGBT que espancam apoiadores que se recusam a usar “fitas” durante uma passeata, com mendigos que rejeitam “muffin tops”, com uma descendente de nativos americanos que se ofende a cada três frases do pretendente caucasiano, com funcionários públicos que impedem um pobre contribuinte de descartar seu lixo em simplesmente qualquer lugar dentro da cidade, e assim por diante?

A despedida inesquecível, o desfecho tragicômico do seriado, se dá no episódio derradeiro, no qual seus quatro protagonistas acabam presos por obra de uma lei municipal absurda, após darem risada de um morador com problemas de sobrepeso enquanto este é assaltado.

Muito além de rir de vítimas fáceis do humor da TV (o caipira, a beata, o capitalista inescrupuloso, a gostosa burra e arrivista), “Seinfeld” expandiu o tema da comédia para a comunidade ligada à produção de cultura, aos formadores de opinião, à elite intelectual do leste da América (mas poderia ser de qualquer outro lugar), aos artistas, críticos de arte, fãs de jazz e balé, militantes de cafeteria, juízes da consciência alheia, “benfeitores” mesquinhos, cientistas tirânicos, acadêmicos e formuladores de “políticas públicas”, revertendo o espelho cômico para capturar a imagem de quem está habituado a rir dos outros – mas nunca de si mesmo.

Ao trazer à tona o lado mais imperfeito (e, portanto, genuinamente humano) de grupos sociais ora intocáveis, “Seinfeld” humanizou, através do riso iconoclástico, a todos nós. Sua experiência permanece na história do entretenimento como um fenômeno aparentemente inigualado, quando hoje, rimos apenas do que é “permitido” – ou rimos nervosa e sorrateiramente, com medo das convenções sociais, de mágoas tolas e incontornáveis, da polícia do humor, da judicialização da espontaneidade, o que de forma alguma fez do mundo “um lugar melhor”.

“Seinfeld” está disponível no Brasil num box completo com as nove temporadas distribuídas em 33 DVDs. Há ainda um curioso livro chamado “Seinfeld e a Filosofia: Um Livro sobre Tudo e Nada”, da editora Madras, que procura analisar a série abordando diferentes episódios da perspectiva de pensadores como Nietzsche e Wittgenstein. Este site, em inglês (http://www.seinfeldscripts.com/), oferece uma vasta visão das temporadas, com detalhes, curiosidades e um arquivo com os 180 roteiros originais.