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Crítica | Apocalipse V: 1ª Temporada – A Insuficiência das Boas Intenções

Desde que Drácula, de Bram Stoker, foi lançado em 1897, o gênero da fantasia gótica ganhou um novo capítulo: entre recriações lendárias que ficaram para as eras e inúmeras releituras dentro da indústria do entretenimento, o outrora engessado personagem vampiresco tornou-se herói, vilão, anti-herói – e foi agraciado com uma backstory que o transformou num ser menos inalcançável e mais humano. É claro que, ao longo das múltiplas adaptações do romance supracitado, alguns deslizes foram praticamente imperdoáveis (como o presunçoso Van Helsing e o esquecível Drácula – A História Nunca Contada).

Com o passar do tempo, o fabulesco teor dessas narrativas transformou-se em um pesaroso drama que, por mais que suas intenções fossem as mais puras possíveis, nunca ousava para além do esperado, como é o caso das recentes Vampire Diaries, True Blood e Legacies. Tal enredo, nos dias de hoje, é embebido em uma explicações genéticas que analisam a passagem de um humano a um vampiro – e, para isso, a Netflix resolveu investir em mais um show original intitulado Apocalipse V. A produção, que é respaldada por uma estrutura consideravelmente sólida, tenta ao máximo se esquivar de convencionalismos artísticos e técnicos, mas rende-se a algo conhecido, nem um pouco original, e que apressa-se a um medíocre season finale que nos deixa mais frustrados que satisfeitos (ou ansiosos para o próximo ciclo).

Toda famosa lenda sobrenatural deve começar em algum lugar – e é isso a que se compromete a trama criada originalmente pelo quadrinista Jonathan Maberry: o pano de fundo é centrado no Dr. Luther Swann (Ian Somerhalder), um cientista que viaja para as terras geladas do Ártico ao lado de seu braço-direito Michael Fayne (Adrian Holmes) para investigar o desaparecimento de dois colegas de trabalho. Entretanto, ao chegarem às facilidades laboratoriais, descobrem que não há sinal de vida dos dois – e, como se não bastasse, libertam um tipo de biomassa que esteve escondida por milhares de anos. Basicamente, esse espécime ativa um gene dormente que existe em uma boa parte da população mundial e dá origem ao que apenas entendemos como “o próximo passo da evolução”: predadores que se alimentam de sangue humano e que possuem força, audição e capacidade de recuperação surpreendentes – ou seja, vampiros.

Após ficarem em quarentena, Luther e Michael ficam doentes até serem liberados por falta de quaisquer evidências que os obriguem a permanecer longe do contato humano – isso é, até Michael contatar seu melhor amigo depois de destroçar uma jovem desconhecida. É nesse momento que Luther percebe que a biomassa entrou em novo estágio e espalha-se tão rápido quanto água – infectando dezenas de pessoas em poucos dias e milhares em algumas semanas. E é a partir daí que a humanidade é posta em xeque pela presença mortal dos Sanguíneos (nome dado à comunidade vampírica que insurge como forma de protesto e resistência).

A série até tenta criar sua própria mitologia, mas abandona recursos valiosos que são mostrados aos espectadores nos primeiros episódios: na verdade, é inegável dizer que o enredo cultivado é instigante em todos os seus aspectos – renegando a si mesmo em prol de algo que seja mais crível por parte da audiência. Ora, estamos tratando de uma produção fantasiosa, literalmente visceral (com alguns resquícios científicos que não devem ser levados a sério). Deixar que um molde melodramático carregue todo o peso cênico da obra é um grave erro a ser cometido – e é isso que se demonstra para o público: com alguns momentos fervorosos que poderiam ser melhor construídos, Apocalipse V falha ao aglutinar os elementos que têm em uma cronologia compreensível o suficiente.

Enquanto os personagens principais são atacados com a presença de coadjuvantes que brotam dos mais diversos lugares, ao menos alguns nomes excedem as expectativas, como é o caso de Mila Dubov (Laura Vandervoort), que é transformada em uma Sanguínea pela própria irmã e luta contra os impulsos de consumir sangue fresco. Mila, apesar de não nutrir do tempo de cena que deveria, tem um poderoso arco em que se transforma numa justiceira à la Blade, o Caçador de Vampiros, lidando com a própria perda de personalidade para se vingar e, eventualmente, ajudar Luther a adquirir uma cura.

Ademais, nenhuma das outras personas ergue qualquer química aparente: Luther e Michael são bem melhores quando estão separados; Danika (Kimberly-Sue Murray) é uma das figuras mais misteriosas da série ao portar-se como uma femme fatale que consegue absolutamente tudo o que deseja (ainda mais por ser uma criatura Vardulak, ou seja, uma subespécie que libera uma toxina viciante em suas vítimas), mas quando vira o par romântico de Michael, perde sua forte presença. Até mesmo Desmond (Kyle Breitkopf) e Kaylee (Jacky Lai) são embutidos com forçadas subtramas que não fazem o menor sentido e contribuem para nenhuma mudança dentro do escopo principal.

De qualquer forma, nem tudo está perdido: apesar dos múltiplos e amadores deslizes que não fazem jus ao material de inspiração, o show diverte; quando não se leva muito a sério ou não se deixa infiltrar por metáforas vencidas e pessimamente articuladas, ela entretém dentro de suas limitações e maneja pavimentar um gancho interessante para os capítulos que virão.

Apocalipse V é uma mistura ridiculamente eclética de Resident Evil com qualquer drama adolescente pós-apocalíptico. Apesar de não conseguir se desvencilhar das fórmulas, ao menos a obra é, como já mencionado, divertida.

Apocalipse V – 1ª Temporada (V-Wars, EUA – 2019)

Direção: Brad Turner, T.J. Scott, Kaare Andrews, Martia Grabiak, Bobby Roth, Ian Somerhalder
Roteiro: Sam Beck, Charlie Cleven, Glenn Davis, Bernard Keogh, Seamus Keogh, William Laurin, Jonathan Maberry
Elenco: Ian Somerhalder, Adrian Holmes, Jacky Lai, Kyle Breitkopf, Kimberly-Sue Murray, Peter Outerbridge, Michael Greyeyes, Sydney Meyes, Laura Vandervoot
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Drama, Ação, Fantasia
Duração: 40 min. aprox.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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