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Crítica | Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio flerta com crendice ufológica ao abordar crime real

Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio desenvolve em oito episódios toda a sucessão de fatos contada por personagens que viveram os eventos

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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A nova série da GloboPlay parte de um podcast de sucesso para oferecer uma versão audiovisual documental do famoso caso de desaparecimento inexplicado do escoteiro Marco Aurélio Simon, ocorrido em junho de 1985 em Piquete (SP), durante uma exploração da região por um grupo liderado por Juan Bernabeu Céspedes e que levava mais três garotos. Após um acidente com um dos meninos, Marco Aurélio desceu sozinho o pico para buscar ajuda e indicar o melhor caminho, mas nunca mais foi visto. O evento ocasionou uma busca extensiva envolvendo militares e a população da região, porém jamais encontrou qualquer vestígio do garoto ou uma explicação conclusiva para o que de fato teria acontecido. Esse aparente mistério foi desenvolvido por anos na mente de jornalistas e investigadores, gerando diversas teorias, enquanto sua família convivia com a dor e a incerteza.

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Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio desenvolve em oito episódios toda a sucessão de fatos contada por personagens que viveram os eventos, tais como parentes do garoto, delegados, investigadores, mateiros, médicos, etc. A série é riquíssima em depoimentos e imagens de arquivo, mas a escolha por dramatizar situações torna a compreensão confusa: é difícil saber a partir de determinado momento quais são imagens reais e quais foram encenadas. Tal problema é agravado pela edição, que é ligeira e – se isso torna a atração muito fácil de ser assistida – agrava o problema geral de levar o espectador propositalmente a colocar num mesmo balaio o que são fatos do que é mera especulação.

Embora interessante, a série sofre um problema que se tornou crônico dentro do gênero documental no audiovisual dominado pelo padrão médio do streaming: a fixação dos realizadores em fazer especulações para criar um clima permanente de “mistério”, “desconfiança” e “incerteza”, reflexo da neurose contemporânea de que a verdade objetiva é impossível de ser conhecida ou sequer existe. 

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É difícil seguir a partir daqui sem oferecer spoilers. Então, vamos com cuidado.

Há uma explicação bastante razoável para o desaparecimento, à qual o espectador atento chegará naturalmente e por conta própria. A ausência de corpo e de um desfecho completo provoca profundo sofrimento dos familiares. A história toda deveria ser sobre uma investigação desastrosa por um grupo de autoridades confusas e que lança mão de expedientes pouco técnicos, e não sobre um mistério “insolúvel” por natureza. A série chega a flertar com a ufologia quando força a barra para criar falsas relações com eventos como a captura do “ET de Varginha” ou a “Noite dos OVNIS” – duas outras histórias bastante conhecidas e com explicações muito razoáveis que fogem do “mistério sobrenatural” típico do documentário de streaming. 

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É evidente que, ao perder tempo com “discos voadores”, “luzes misteriosas”, “portais secretos” e toda sorte de crendices típicas do universo ufológico, a série contribui para a confusão em torno do próprio crime, quando poderia observar com maior atenção outros pontos que, mesmo após horas de série, continuam pendurados sobre o caso: por exemplo, o tempo exagerado que o líder dos escoteiros ficou por conta própria procurando Marco Aurélio, em vez de rapidamente pedir ajuda da polícia, ou a presença de muitos outros viajantes na região no mesmo período (o que explicaria certos eventos que parecem mais “inexplicáveis” do que talvez realmente sejam). Entre outras questões que acabam em segundo plano e que poderiam fornecer ao espectador mais elementos objetivos para entender o que de fato aconteceu.

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Embora não dê o devido peso a este elemento, fica muito claro que os problemas da investigação mal feita têm mais relevância na falta de solução do crime que “coincidências” que induzem o espectador a pensar que há “algo além” do que uma tragédia agravada por uma investigação falha e que, na época, ainda guardava costumes e métodos da ditadura militar. 

Conforme, por outro lado, a sucessão de erros construiu a tragédia, o passar do tempo, a dor dos familiares sem respostas e a obstinação do pai de Marco Aurélio conferem dignidade e interesse ao caso, décadas depois, e a série tem o mérito de reconhecer isso e eternizar o drama, ainda que erre (por uma tendência do próprio formato) ao minimizar os elementos objetivos do caso e dar destaque artificial ao lado “misterioso” dos eventos. Se formos realmente honestos, há mais constrangimento que mistério em autoridades tão incapazes de solucionar um caso que estava longe de ser esse quebra-cabeça impossível de decifrar.

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Tags: #Cinema
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