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De Pernas Pro Ar é uma das franquias nacionais de maior sucesso entre as produções do gênero de comédia, tal fato fez com que o longa recebesse uma terceira continuação. Os dois primeiros filmes arrecadaram juntos mais de 7 milhões de bilheteria. Logo se imaginava que uma continuação viria rapidamente, mas isso não aconteceu facilmente. Foram mais de cinco anos até que De Pernas Pro Ar 3 realmente saísse do papel.

O terceiro filme da franquia mantém a pegada dos dois anteriores e tenta ir além, tentando levar uma mensagem para o público, além apenas de entreter e fazer o telespectador rir. Se no primeiro filme a personagem de Ingrid Guimarães criava seu império de Sex Shop e no segundo longa precisava conviver com os conflitos entre excesso de trabalho e família, agora, na terceira parte parece que a tentativa de fazer algo diferente dá certo, mas apenas em uma parte da história.

Na trama, Alice Segretto (Ingrid Guimarães) continua convivendo com novos dramas envolvendo a família e ainda precisa pensar em reinventar como empresária e precisar tocar a empresa com novos produtos. Nisso há uma disputa paralela com uma nova personagem chamada Leona e interpretada por Samya Pascotto. O que se imaginava ser uma história diferente acabou se tornando, na realidade, algo que já havíamos visto no segundo filme.

Levar para o público algo de novo em uma produção que faz parte de uma franquia é uma tarefa bastante complicada, pois é necessário criar uma narrativa que além de ser original precise trazer algo de novo para os telespectadores que já acompanharam os filmes anteriores e ainda pensar em algo que prenda a atenção das pessoas que ainda não assistiram a nenhum dos filmes anteriores. Foi, possivelmente, pensando nesse aspecto que De Pernas Pro Ar 3 erra no jeito que elabora o roteiro e também no jeito como foi montado na hora da edição final.

 Há um problema sério no jeito como a história é contada. Começa falando do mesmo assunto que de De Pernas Pro Ar 2 tratou, sobre a família, a relação de Alice com o filho e com a filha e tudo leva a crer que seria uma abordagem repetitiva em relação ao anterior. Mas quase que do nada há uma mudança na trama e começam a tratar de outros assuntos. Primeiro mostrando a competição de Alice com Leona, tratando claramente sobre a diferença de idade das duas personagens e como cada uma, em sua faixa etária de idade, pensa sobre o sexo. Leona por ser mais nova pensa mais no lado digital e Ingrid no real, tanto que investe em uma boneca, enquanto Leona foca em um óculos de realidade virtual.

Tratar de um só assunto em um longa não é algo incomum e também não é errado, mas do jeito que é feito em De Pernas Pro Ar 3 fica evidente que houve sim um erro na construção do roteiro, porque esses temas são tocados quase que do nada e sem um trabalho que desse um motivo desses temas aparecerem. Por exemplo, no primeiro ato fica muito evidente que a relação de Alice com o filho mudou, mas do anda essa relação fica de lado e não se toca mais nela, o mesmo acontece com a sua filha mais nova e que também é deixada de lado. Da família vão para a competição de Alice com Leona na disputa de quem é melhor, essa disputa entre as duas é interessante e desenvolve algo que dá uma segurada na história, e depois esse lado digital e empresarial da protagonista se torna o foco central, além de ter uma cena em que ela tem que lidar com o marido.

As situações envolvendo a personagem de Ingrid Guimarães de início funcionam, ainda mais quando ela descobre o novo óculos de realidade virtual e tem em seu auge a cena de humor envolvendo Cauã Reymond, mas não vai além disso. De Pernas Pro Ar 3 é muito parecido aos anteriores no tipo do humor feito, tentando fazer rir com situações engraçadas, mas inferior em relação ao tipo de humor feito. As situações parecem ter sido colocadas ali apenas para tentar fazer humor e fica um amontoado de cenas inusitadas que tentam a todo o instante fazer rir, algo que não ocorreu em De Pernas Pro Ar 2 que tudo foi pensado para fazer rir de forma instantânea e com situações que faziam sentido para a trama. Há uma forçação de barra para que isso ocorra. O roteiro não ajuda muito, pois a partir do segundo ato quando Alice começa a querer confrontar Leona acaba por perder a graça e a história se torna mais séria.

O que ajuda bastante a tirar a força do humor na produção dirigida por Julia Rezende é o fato de ter uma obrigação em colocar uma mensagem no filme, e elas são muitas. Primeiro a relação de Alice com o filho em não entender que ele cresceu e é um homem agora, depois, mais para a frente, com o marido interpretado por Bruno Garcia. E ainda a já mencionada relação com a nova namorada do filho e sua disputa com Leona, além da tentativa de se reinventar como empresária. São muitos temas a serem abordados em tão pouco tempo, e assuntos que trazem uma mensagem que dependendo do jeito que são tratados podem tirar a força do humor, e é exatamente isso que acontece no último ato em que todas as pontas soltas são amarradas.

Não há o que criticar em relação a atuação do elenco que se sai bem quando tem que fazer humor e quando precisam ser mais sérios. Ingrid Guimarães mesmo com caras e bocas consegue se manter no papel e prender a atenção do público, o mesmo acontece com o resto do elenco. O problema mesmo está nos personagens, principalmente o de Bruno Garcia. Estava escanteado e do nada houve uma necessidade em ter que colocá-lo mais na trama, isso foi feito para mostrar uma visão masculina para uma história que estava bastante feminina e possivelmente mostrar para o público masculino que eles também são representados no filme, mas seu personagem é tão jogado e tão mal utilizado que nem faz sentido o colocar na trama do jeito que foi utilizado. 

Julia Rezende (Coisa Mais Linda) é uma diretora de grande futuro no cinema nacional e tem uma boa visão para dramas humanos e para o universo feminino. Em De Pernas Pro Ar 3 sua direção é competente, mas não sai muito do óbvio e não tenta criar algo mais original. Há uma tentativa em criar algo mais sério e tentar sair um pouco do humor, algo que funciona até certo ponto e é algo a ser elogiado, já que foge do que as produções recentes de humor nacionais tentam fazer. De Pernas Pro Ar 3 é uma produção para a família – mesmo tratando de um tema considerado para adultos como é o sexo – e que deve ser visto por aqueles que gostam de cinema nacional e também para aqueles que acompanham a franquia desde a sua concepção em 2010.

De Pernas Pro Ar 3 (idem – Brasil, 2019)

Direção: Julia Rezende
Roteiro: Rene Belmonte, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Elenco: Ingrid Guimarães, Eduardo Melo, Samya Pascotto, Cristina Pereira, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Maria Paula, Stepan Nercessian
Gênero: Comédia
Duração: 90 min.

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