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Catálogo

Crítica | El Topo

A origem de Deus.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
8 de julho de 2017 · 12 min de leitura
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Crítica | El Topo

Como já puderam ver em nossa extensa cobertura sobre a figura de Alejandro Jodorowsky, é imediato afirmar que o chileno é artista extremamente polêmico. Algo bastante engraçado de ver acontecer exatamente a mesmíssima coisa nos bastidores do site é como o debate se assemelha assustadoramente ao da única aula que tive na faculdade sobre o infame diretor.

Acho que é algo que será eterno enquanto ao menos duas pessoas assistirem a essas obras: Jodorowsky é um cineasta ame ou odeie. Por não ter visto praticamente nada de sua filmografia, além de El Topo, já fico contentíssimo de poder expressar esse fascínio misterioso que tenho por esse western subvertido – ou ácido, como bem batizou Pauline Kael.

Durante a projeção rudimentar na aula que assistia ao filme, havia um magnetismo naquelas imagens bizarras que o cineasta construía com facilidade assustadora. Enquanto eu e uns poucos ficaram vidrados naquela experiência inédita na vida, diversos outros alunos se retiravam da sala para fazer coisas melhores. Agora, quase quatro anos depois dessa fatídica primeira exibição, estou aqui escrevendo sobre outro filme que nunca imaginei resenhar.

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O Antigo Testamento do Deserto

Desde seu primeiro longa, Jodorowski deixa claro obsessão por dois temas que guiarão toda a sua filmografia: o cristianismo e o sexo. Com El Topo, o diretor, roteirista e ator, consegue trabalhar com mão mais elegantes essas simbologias ao traçar toda a jornada de El Topo, o protagonista sem nome, como uma grande analogia ao Antigo Testamento.

Para não deixar quaisquer dúvidas, ele divide a obra em 4 atos: o Nada, o Gênesis, os Profetas e o Apocalipse. Graças a esse fio condutor narrativo, o filme é mais acessível para espectadores de obras alinhadas à narrativa clássica – mesmo que El Topo seja uma obra surrealista que flerta com o cinema experimental que já ganhava força desde 1960 com Andy Warhol.

Tratando o diálogo como mero acessório para remover a ambiguidade de onde não deve existir, toda a narrativa de El Topo é conduzida com eficiência através da encenação acertada de Jodorowsky. Não é preciso esperar nem três minutos para sentir a mão de ferro do diretor para chamar toda a atenção da cena para seu trabalho.

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Trabalhando o visual e as cores com olhar apurado, logo contrasta El Topo, uma figura maliciosa totalmente vestida de preto, com seu filho, Hijo, um pirralho pelado na pureza de sua inocência. Durante esse Nada, o diretor joga os personagens em um vilarejo completamente ensanguentado por causa de um violento massacre. Ali, em uma das raras ocasiões de som hiper-realista, Jodorowsky cria uma atmosfera infernal graças ao crocitar altíssimo de corvos que não estão enquadrados.

Nessa situação irritante, assim que El Topo descobre quem são os responsáveis pelo massacre, logo há o corte para apresentar o primeiro lado antagonista que o “herói” terá que enfrentar. Aqui, com alguns dos capangas nojentos do Coronel, Jodorowski começa a trabalhar imagens absurdas sobre sexualidade. Há sempre um jogo de amor e ódio, fascínio e repulsa, entregue na encenação – isso tange, obviamente, o feminino.

Vemos um homem beijando sapatos de salto alto para logo depois atirar em todos eles. Outro picota uma banana em pedacinhos e, por fim, o último forma a imagem de uma mulher com diversos grãos para depois deitar em cima da rocha, devorando as sementes. São imagens que parecem não ser pertinentes para a história, mas pelo caráter fragmentado da narrativa, tornam-se peças que delineiam identidade estética para cada segmento.

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No primeiro duelo de El Topo contra os bandidos, novamente há outra experimentação de sons hiper-realistas. Porém, no nível de linguagem visual, Jodorowsky sai do padrão razoável de “contra estética” que seguia até então. Para potencializar a piada de inserir uma bexiga como cronometro para a resolução do impasse, o diretor usa o bê-á-bá da linguagem de faroestes americanos consagrados por John Wayne e John Ford.

A cutucada funciona, mas o que realmente se sobressai e continuam a surpreender até o final do filme, é a qualidade fantástica de efeitos visuais e maquiagem para potencializar a violência chocante que marca toda a obra. Depois, em sua intermitência perene, o diretor parte para agredir o cristianismo. Outros bandidos que subjugam uma nova vila, torturam padres franciscanos e abusam sexualmente de cada um deles. Jodorowsky mimetiza figurinos de santas para travestir os padres e depois fazê-los beijar os bandidos hediondos.

É óbvio que se trata de uma provocação, porém, sabiamente, assim como William Friedkin viria a fazer em O Exorcista, Jorowski não comete o erro de A Bruxa que é apenas criar imagens provocantes por birra pessoal ou entrave ideológico. El Topo, em si, é Deus personificado, um libertador e também um tirano.

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Então novamente há outra repetição em o nada, mas consideravelmente mais complexa. Enquanto os bandidos tocam o terror no vilarejo, há toda uma sequência majestosa de grandes-angulares para apresentar o temível Coronel, um falso deus que subjuga tudo e a todos conforme for a sua vontade. Ele escraviza uma Mulher e oferece para seus capangas até a chegada de El Topo.

Nesse embate, finalmente Jodorowsky explícita em diálogo que El Topo é Deus, o Deus verdadeiro. No duelo, quando derrota o Coronel e alguns capangas, o diretor insere planos rápidos mostrando reações satisfeitas dos franciscanos que não condenam a violência depois da tortura que foram submetidos – o intuito é desconstruir a figura beata para inserir camadas humanas em homens santos.

Extermínio

Opto por analisar a simbologia de algumas cenas-chave de El Topo para não cair naquele maldito lugar comum de dizer apenas que “o filme tem diversas simbologias provocantes que parecem condenar a religiosidade enquanto trabalha com elementos sexuais profanos”. Isso é apenas descrever a loucura que é a imagem de Jodorowsky e tocar apenas a superfície. Em El Topo, o cineasta consegue se comunicar bem com qualquer espectador que esteja na mesma sintonia do filme. Ou seja, apesar de ser um arthouse surtado, esse western é uma obra razoavelmente acessível.

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O Gênesis em El Topo é marcado pelo abandono de Hijo. O protagonista opta em levar a mulher (sempre vista como uma presença diabólica em toda a obra) e abandonar o filho. Nisso, há uma frase que marca todo o arco posterior: “Nunca confie em ninguém”. Nesse miolo, a obra ganha tons mais narrativos, estabelecendo um objetivo claro para a jornada do herói.

Em uma versão hardcore de Scott Pilgrim, Jodorowsky cria uma missão para o personagem conquistar o coração da amada: matar todos os quatro pistoleiros lendários que vivem no deserto. Matando todos, ele se tornaria o pistoleiro mais perigoso de todo aquele lugar. O interessante é que, ao escutar a exigência da Mujer, El Topo se descontrola e a estupra numa vã tentativa de demonstrar dominação – essa é uma das maiores polêmicas dessa obra, pois pouca gente sabe que Jodorowsky realmente estuprou Mara Lorenzio para realizar a cena. Algo que é obviamente desprezível, pois não somente o ato é hediondo, mas como a própria montagem e decupagem dessa sequência são um verdadeiro desastre por conta do exagero de cortes – claro, é possível interpretar o efeito truculento da montagem como um espelho do estupro, mas, sinceramente, isso é forçar a barra demais.

Quanto enfim a jornada começa, Jodorowksy adota clichês de narrativas kung fu – o western chinês. Os 4 mestres oferecem lições de moral para o herói, ensinando maior sentido para a vida. Esses mestres são os falsos profetas, todos mortos por El Topo com exceção de um que se suicida – única vez que o herói perde o confronto.

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Enquanto todos os falsos profetas parecem ser puros de coração, atingindo um nível de esclarecimento espiritual praticamente impossível para El Topo, sempre trajando as vestes negras. Cada mestre também possui elementos visuais impactantes. O primeiro certamente é que marca mais, por ser cego e possuir dois capangas amputados que tentam viver em perfeição simbiótica. O segundo deixa a questão religiosa muito mais clara, com nuances ciganas e incestuosas com sua mãe.

O terceiro mestre é um tanto menos interessante no texto, mas a carga visual é marcante. O homem cria coelhos brancos. Com a chegada de El Topo para o confronto, todos os coelhos morrem subitamente em clara metáfora ao assassinato da inocência. Isso reforça a mensagem que o Deus verdadeiro, El Topo, se trata de um embusteiro. Para conquistar a amada, parte para o genocídio de culturas e, mesmo inferior, derrota todos os seus inimigos na base da trapaça e da mentira. É justamente por isso que há um descontrole de El Topo no quarto deus, por conta da vitória do suicídio.

O Apocalipse

Com o fim dessa segunda narrativa, Jodorowsky consegue criar um bom desenvolvimento para o silencioso protagonista. Sem precisar repetir a frase, lembramos de “Nunca dependa de ninguém.”. Ao longo da jornada, fica claro que El Topo depende cada vez mais da Mujer. Durante o trajeto, uma forasteira os acompanha. Assim como El Topo, ela traja vestes pretas. Novamente a mulher é retratada como um ser diabólico que desestabiliza a ordem masculina, pois a forasteira claramente deseja Mujer – Jodorowsky monta diversas sequências experimentais para deixar isso claro.

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Quando El Topo finaliza sua missão, espera pela recompensa: o amor de Mujer. Porém, ele é caçado pela Forasteira, o diabo. Nessa cena, a mulher atira nas mãos e nos pés do protagonista, mimetizando as chagas de Cristo – novamente uma subversão da simbologia cristã. Derrotado, El Topo vê sua mulher ir embora com a Forasteira – rima visual com a encenação do abandono de Hijo, e morre. Aliás, aqui ocorre uma nova experimentação para personagens femininos. O diretor praticamente não usa som direto nos diálogos sendo quase todos constituídos por dublagem. No ultimato e única fala da Forasteira, Jodorowsky insere uma voz masculina para a mulher. O mesmo acontece durante o estupro do escravo, posteriormente.

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Então temos o começo da terceira narrativa da obra que “adapta” outros arcos bíblicos como Sodoma e Gomorra e o Êxodo. El Topo é ressuscitado e encontra uma sociedade inteira de deformados, frutos do incesto, que vivem em uma caverna. Assim como a toupeira que dá nome ao personagem, El Topo recebe uma missão redentora: escavar um túnel para que os deformados possam chegar no vilarejo próximo para ali viver.

Acompanhado por uma anã para auxiliá-lo na jornada, El Topo parte para o vilarejo. Aqui, Jodorowsky aproveita para tecer as críticas indispensáveis ao capitalismo tão presentes em obras desse cunho. Assim como anteriormente, o diretor aposta pesado na caricatura esdrúxula tornando todos os habitantes do vilarejo em seres desprezíveis.

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A ordem religiosa pagã é uma clara provocação ao Iluminati, todos são racistas e escravocratas, mas totalmente depravados e malditos no âmago que revela toda a hipocrisia sustentada pela “moral e bons costumes”. A obsessão pelo sexo se faz presente, mas torna todo o ato em algo tosco pelas figuras obesas e ridículas que coloca em tela. É uma saraivada de críticas à burguesia como vista por Jodorowsky: ricos idiotas, armamentistas, famintos, vaidosos e cheios de impulsos sexuais hipócritas recorrendo a diversos tipos de submissão como estupro e tortura.

Nada leve, certo? Mas a chegada de El Topo no inferno vivo dos falsos profetas, condena toda aquela sociedade – assim como em Sodoma e Gomorra. Porém, para conseguir construir o túnel, o protagonista e a anã precisam parasitar aquela sociedade a fim de obter os recursos necessários. Logo, eles se tornam os páreas responsáveis em entreter e limpar a cidade pecaminosa.

Entretanto, novamente no que tange a sexualidade feminina, Jodorowsky torna a anã em uma figura sagrada, o único retrato feminino que não é diabólico. Ela vira a verdadeira companheira amorosa do protagonista. Então, da deformidade, há a benevolência e o sagrado segundo o diretor.

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Esse segmento se estende além da conta, pois Jodorowsky está mais interessado em criar imagens que visam ofender essa dita burguesia do que realmente avançar a história. Quando finalmente o trecho do Apocalipse começa, as coisas ficam mais interessantes por conta de reviravoltas totalmente inesperadas. A bom manejo de encenação e exagero de zooms deixam claro um ponto crucial para o desenvolvimento da redenção de El Topo.

Sem muita enrolação, Jodorowsky dá sua própria versão do Êxodo e emenda outra crítica à guerra, em especial a do Vietnã, para concluir a trajetória do herói silencioso. É importante salientar que, em momento algum, o diretor apoia a religião que ele adapta na incorporação divina de El Topo.

Esse “Deus” é um personagem detestável, egoísta, estuprador, trapaceiro e, mesmo quando acredita ajudar toda uma população, na verdade a guia para a morte violenta sem qualquer chance de sobrevivência. Para encerrar de vez sua enorme crítica ao Cristianismo, Jodorowsky anarquiza justamente uma das simbologias mais sagradas a essa religião: as abelhas e o mel.

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No túmulo de El Topo, o diretor mostra diversas favas e poças de mel em volta. Entretanto, acima delas, não há a benção da luz, lealdade e ordem representada pelas abelhas, um emblema de Cristo. Ali, existem apenas moscas para representar o putrefato, o vilipendioso, o profano – ainda mais quando consideramos que as moscas eram festejadas pelos egípcios, a civilização mais condenada por Deus devido ao falso profetismo.

A Toupeira

Interpretar as simbologias ditas surrealistas de Jodorowsky é um exercício divertido. El Topo em si mesmo é uma obra bastante divertida. Afastando totalmente minhas crenças pessoais, é muito interessante notar esse ponto de vista realmente único de Jodorowsky sobre pontos importantíssimos do Antigo Testamento. Seu completo desprezo é muito mais refinado nesse filme graças a criação de imagens fortes e eficientes para transmitir a mensagem desejada.

Há sim certa ambiguidade e muita gente pode tirar diferentes significados das viagens surrealistas psicodélicas do infame autor. Mas para mim, El Topo é tudo isso que acabei de descrever. E justamente por ser uma alegoria tão bem pensada, conseguindo até mesmo valorizar a trajetória de seus personagens principais e ter caráter totalmente episódico, se sustenta perfeitamente como um ótimo filme de ficção.

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É muito arriscado afirmar isso sem ter visto nenhum de seus outros filmes, mas assim como ele, completamente desprovido de medo para afirmar suas ideias na obra, não temo em afirmar que El Topo é sua obra-prima. É uma daquelas viagens únicas que somente o cinema surrealista pode proporcionar. Só é preciso um estômago forte e partir de cabeça aberta.

El Topo (El Topo, México – 1970)

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Direção e roteiro: Alejandro Jodorowsky
Elenco: Alejandro Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Mara Lorenzio, David Silve, Paula Romo, Robert John
Gênero: Western Surrealista
Duração: 125 min

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Tags: #Alejandro Jodorowsky #Filme #Surrealismo #western
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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