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Catálogo

Crítica | A Nuvem Rosa – Um primoroso retrato acidental

A Nuvem Rosa já seria uma obra notável mesmo antes da pandemia global, por trazer uma abordagem inteligente e original

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
5 de setembro de 2021 · 5 min de leitura
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São raras as ocasiões onde podemos dizer que a vida imita a Arte. No caso da curiosa produção de A Nuvem Rosa, é quase como se a Arte tivesse antecipado a vida, ainda mais considerando que este pequeno longa de estreia gaúcho acidentalmente previu o mais importante evento global do século: a pandemia do COVID-19, e a subsequente quarentena instalada para promover o distanciamento social. Para muitos, essa “previsão” será o bastante para resumir o legado do filme de Iuli Gerbase, mas seu impacto é muito maior.

Com um aviso muito bem-vindo de que o roteiro foi escrito e finalizado ainda em 2017, a trama acompanha a repentina chegada de uma misteriosa nuvem rosa ao redor do mundo. Ao entrar em contato com sua massa gasosa, as pessoas simplesmente caem mortas, sem qualquer explicação de governos ou cientistas. Nesse cenário, os recém-conhecidos Giovana (Renata de Lélis) e Yago (Eduardo Mendonça) são forçados a entrar em quarentena juntos, ao passo em que toda a civilização se adapta à chegada da nuvem titular.

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Confinados

Após a pandemia da COVID-19 (que ainda está acontecendo, importante de se frisar), Hollywood parece estar obcecada em fazer filmes sobre o acontecimento. Seja em um nível pavorosos com Confinamento ou Songbird, ou de excelência com o imperdível Inside de Bo Burnham, ainda é um tema difícil de se abordar e desenvolver – até mesmo por ser uma narrativa ainda sem conclusão. É particularmente bizarro, justamente por isso, que A Nuvem Rosa consiga se destacar como uma das obras mais complexas e inteligentes sobre o tema (sem mesmo ser sobre ele), ao se debruçar sobre o comportamento humano em primeiro lugar, oferecendo insights sobre seus lados mais admiráveis e também os mais sombrios.

Também assinado por Gerbase, o roteiro é bem incisivo em analisar as relações interpessoais no século XXI, especialmente através de ferramentas digitais. A presença constante de chamadas de vídeo, aniversários por Skype e praticamente tudo o que qualquer pessoa possa ter experimentado no ano passado ajudam a construir uma experiência palpável e dinâmica. Desde momentos mais emotivos, como a chamada que Yago faz com seu pai à distância, até algo mais sombrio, como a eminente dependência de Giovana a experiências com um óculos VR. É ainda mais divertido/assustador ver como Gerbase explora as possibilidades mais extremas de um evento global do tipo, desde influenciadores digitais procurando ver “o lado positivo da nuvem” e até mesmo um culto religioso à presença da massa gasosa nos céus.

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Narrativas visuais

A inteligência da cineasta também se traduz em sua rica, e simples, linguagem visual. Através da paleta de cores fria e gélida de Bruno Polidoro, a direção de Gerbase aproveita planos abertos em espaço e de longa duração, fazendo uso do chamado “espaço morto” na tela para causar um estranhamento constante durante a projeção – ao mesmo tempo em que distancia os dois protagonistas. Essa escolha, inclusive, mostra-se muito feliz ao simbolizar as duas fases do casal: no início da jornada, quando estão juntos mas ainda se conhecendo, a câmera Gerbase aposta em longos planos onde vemos os dois em quadro conversando e sem cortes. Posteriormente, a linguagem muda para planos individuais mais fechados e com uma montagem mais agressiva durante diálogos mais calorosos, servindo como uma representação visual bem eficiente sobre o desgaste da relação dos dois. Pode parecer coisa básica, mas é um cinema puro poucas vezes encontrados por aí.

E falando nos protagonistas, Renata de Lévis e Eduardo Mendonça fazem um bom trabalho ao segurar praticamente todo o filme sozinhos, sendo bem eficientes em expor facetas diferentes de seus personagens ao longo da jornada que vai se mostrando mais longa do que o esperado. Da parte de Giovana, Lévis trabalha bem com ao associar sua dependência aos óculos VR quase como uma droga, ao passo em que a crescente “admiração” de Yago com a nuvem rosa é transmitida pelo ator como alguém devoto a um culto religioso; com muita sutileza e calculismo.

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Vale apontar também que a leitura das falas muitas vezes pode soar artificial e “lida” demais. Normalmente consideraria uma falha, mas como Gerbase parece frisar desde os minutos iniciais de projeção, estamos em um universo muito característico e propositalmente “fora da realidade”, justificando passagens que soam mais engessadas. A melhor comparação que posso dar são os filmes de M. Night Shyamalan, que trazem um estilo de atuação próprio e que deliberadamente evitam o naturalismo, características que Gerbase adota também em sua gramática visual.

A Nuvem Rosa já seria uma obra notável mesmo antes da pandemia global, por trazer uma abordagem inteligente e original sobre relacionamentos no século XXI através de uma execução criativa e simples. Naturalmente, o timing de 2020/2021 só a torna mais relevante e especial, e espero ver mais desse requintado e perturbador cinema de Iuli Gerbase no futuro.

A Nuvem Rosa (Brasil, 2021)

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Direção: Iuli Gerbase
Roteiro: Iuli Gerbase
Elenco: Renata de Lélis, Eduardo Mendonça, Helena Becker, Girley Paes, Lívia Perrone Pires, Kaya Rodrigues
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 104 min

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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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