Crítica | Avatar: Fogo e Cinzas reafirma qualidades e defeitos da franquia
Um filme como Avatar: Fogo e Cinzas, a terceira parte da franquia de James Cameron, não pode ser avaliado como uma produção qualquer. Mais que um mero produto cultural ou uma obra audiovisual, ele é resultado de uma complexa operação sobretudo financeira, com objetivos bem tangíveis e que muitas vezes sobrepõem-se ao desafio artístico proposto […]

Um filme como Avatar: Fogo e Cinzas, a terceira parte da franquia de James Cameron, não pode ser avaliado como uma produção qualquer. Mais que um mero produto cultural ou uma obra audiovisual, ele é resultado de uma complexa operação sobretudo financeira, com objetivos bem tangíveis e que muitas vezes sobrepõem-se ao desafio artístico proposto por qualquer filme. Avatar não é uma “mitologia” antes de ser uma “empresa” e, da mesma forma como nas gigantescas franquias de super-heróis, por exemplo, esse lado econômico não pode ser deixado de lado como mero detalhe.
Comparado, entretanto, a outras franquias de tamanho equivalente, é como podemos observar melhor os atributos específicos do universo concebido por seu realizador. E é aí que suas limitações saltam aos olhos. De nada adiantaria “comparar” este filme (bem como os dois anteriores) com outros lançamentos de sua época sem levar em conta aquele aspecto (o econômico): estamos falando de uma produção bilionária com expectativas também bilionárias de retorno. São características que não se aplicam a muitos filmes, compondo quase um gênero à parte.
Toda decisão que seria eminentemente “estética” para outro diretor aqui se torna um ponto sensível da equação toda de Avatar como negócio. Um exemplo disso é a duração exagerada (reflexo direto do tamanho do orçamento), mas também a ausência de intervalo – o que poderia tornar a experiência física menos cansativa, como em O Brutalista, mas por outro lado diminuiria ou atrapalharia o número de sessões diárias, com reflexo provável na bilheteria.
Sendo assim, colocado diante, por exemplo, de sagas como a de Guerra nas Estrelas ou de O Senhor dos Anéis, Avatar mostra equivalência em termos dimensionais e econômicos, mas sofre nos cinematográficos. Sua capacidade de levantar bilheteria é extraordinária (estamos falando de uma franquia que tem potencial para superar a de George Lucas e se tornar a mais lucrativa da história do cinema). Isso não é pouco levando em conta como os filmes ficaram cada vez mais caros, como é inglória a batalha por manter os lançamentos nas salas de exibição (sem apelar à solução fácil do lançamento direto em streaming) e todos os riscos envolvidos (embora estes sejam minuciosamente mitigados pela máquina de marketing dos grandes estúdios).
Porém, a pergunta que permanece para o amante verdadeiro do cinema é: pensando no aspecto unicamente cinematográfico, o que está na tela vale o esforço (tanto de produção, quanto de audiência, submetida a quase três horas e meia de conteúdo ininterrupto)?
Um pouco diferentes dos dois primeiros filmes, esta terceira parte tem uma abordagem ligeiramente mais intimista e se debruça mais atenciosamente sobre as relações entre os personagens. Sua primeira metade prepara o terreno e a ação só pega para valer na última hora. Isso não quer dizer que o início não tenha vibração e, como se sabe, Cameron é um bom contador de histórias com domínio da ação na tela. Ele sabe criar ambientação, seu trabalho de câmera está longe da vulgaridade das “câmeras de iPhone” que hoje predominam em muitas grandes produções e há alguma verve no universo como um todo. Porém, falta alguma coisa para Avatar que sobra – novamente, como exemplos – tanto em Guerra nas Estrelas quanto em O Senhor dos Anéis.
Guerra nas Estrelas foi lançado muito antes de existir uma “era da internet” e mesmo O Senhor dos Anéis não teve a seu dispor o potencial de multiplicação da informação digital que só viria anos depois de seu lançamento. Avatar, por sua vez, é um produto direto da era das redes sociais. A despeito disso, a “mitologia” criada por Cameron não rivaliza nem de longe com aquela criada por Lucas, tampouco com a de Tolkien levada às telas por Peter Jackson – de fato, sequer rivaliza com a mitologia criada pelo próprio diretor em sua franquia Exterminador do Futuro.
O universo de Avatar tem uma insipidez de “protetor de tela” que parece incapaz de deixar sua marca na cultura popular. Não há “estrela da morte”, “sabre de luz”, nem Darth Vader, tampouco “anel precioso” em sua mitologia. Nenhum grande momento cinematográfico que salta da tela diretamente para o inconsciente coletivo, permanecendo gravado ali por anos e anos vindouros e sendo constantemente rememorado, imitado, referenciado, parodiado (como nos outros dois casos e mesmo no de Terminator). O fato é que, a despeito da tremenda realização envolvida nos três filmes da saga Avatar até o momento, faltam grandes momentos, “signos”, especificamente cinematográficos, o que resulta numa viagem ao final da jornada até o momento da qual não se parece levar nenhuma lembrança significativa.
Avatar: Fogo e Cinzas se aprofunda nos conflitos em Pandora, agora com um conflito central onde um dos personagens vira uma espécie de “ponte genética” entre os seus habitantes e os terráqueos, despertando uma nova onda de perturbação e cobiça entre os exploradores espaciais. Cameron prossegue com sua reformulação do mito do bom selvagem e o habitual superficialismo ecológico que, se não soa datado, carece de problematização, permanecendo no nível da aula de ensino médio. Seria pedir demais que fosse diferente, mas o problema em nada contribui para o espetáculo em si, de modo que pouco se destaca aos olhos do espectador.
Um outro problema da saga e que é agravado aqui até pelo tom mais “intimista” que o filme assume em sua primeira metade é a dificuldade em caracterizar e diferenciar os personagens nativos (que são muitos). Diferente de Guerra nas Estrelas ou do universo de Tolkien (novamente comparando), há uma excessiva “uniformização morfológica”: os personagens acabam se parecendo entre si, o que gera confusão na tela e menor fixação na mente do espectador (e reforça o caráter insípido do universo todo, apesar do colorido exuberante). A única figura que realmente se destaca é Varang, vivida por Oona Chaplin, que apimenta as cenas debaixo de muitas camadas de manipulação digital. É dela (e talvez, somente dela) o “respiro” de humanidade e audácia que, de resto, faltam ao filme como um todo.
Veloz na edição, divertido mas cansativo pela duração alongada, bem concebido em termos de ação e caprichado visualmente (mas poderia ser diferente numa produção tão cara?), sempre confuso para crianças menores mas talvez também nem tão interessante para adultos, Avatar: Fogo e Cinzas é o blockbuster “obrigatório” da temporada – mesmo sendo menos interessante cinematograficamente que blockbusters melhores de anos melhores do cinema mundial.