Crítica | Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é pacote fechado de Hollywood para agradar ao público
A aposta agora é na continuação Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, que reencontra os personagens quase três décadas depois apostando num time de peso, que inclui boa parte do elenco original
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A indústria de cinema sempre funcionou como um interminável jogo de espelhos, com filmes e realizadores imitando, copiando, homenageando ou fazendo referências a outros filmes e realizadores. Não tem novidade alguma nisso, mas é difícil ignorar o fato de que, recentemente, Hollywood tem usado do expediente das continuações tardias e refilmagens num ritmo constante e – em alguns casos, como em relação à franquia Harry Potter – até mesmo revisitando universos de forma precoce, quando os originais ainda circulam dinamicamente nos repertórios de streaming como se houvessem sido produzidos na temporada passada.
Tal fenômeno revela ao menos duas realidades. A primeira e mais óbvia é a estiagem de ideias novas e consistentes dentro da indústria. Executivos preferem reciclar roteiros que apostar a própria sorte em aventuras aparentemente mais incertas. A segunda realidade é que, crescentemente, os estúdios dependem e confiam no ambiente das redes sociais para promover seus filmes e criar um tipo de expectativa que possa ser finalmente traduzido em ingressos vendidos. Poder contar com a fidelidade nostálgica do público e com a lembrança de personagens e situações já vividas nas telas ajuda a mitigar os riscos de produções (também) cada vez mais caras e comprometedoras do futuro das companhias.
Tivemos recentemente a retomada de títulos como Top Gun (em Maverick, de 2022), as continuações de Os Fantasmas se Divertem (2024) e O Diabo Veste Prada (2026) e o retorno de Gladiador, dois anos atrás – entre tantos outros. A aposta agora é na continuação Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, que reencontra os personagens quase três décadas depois apostando num time de peso, que inclui boa parte do elenco original, uma diretora de primeiro nível (Susanne Bier, responsável por filmes excelentes, como Em um Mundo Melhor, de 2010, e Depois do Casamento, de 2006, ambos em sua fase dinamarquesa) e o experiente Akiva Goldsman (de Uma Mente Brilhante, Batman & Robin, Eu Sou a Lenda, e outros) entre os roteiristas.
Na trama, Sally Owens (Sandra Bullock) e Gillian Owens (Nicole Kidman) seguem com suas vidas longe da tradição familiar de feitiços, enquanto criam as filhas e sobrinhas, Antonia (Maisie Williams, de Game of Thrones) e Kylie (Joey King, de Trem-Bala). Quando uma perda familiar evidencia que elas podem tentar deixar a magia de lado, mas a magia não abandona a família, Sally e Gillian partem numa viagem para a Inglaterra, onde Kylie espera desfazer a maldição que recai sobre as mulheres da família (matando todos os homens por quem elas se apaixonam). Lá, as três conhecem Ian Wright (Lee Pace, de Guardiões da Galáxia), um acadêmico indicado pela tia Franny (Stockard Channing), que vai tentar ajudá-las a resolver o mistério que cerca a origem da família e a maldição que perdura até a atualidade.
Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor se apresenta para a audiência como um típico produto fechado da indústria: todos os elementos internos compõem um autêntico “pacote” no qual o espectador pouco pode interferir com sua sensibilidade ou atenção intelectual – por mais que o drama dê voltas, todo mundo sabe aonde iremos chegar. Nem o fato de ter Bier, uma cineasta com sólida carreira como realizadora independente, ajuda o filme a “respirar” fora de um circuito muito determinado de ações e reações que o roteiro propõe e espera que o público responda com satisfação: a experimentada fórmula do romance desajeitado de mulheres maduras que, por acaso, têm à disposição um pequeno arsenal de poderes mágicos – então é como se Bridget Jones, de fato, fosse admitida em Hogwarts.
O filme precisa resolver (e sabe disso) os dilemas românticos que propõe, e o encantamento da aventura é tomado de forma literal. Embora em determinado momento pareça que, enfim, o enredo irá fugir ao andamento absolutamente tradicional e esperado de uma fantasia romântica, há pouco esforço ou interesse em oferecer à audiência os silêncios, sutilezas e lacunas que, via de regra, diferenciam o cinema maiúsculo dos produtos audiovisuais que meramente mantêm a indústria aquecida – bem como seus cofres.
Como boa produção fruta de uma demanda por nostalgia, o filme proporciona uma atmosfera reconfortante e isso deve-se especialmente ao elenco original, com menção mais que honrosa às excepcionais Channing e Dianne Wiest (como a tia Jet). É sempre um prazer ver duas atrizes tão boas em plena atividade em 2026. Bullock e Kidman entregam o que se espera delas: ambas são divertidas, a primeira construiu toda uma carreira em cima do temperamento despreocupado de “musa atrapalhada”, enquanto a segunda sustenta sua interpretação que é puro cálculo sustentado por uma aparência sem muita margem para ambiguidades. Não por acaso, a personagem de Nicole Kidman tem o mesmo nome da bruxa interpretada por Kim Novak no clássico de 1958, Sortilégio de Amor, filme ao qual este deve uma parte de sua abordagem leve do sobrenatural e a mistura entre comédia romântica e fantasia.
Os homens do elenco têm papéis secundários e ingratos, o que não ajuda os atores. Mas talvez isso seja esperado e compreensível porque este é um filme feito “por”, “com” e “para” mulheres (a partir de uma série literária original da autora Alice Hoffman), reunindo doses bem pensadas de encanto, memória e sororidade: quem espera um tipo distinto de diversão deve escolher outro filme para assistir.