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Crítica | Devilman Crybaby – A tragédia atemporal da humanidade

Apesar de ter estreado em 2018, Devilman Crybaby era uma das recomendações mais presentes da Netflix para mim após eu ter assistido Neon Genesis Evangelion. Felizmente, ainda que de modo tardio, consegui investir quatro boas horas e assistir o anime de dez episódios licenciados diretamente pela própria plataforma de streaming.

O fato é que escrever sobre essa série se tornou uma ânsia de colocar as diversas ideias que o show traz ao longo de sua narrativa bastante intrincada e paradoxalmente simples e complexa. A série adapta o atemporal mangá de Go Nagai que já havia recebido outras versões animadas nos anos 1990 com OVAs de uma hora de duração cada.

Já sendo uma obra bastante elogiada na técnica do anime, um remake com certeza pode ter deixado os fãs ligeiramente aflitos sobre como a história seria adaptada novamente, afinal não se trata de uma narrativa leve. Felizmente, a versão de 2018 de Devilman não tem nada a dever para as obras anteriores podendo até mesmo ser chamada como a melhor dentre as adaptações existentes.

O Homem-Demônio

A narrativa de Devilman é relativamente simples. Dois amigos, o chorão Akira e o tenebroso Ryo, acabam envolvidos em um jogo de heroísmo vigilante quando Ryo consegue fazer que o poderoso demônio Amon possua o corpo de Akira. Por conta disso, ambos decidem exterminar os demônios que matam e torturam no Japão.

Enquanto Akira testa seus novos poderes e uma mudança completa de personalidade, Ryo trama revelar ao mundo inteiro a existência de demônios. Entretanto, o jogo primeiramente aparente bem intencionado de Ryo é passível de grandes e pesadas reviravoltas.

Adaptando livremente o texto de Go Nagai, o roteirista Ichirõ Õkouchi revitaliza Devilman para uma nova audiência já adulta nos anos 2010. Enquanto a história original se passa na Tóquio de 1970, tudo aqui se desdobra em uma sociedade muito influenciada pela internet e suas viralidades.

O que faz ressoar tanto a história de Devilman Crybaby está no modo concreto e objetivo que o roteirista possui ao trazer os personagens ao público pela primeira vez. No caso, Akira, o protagonista, é um menino bastante ingênuo e bobo, dono de um coração repleto de bondade, enquanto Ryo é o completo oposto sendo repleto de malícia e maldade.

Subvertendo o desenvolvimento dos personagens, em questão de um episódio é possível ver que Ryo realmente ama seu amigo Akira e que suas intenções parecem puras em primeiro momento, agindo mais como o criador de um “Frankenstein Moderno” que atua como anti-herói. A combinação perfeita entre o cérebro e músculos como já foi visto tantas vezes em outras obras narrativas.

Possuindo dois personagens protagonistas bastante fortes, seria fácil para Õkouchi somente focar em desenvolver ambos e felizmente não é isso o que ocorre. Enquanto é bastante divertido ver episódios mais formulaicos com o aprendizado de Akira com seu novo corpo e suas primeiras noites de vigilância na caça de demônios na cidade, é igualmente satisfatório notar a atenção oferecida  para os personagens coadjuvantes como Miki, a melhor amiga de Akira, e Miko e a rivalidade das duas sobre quem é a melhor velocista da escola.

Cada um deles possui seus próprios “demônios” internos que os tiram do caminho da normalidade. Evitando spoilers, afirmou que o núcleo envolvendo Miko é um dos mais interessantes sobre projeção psicológica e profunda depressão de irritabilidade mostrando a origem do ódio insensato.

A mensagem de Devilman nessa adaptação é ainda mais clara e eficaz que as dos OVAs antigos. Nagai sempre falou que sua história focava o sentimento contrário às guerras de modo geral. A diferença é que o autor não eufemiza as imagens e acontecimentos da narrativa para conquistar maior audiência.

O mangá é adulto e bastante violento. Em um dos raros casos, este anime consegue conciliar a extrema violência também com uma narrativa de qualidade. Só é preciso mesmo pontuar que há diversos acontecimentos verdadeiramente chocantes e bastante trágicos como ocorrem durante os fortíssimos episódios 8 e 9.

Imaginação fluída

Não é preciso fazer preâmbulos sobre o quão bom Devilman Crybaby é uma ótima animação com uma narrativa tão original trazendo uma mensagem pacifista ao chocar justamente por sua violência e também por te desesperar nos episódios finais que abordam a injustiça diante a um frenesi coletivo.

O fato é que a série pode até mesmo incomodar àqueles que estão investidos na história por conta de sua estética bastante particular. A técnica de animação definitivamente não é maravilhosa e muito palatável para todos os espectadores – até mesmo aqueles que gostam de animes em geral.

Ocorre que o traço, apesar de estiloso, pode aparentar desleixo, assim como o design dos personagens, incluindo o do protagonista Akira quando transformado em Amon. O visual dos demônios, dos que são menos importantes na narrativa, como Xenon e Kaim, é bastante genérico e sem criatividade. As cores psicodélicas e formas disformes totalmente alucinadas também não ajuda o departamento visual, apesar de ser uma abordagem bastante corajosa e inteligente para “representar” os delírios visuais lisérgicos dos personagens possuídos.

Já os outros, retirados totalmente dos designs de Nagai, ainda mantém personalidades memoráveis como Silene e sua obsessão sexual por Amon. O episódio 5, destinado totalmente a resolver esse encontro que é abordado anteriormente por três episódios, se torna um dos mais interessantes da série por oferecer risco real de ameaça à Akira. Infelizmente, ele deixa um buraco na narrativa que é presente também no mangá.

A direção de Maasaki Yuasa é um diferencial significativo também, já que ele é responsável por toda a abordagem visual e concepção estética da série. Enquanto a animação fluída e disforme pode afastar muita gente, é importante salientar que há sim cenários bastante bonitos e criativos.

O choque da violência e da tragédia é igualmente eficaz, principalmente durante a culminação traumatizante do núcleo da família de Miki. Outros elementos já surgem com metáforas visuais criativas como a degradação constante do jardim de rosas cuidadas por Miko que acabam se transformando em formas similares a caveiras ao se decomporem.

O destaque mais inteligente se dá no clímax humano da série no episódio 9. Aqui, por repetidas vezes o diretor usa um flashback mostrando Akira, Miki e Miko passando o bastão um para o outro enquanto correm em uma disputa de revezamento. A imagem é repetida diversas vezes sempre culminando no mesmo final: quando Akira passa o bastão para Ryo, tudo cai e desmorona.

É um dos modos mais criativos para sintetizar todo o arco de Ryo em apenas poucos segundos: ele simplesmente não pertence, sua alienação é vinda de uma natureza maior com objetivos totalmente egoístas e egocêntricos. É por conta disso que a catarse final da série funciona tão bem, atingindo com força a terrível dor que motiva uma transformação.

O Diabo do Século XXI

Devilman Crybaby exige sim boa vontade do espectador em aceitar a obra e toda sua estranheza. Conteúdo chocante com sexo, sangue e mutilações certamente não estão nas preferências de muita gente. Porém, a mensagem e a história aqui são tão bem contadas, traçando um paralelo muito preciso sobre histeria coletivo, medo, pânico e violência generalizada que se torna uma peça obrigatória para qualquer admirador de uma boa tragédia.

A hipocrisia humana como ela é. Se transformando no demônio que ousa combater.

Devilman Crybaby (Idem, Japão – 2018)

Direção: Maasaki Yuasa
Roteiro: Go Nagai, Ichirõ Õkouchi
Elenco: Koki Uchiyama, Ayumu Murase, Megumi Han, Ami Koshimizu, Sabaru Kimura
Gênero: Terror, Ação
Duração: 25 min/episódio

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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