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Crítica | Bom Comportamento – Os equívocos de uma nova tendência

A banalização da câmera.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
18 de outubro de 2017 · 4 min de leitura
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O novo longa-metragem dos irmãos Benny e Josh Safdie (os mesmos de Amor, Drogas e Nova York) é mais um exemplar do tipo de cinema nocivo realizado atualmente, caracterizado, principalmente, por desprezar completamente a câmera e a capacidade que esta tem de potencializar uma história. De uma maneira análoga aos recentes O Filho de Saul e Mãe!, filmes nos quais os seus respectivos diretores acharam que, para entrarmos em contato com diferentes sensações, precisamos testemunhar o mundo exclusivamente a partir da subjetividade e reações dos personagens, Bom Comportamento nos oferece um visual focado quase que inteiramente nas faces e movimentos de seus atores.

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Costumeiramente, é dito que, caso haja uma justificativa no roteiro, o emprego de tal recurso pode beneficiar consideravelmente a história. Particularmente, não lembro de ter visto muitos filmes que tenham desfrutado do emprego total dessa lógica visual ou de suas variações mais próximas (como câmera subjetiva, subjetiva reversa e câmera na mão acompanhando as costas dos personagens). Em verdade, os que me vêm à memória funcionam apesar delas (como algumas obras dos irmãos Jean-Luc e Pierre Dardenne). Geralmente, esses casos bem-sucedidos são filmes cujas performances hipnotizam e nos quais há uma história tão poderosa que é quase impossível reagir indiferentemente a ela.

Infelizmente, esse não é o caso de Bom Comportamento. A performance de Robert Pattinson como o ladrão que se arrepende de ter incluído o irmão intelectualmente deficiente (que é interpretado pelo próprio Benny Safdie) em um roubo a banco e parte em uma jornada tragicômica para liberá-lo do hospital ao qual fora enviado após uma briga na prisão é competente e chama a atenção pela visceralidade com a qual o ator se entrega ao papel, o que o faz se afastar das figuras mornas, introspectivas e expressivamente opacas que marcaram a sua trajetória profissional até o momento. Porém, falta-lhe aquela presença em cena potente, capaz de atrair totalmente a nossa atenção e que é característica indissociável dos grandes atores cinematográficos.

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Já o roteiro escrito por John Safdie e Ronald Bronstein pouco faz para melhorar a impressão geral. Trabalhando com um protagonista cuja notável persistência encontra equivalência apenas na ausência de quaisquer outras características dignas de serem mencionadas (positivas ou negativas), personagens coadjuvantes que surgem e desaparecem sem deixar uma marca sequer (com um destaque especial para a participação caricata de Jennifer Jason Leigh e a subtrama envolvendo um ladrão, o qual, inacreditavelmente, tem a chance de protagonizar um extenso e desnecessário flashback composto por elipses óbvias) e uma história evidentemente alongada para passar a sensação de que estamos acompanhando um thriller empolgante (quando, na verdade, somente uma cena – a do hospital – é realmente tensa), o texto da dupla não consegue atingir a maioria dos seus objetivos.

Assim, diante dessas falências técnicas e narrativas, a direção poderia ser o porto seguro da produção. Todavia, é, de longe, o ponto mais fraco. Ao longo de toda a narrativa, a câmera é inexistente. Com exceção da cena inicial, quando o close-up do personagem interpretado por Benny expõe o drama de uma alma aprisionada em razão da deficiência cognitiva, todas as aproximações excessivas da câmera não revelam nada. Muito pelo contrário. Tentam esconder a ausência de geografia de cena, planos e contra-planos, uma mise-en-scène descuidada (é impressionante como os diretores sabotam até as interpretações, já que excluem boa parte do trabalho físico dos atores)  e uma decupagem nada interessada em explorar dinâmicas, interações e intimidades. 

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Tecnicamente, os destaques positivos ficam por conta da fotografia de Sean Price Williams, que explora sentimentalmente as texturas dos 35 mm (o contraste com as luzes de neon cria um visual decadente e impactante), o figurino, cujo trabalho transmite com competência a sujeira na qual personagens estão inseridos, e a trilha sonora composta pelo grupo Oneothrix Point Never (que agradável surpresa!), a verdadeira responsável pela sensação de urgência. Contudo, mesmo juntas, essas qualidades não gozam do poder de diluir o impacto negativo proveniente de uma direção incapaz de transmitir algo através do trabalho de câmera. No fim, tudo o que resta é a esperança de que desapareça essa tendência absurda de negligenciar os poderes do maior elemento cinematográfico e o cinema genuíno volte a ser praticado pelos cineastas.

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Bom Comportamento (Good Time, Estados Unidos – 2017)

Direção: Benny e Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster. Barkhad Abdi, Necro
Gênero: Thriller
Duração: 101 minutos

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Tags: #Benny Safdie #Cinema #crítica #Filme #Jennifer Jason Leigh #Robert Pattinson
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