É um fato dizer que a Netflix parece ter ficado presa a um dos nichos mais explorados da indústria cinematográfica de todos os tempos: as comédias românticas adolescentes. Começando com a onda de filmes de baixo orçamento ano passado, 2018 atingiu um ápice inesperado com produções como Sierra Burgess Is a Loser, Para Todos os Garotos que Já Amei e Alex Strangelove. Apesar da tentativa de renovar um catálogo baseado em no drama e no terror, esses longas-metragens eventualmente se valeram das mesmas premissas de outros clássicos dos anos 1980 e 1990, tornando-se repaginações modernas de premissas já conhecidas. E, como já poderíamos esperar, a época do Natal pede por mais narrativas desse tipo: leves, inocentes e, no geral, ruins.

A Princesa e a Plebeia, marcando o retorno de Vanessa Hudgens para as telas depois de alguns anos, não tem esse título por qualquer motivo. Inspirado pelo conto O Príncipe e o Plebeu, de Mark Twain, o filme gira em torno de duas mulheres muito parecidas entre si e que vivem em mundos muito opostos – uma está prestes a tornar-se princesa, e a outra é dona de uma pequena confeitaria do subúrbio de Chicago. Stacy De Novo e Lady Margaret, ambas interpretadas por Hudgens, são apenas peões dentro de algo muito maior – ou que deveria ser maior em teoria – cruzando caminhos ao acaso quando Stacy é inscrita em um festival de gastronomia sediado pela família real de Belgravia, futuro país comandado por Margaret. É quase instantâneo imaginar que as duas se conhecerão e irão embarcar em uma aventura que mudará tudo o que conhecem.

O problema é que nem mesmo o diretor Mike Rohl ou os roteiristas Robin Bernheim e Megan Metzger parecem saber o que fazer com a trama em questão. Nenhum deles consegue conduzir com a precisão e a minúcia necessárias, optando por escolhas extremamente convencionais para dar à obra o mínimo de fluidez. No final das contas, a única coisa da qual nos lembramos é que Rohl falhou onde Nancy Myers acertou em cheio em 1998; como bem nos lembramos, Operação Cupido, baseando-se em um escopo parecido, porém com transcrições originais de irmãs gêmeas ainda separadas quando bebês, se vale de uma produção muito mais competente que, mesmo depois de tantos anos, consegue ofuscar essa pífia construção natalina.

O primeiro ato move-se com dificuldade, encontrando obstáculos para definir um ritmo que, eventualmente, inexiste. Hudgens tenta ao máximo entregar-se às personagens que encarna, mas nem mesmo Stacy consegue sobreviver em meio a atuações canastronas e diálogos horrivelmente escritos – isso sem mencionar seu risível esforço de criar um sotaque único para a nobre personagem, que também não funciona em nenhuma instância. Muito pelo contrário, o espectador vê-se frente a frente com espécies de esquetes fragmentárias cortadas de Saturday Night Live, cuja arquitetura tangencia o insuportável. Ainda que os coadjuvantes Kevin (Nick Sagar) e Olivia (Alexa Adeosun) deem um pouco mais de brilho, também não conseguem se salvar de uma unidimensionalidade gritante.

Stacy e Margaret acabam por trocar de vidas e se apaixonando por aquilo que sempre desejaram. Enquanto esta diverte-se com a proposital falta de afazeres reais, conhecendo tudo o que sempre quis, aquela se encanta com o próprio conto-de-fadas, chegando até mesmo a apaixonar-se pelo príncipe Edward (Sam Palladio), com o qual não consegue criar nem a mais ínfima química. É de se esperar que algum personagem, em determinado momento, queira destruir a felicidade das duas e obrigá-las a retornar para o status quo vigente. Mas até esses parcos momentos na verdade estão travestidos de boas intenções, convergindo para que ambas encontrem seus finais felizes sem quaisquer barreiras.

Entretanto, há um personagem em questão que definitivamente não mostra uma necessidade consistente de existir dentro do cosmos fílmico. Encarnando um ser onipresente e conhecido apenas como um bom samaritano inominável, Robin Soans mostra que o que está ruim pode ficar muito pior. É claro o que sua persona deveria representar, mas isso não quer dizer que funcione: ele auxilia cada uma das protagonistas a decidir pelo inusitado, a trocarem de vidas, a ousarem quebrar os paradigmas engessados há séculos entre a nobreza e a plebe – não é à toa que aparece em quase todos as sequências decisivas. Conforme nos aproximamos do final, não há mais nada a se fazer além de forçar nossa mente a lembrar dele, visto que, no geral, acaba não tendo uma importância significativa.

Em meio a tantos imperdoáveis deslizes, ainda mais para uma época festiva e que preza por histórias emocionantes ou pelo menos divertidas, há apenas uma cena interessante: em meados do segundo ato, quando as faíscas entre Stacy (fingindo ser Margaret) e Edward começam a acender, ambos se veem numa grande festa e tocam num belo piano de causa uma rendição envolvente de Carol of the Bells. Até mesmo as técnicas de filmagem ganham um up, preferindo por cortes suaves e enquadramentos mais fechados ao invés da constante estética panfletária do longa. Mesmo que dure apenas alguns segundos, é interessante ver como a trama poderia ter seguido por um lado muito melhor do que nos foi apresentado.

A Princesa e a Plebeia, mais uma vez, esbarra nos clichês que não funcionam. Se a Netflix queria fazer algo ao menos divertido de se assistir e que passasse uma mensagem “bonitinha”, realmente não conseguiu. É melhor assistir O Príncipe do Natal – ao menos o Castelo é mais bonito.

A Princesa e a Plebeia (The Princess Switch – EUA, 2018)

Direção: Mike Rohl
Roteiro: Robin Bernheim, Megan Metzger
Elenco: Vanessa Hudgens, Sam Palladio, Nick Sagar, Alexa Adeosun, Suanne Braun, Mark Fleischmann, Sara Stewart, Pavel Douglas, Amy Griffiths
Gênero: Romance
Duração: 101 min.

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