Já ouviram falar da certa fama mágica que a DreamWorks possuí? Sobre a grande façanha deles conseguirem pegar as tramas que mais aparentam completamente banais e estranhas, e conseguem surpreender com bons resultados vindos delas?! Apenas vejam exemplos como: a versão animada de Moisés – Príncipe do Egito; uma comédia fantasia sobre um ogro com a vida sanitária questionável e que no final acaba com a princesa – Shrek; uma trilogia sobre um urso panda dublado por Jack Black que aprende a lutar Kung Fu – Kung Fu Panda. E sabem qual a similaridade entre esses filmes? Todos acabaram sendo verdadeiramente ótimos.

O próximo felizardo desse destino seria essa história sobre um jovem chamado Soluço (Jay Baruchel) aprendendo à treinar o seu também jovem dragão chamado Banguela, e provar que os dragões são seres que não devem ser temidos e odiados pelo seu povo. Trama que só de ouvir já soava na época de seu lançamento como uma ideia não só desinteressante, mas também capenga e extremamente clichê, e que acabou sendo não só uma das melhores animações da DreamWorks como também um dos melhores exemplares da grande qualidade que o estúdio e seus criadores são capazes de entregar.

O que de fato é um filme de resultado até bem estranho se você pegar à fundo o quanto o filme consegue funcionar e encantar mesmo que siga tantos traços de história já batidos e percursos narrativos muito familiares. Um jovem Viking nerdão e atrapalhado treinando um dragão fofinho é uma idéia que nas mãos de qualquer seria um convite certo para o fracasso. Mas é aí que dizem com tanta verdade que a execução sempre faz a diferença, Como Treinar o Seu Dragão está aqui como uma das provas disso.

Uma História de Amizade

Poderia vir começar aqui em tentar ressaltar toda as temáticas já batidas de esforço, superação, comunicabilidade e união que o filme com certeza discute de maneira eficiente, mas o grande foco do filme está exatamente no seu título e em todas as cenas que o vemos em execução, a relação de Banguela e Soluço que é o principal coração e alma desse e dos filmes seguintes.

E pode parecer bizarro fazer essa comparação, mas a forma com que a personalidade de Banguela é construída, e sua relação com Soluço é desenvolvida, lembra e muito a de Lilo com Stitch (em Lilo & Stitch), que ironicamente ou não, possuem os mesmos diretores, Dean DeBlois e Chris Sanders, que voltavam aqui à retratar temas similares ao seu filme da menina e seu alien azul feroz.

Seja com a problemática familiar entre filho e pai enfrentando sua falha de comunicação e até falta de respeito mútuo, sendo um ponto de discussão ao longo do filme, tal e qual a relação de Lilo e sua irmã Nani, e a construção da natureza imprevisível do seu amigo animal que age por puro instinto selvagem, assim como Stich. E que, ao longo do filme, ambos conquistam a confiança de cada um e por consequência o amor e afeto, tanto entre eles como individualmente.

O que impressiona, novamente, é mesmo que a história seja a mais básica da basicona, o filme consegue dar vários sentidos sutis à se interpretar dela. Seja a relação de Soluço e Banguela se mostrando ser uma representação da forma construtiva de se tratar os animais, com afeto, carinho e respeito, em contrapartida ao tratamento de ódio e guerrilha que o resto do povo de Berk sempre tratou os dragões. E se Stitch era basicamente a representação de um cão feroz, banguela age e simboliza mais um gato selvagem, ambos uma fofura mas também letais quando preciso.

Seja também na relação formada por frustrações entre Soluço e seu pai Stoico (Gerard Butler) que formam a segunda vertente mais dramática do filme depois do arco com Banguela, e que até se mostra ser tanto dura e seca quanto consegue ser bem realista em retratar uma relação conturbada entre pai e filho, e que deixa muito a se entender sobre o passado cheio de decepções, com a ausência da mãe sendo um sutil e perfeito indicativo para isso (e que voltaria à ser usado brilhantemente na continuação).

Mostrando até perfeitos traços metafóricos como o fato do pai de Soluço se chamar Stoico, uma referência ao Estoicismo, a doutrina filosófica de Zenão, que pode ser interpretada como a rigidez dos princípios morais frente à um único pensamento de imperturbabilidade e resignação. Em outras palavras, uma teimosia presa à seus antigos valores e crenças rígidas que o cegaram à ele e ao seu povo em crerem que tudo fora de Berk significa o perigo, nesse caso os dragões, no qual Soluço descobre serem uma espécie que vivem em medo tanto quanto os Vikings. Aprendendo a valiosa lição de que um inimigo é apenas aquele cuja história você ainda não ouviu.

E só quando Soluço abandona por completo tudo que lhe foi ensinado sobre a guerra, e consegue mudar a visão dos jovens da vila que o acompanham no treinamento contra dragões, é que a nova geração consegue enfrentar o presente preso em um círculo sem fim de morte e guerra que os adultos de Berk vivem, e fazer seu povo prosseguir em um futuro de paz e prosperidade.

Muito disso vem à tona de forma bem natural dentro da história com um roteiro que sabe empregar muito bem esses temas de forma inteligente e sutilmente na narrativa. Seja por conseguir apresentar seus personagens, as peças dos futuros conflitos e estabelecer as regras desse universo e da grande luta entre dragões e humanos só nos primeiros dez minutos com a narração expositiva de Soluço que não soa tão forçada graças à mesma ser mesclada no meio de uma batalha cheia de correria, explosões e humor, o que permite o resto do filme contar muito de sua história visualmente e focar sempre nas emoções dos personagens.

É um filme que não esconde ou tenta distrair as consequências ou natureza desse mundo. Aprendemos a gostar do Banguela junto de Soluço, mas sabemos que ele ainda é um animal movido à sua natureza e a qualquer momento ele pode se cansar do seu dono e ir embora ou possivelmente machucá-lo. E mesmo depois que sua relação se solidifica em afeto mútuo, o mundo banhado por ódio e desavenças ainda fará com que eles percam algo dentro desse conflito, um pedaço de cada (literalmente).

Mas ainda assim uma linda e divertida relação que faz o possível para pouco recorrer à diálogos, e sim se mantém muito mais interessado e focado na interação silenciosa de ambos protagonistas e pequenas trocas de gestos que falam mais do que mil palavras. Ao mesmo tempo em que entrega inesperados momentos de diálogos íntimos onde cada personagem em jogo, seja Soluço, seu pai ou até o interesse amoroso Astrid (America Ferrera) revelam seus conflitos pessoais.

É essa a maturidade com que esse filme é lidados que torna Como Treinar o Seu Dragão tão especial mesmo dentro de suas familiaridades. Onde tudo que consegue ser tratado de forma tão emocionalmente genuína, que nem seu clímax ultra clichê consegue destoar o pequeno impacto que a história e seus personagens causam. Mas nada disso seria possível sem o imenso esforço da equipe criativa por trás do filme.

Esforço e qualidade

Triste que DeBlois e Sanders hoje não trabalhem mais em conjunto, pois com ambos seu Lilo e Stich e o filme em questão aqui, os dois mostravam ser uma dupla bem interessante de diretores de animação, não só mantendo uma linguagem de entretenimento para toda a família, mas também mostrando um estilo visual muito acima da média e diferente de outras animações feitas hoje.

Similarmente à cineastas como Brad Bird, que além de ter um filme bem parecido em trama com o seu O Gigante de Ferro, DeBlois e Sanders compartilham muito de seu estilo de filmagem de animação, onde sua câmera segue enquadramentos e movimentações dinâmicas e lentas como a de um filme live-action. Desde um uso de sutis panorâmicas, a sensação de câmera na mão nas cenas de ação com o enquadramento tremilicando e a câmera sempre perto dos personagens, mas também sabendo cortar para as tomadas abertas mostrando a escala dos ambientes.

Não à toa, o próprio Roger Deakins em pessoa serviu de ajuda na iluminação do visual do filme e o seu dedo é sentido para aqueles familiares com seu estilo, as cenas enclausuradas ou noturnas sendo capturadas com um tom escuro e com um sutil laranja servindo de iluminação, tornando os ambientes realistas e palpáveis. Assim como as grandes sequências paisagísticas, desde as cenas de voo com Banguela e Soluço, assim como o grande confronto final revelando uma escala gigante e imersa, mesmo que disfarçada por um cenário neblinoso, e é a parte que revela os efeitos visuais do filme ficando sem muito orçamento fazendo parecer quase um cartoon, o que não deixa de ser bem comandado por uma perspectiva de ação bem dirigida.

O que se reflete em total dedicação e esmero especialmente nas cenas de voo dos dragões, principalmente as com Soluço e Banguela, não só tendo um visual em si incrível, mas também mostrando um dos melhores usos de 3D que um filme já teve. O tipo que se valida e que convida o público a mergulhar em rasantes, voar entre montanhas, circular em pleno ar com a câmera seguindo o movimento rodopiado do Dragão. Um puro e verdadeiro manjar para os olhos que expande a magia da história para dentro de sua estrutura e técnica.

O casting vocal dos personagens também não poderiam ser mais perfeitos e marcar um grande diferencial do filme, algo sempre recorrente na DreamWorks que pegam não apenas astros famosos para os seus personagens, e sim trazer as vozes certas para cada um. Seja com Gerard Butler liberando seu forte sotaque escocês, dando uma convicção e teimosia inabalável para o seu Stoico, e na mesma medida muito coração e sentimentos verdadeiros de frustração e amor para o seu filho.

Na outra esfera temos Jonah Hill, Kristen Wiig, T.J. Miller e Christopher Mintz-Plasse fazendo o seu trabalho automático de alívio cômico como o grupo de jovens aprendizes de matadores de dragões, mas ainda cheios de personalidade e carisma. Destaque especial fica para Craig Ferguson como Gobber, o ferreiro e treinador da vila que rouba todas as cenas em que aparece.

E no centro de tudo temos Jay Baruchel com seu Soluço, onde acaba acontecendo basicamente o mesmo caso de Jack Black com Po em Kung Fu Panda, com o personagem se tornando uma versão animada do ator, e isso não é nada ruim. Baruchel pode lá ter sua voz nasal irritante, que o próprio filme tira sarro, mas ele torna Soluço um personagem perfeito para a clássica jornada do herói. Convencendo em sua personalidade desajeitada e que cresce conforme sua coragem e inteligência crescem junto de seu novo amigo Banguela que o ajuda a se tornar a melhor versão de si mesmo, como o filme ensina tão bem.

Um Clássico Instantâneo

Como Treinar o Seu Dragão poderia se resumir em uma única palavra: encantador, e não iria diminuir em nada todos os grandes créditos que conquistou aqui graças à clara paixão com que seus criadores depuseram nessa obra. Que fizeram a partir de uma pequena simples história algo profundo e com muito a dizer amor e ódio entre o recanto familiar e entre cada um de nós, e ser capaz de encantar tanto as jovens crianças quanto o mais velho adulto.

Quem poderia imaginar que os mesmos sujeitos que fizeram o público se apaixonar pela amizade entre uma menininha e um alien azul fariam o mesmo com um jovem Viking e um dragão, fazendo de Como Treinar o Seu Dragão um filme, e futura franquia, que surpreenderam à todos e encontrou um lugarzinho especial no coração de muitos.

Como Treinar o Seu Dragão (How to Train Your Dragon, EUA – 2010)
Direção: Dean deBlois, Chris Sanders

Roteiro: William Davies, Dean DeBlois, Chris Sanders (baseado em obra de Cressida Cowell)
Elenco: Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Johah Hill, Christopher Mintz-Plasse, T.J. Miller, Kristen Wiig, Robin Atkin Downes, Philip McGrade, Kieron Elliott, Ashley Jensen
Duração: 98 min.