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Como o cinema da Coreia do Sul foi reinventado e venceu o Oscar?

Atualmente, o cinema sul-coreano é apontado como um dos melhores do mundo – talvez até mesmo seja o melhor.

A prova disso veio ao longo de mais de duas décadas com filmes impactantes e bastante poderosos. Entre diversas histórias excepcionais, o primeiro Oscar para o cinema do país veio agora em 2020 fazendo História.

No domingo, dia 9, o diretor Bong Joon-ho viu o sucesso de Parasita ao conquistar os Oscar de Melhor Roteiro Original, Direção, Filme Estrangeiro e também o de Melhor Filme.

Um filme falado em outro idioma que não o inglês nunca havia ganho o prêmio principal da cerimônia. Foi a consagração final do longa sul-coreano.

O cinema sul-coreano não havia recebido até então uma única indicação sequer ao Oscar, apesar de ter se reinventado a partir dos anos 1990, tornando-se um sucesso de bilheteria e crítica e conquistando prêmios nos mais importantes festivais do mundo.

O Oscar foi a forma de Hollywood, após ter ignorado os filmes da Coreia do Sul por tanto tempo, finalmente reconhecer sua qualidade, diz Marc Raymond, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Kawngwoon, em Seul, na Coreia do Sul.

“Parasita é um filme excelente, feito por uma indústria excelente. Era vergonhoso que nenhum filme sul-coreano tivesse sido ainda indicado ao Oscar. E, de repente, veio uma enxurrada de prêmios. Foi um reconhecimento dos trabalhos feitos há quase duas décadas pelo país”, afirma Raymond em entrevista à BBC News Brasil.

Ditadura militar e redemocratização
A Coreia do Sul começou a produzir seus primeiros filmes no começo do século 20, diz Raymond, e sua indústria atingiu um ponto de excelência nos anos 1950, que podem ser considerados “uma era de ouro” do cinema no país. Apesar de não ter sido reconhecido internacionalmente na época, o movimento daquela década foi bem sucedido nacionalmente.

Entretanto, tudo foi perdido durante uma época instável de governabilidade na qual se instaurou uma ditadura militar que tolheu arduamente a cultura no país. Felizmente, algumas medidas do governo contribuíram para transformar a produção cinematográfica sul-coreana. Uma das principais políticas foi um sistema de cotas para filmes sul-coreanos nos cinemas do país.

Criado em 1966, ainda durante o regime militar, o programa previa um mínimo de dias de exibição para produções nacionais — a exigência foi progressivamente ampliada até atingir seu pico, de 146 dias, em 1985, dois anos antes do fim da ditadura e mantido neste patamar pelo regime democrático até 2006.

“Depois do período militar, também foram criados um conselho cinematográfico, uma academia de cinema e um arquivo do cinema coreano, como parte uma valorização do cinema por meio do incentivo e financiamento público da produção, distribuição e exibição de filmes do país”, diz Josmar Reyes, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pós-doutorando em cinema sul-coreano na Universidade Sorbonne, em Paris.

“É uma política de soft power do governo coreano para fazer com que a cultura coreana seja mais conhecida mundialmente e ampliar assim sua influência sobre o que acontece no mundo”, diz Cecília Mello, professora de cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

Reyes também destaca o projeto de reforma educacional promovido pelo governo que, entre outras coisas, incluiu o cinema no currículo escolar. “Os alunos estudam cinema, é um assunto cobrado no vestibular, o acesso dos estudantes aos filmes é facilitado. Isso cria um público para o cinema e as artes em geral”, afirma o pesquisador.

Com a popularização do cinema e o sucesso de bilheteria de alguns filmes, grandes conglomeradores empresariais, como Samsung e Hyundai, passaram a investir em produções cinematográficas ao perceber que eram negócios lucrativos.

Também houve um apoio relevante do poder público e da iniciativa privada para a criação de festivais de cinema locais, como o de Busan, um dos mais importantes da Ásia atualmente.

“Estes festivais deram uma chance para os novos cineastas se desenvolverem e exibirem seus trabalhos e a elevar o patamar do cinema sul-coreano”, diz Raymond.

Desde então, produções como Oldboy (2003), O Hospedeiro (2006), A Criada (2016) e Em Chamas (2018) se destacaram no mercado internacional, conquistaram prêmios e atraíram atenção para o cinema que é produzido na Coreia do Sul.

“Há no cinema sul-coreano uma conciliação entre o cinema mais comercial e aquele dito de autor. Os trabalhos de Bong Joon-ho são um grande exemplo disso. Ele e outros cineastas do país conseguem serem apreciados ao mesmo tempo pelo público mais geral e também aquele mais crítico e seletivo”, diz Reyes.

“Ao menos um filme nacional é lançado por semana. Todos os anos, quando se olha os dez maiores sucessos de bilheteria da Coreia do Sul, ao menos metade são filmes nacionais”, diz Raymond.

Atualmente, afirma o pesquisador, a discussão em torno das cotas no país não se dá mais entre filmes coreanos e estrangeiros, mas entre grandes lançamentos nacionais e filmes independentes.

Uma história digna de filme.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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