Crítica | Elize: Sombras de uma Mulher transforma assassina em mártir na nova produção da Netflix
Elize: Sombras de uma Mulher é uma crítica sobre como o filme da Netflix romantiza Elize Matsunaga e suaviza sua culpa no true crime nacional.

Desde que a Trilogia da Suzane von Richthofen – formada por O Menino que Matou Meus Pais, A Menina que Matou os Pais e A Confissão; ajudou a exponenciar a febre de entretenimento sensacionalista em volta do subgênero de “true crimes” – gênero consolidado por Ryan Murphy desde American Crime Story à sua atual série Monster recontando biografias dos mais famosos psicopatas da história Americana; não tardou para o mesmo começar a formar raízes próprias no Brasil, que parece ainda prometer uma vida longa e frutífera. E com a mesma perversidade sensacionalista assombrando o formato maquineísta de induzir um drama performático em volta dessas histórias e personagens assombrosos.
No caso do novo Elize: Sombras de uma Mulher, recontando a história de Elize Matsunaga, a esposa que matou e esquartejou o marido, Marcos Matsunaga (executivo da Yoki) em 2016 após descobrir traição por parte do marido; produção que vem pela Netflix como forma de apostar em sua própria versão do formato “drama sádico” pagando de estudo humano.
Logo correndo atrás do prejuízo deixado pelo sucesso astronômico que rivais de streaming vinham coletando com séries como (a boa) Praia dos Ossos da HBO Max – retratando a vida e o assassinato de Ângela Diniz, nos anos 1970 pelo companheiro Doca Street; e as (terríveis) do Prime Video: Maníaco do Parque – sobre o serial killer condenado por atacar 23 mulheres e assassinar dez; e Tremembé, focada na Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado onde ficaram Elize Matsunaga e Suzane von Richthofen.
Todas que, tirando Praia dos Ossos, cumprem a risca o mesmo formato consenso desse subgênero de “thriller investigativo” seguindo o pov dos assassinos, simplificando eventos, inventando abobrinhas ficcionais romantizadas, omitindo certas pessoas e atos com a desculpa de “respeito às vítimas”. Onde você não se engana em achar que o que você está assistindo parece estar realizando uma espécie de excusa moral dessas personalidades, pintando-as como pessoas… “complicadas” do que realmente dignas de culpa imoral e vil.

O diferencial advindo do filme dirigido pelo novato Vellas se vende no fator de que, até certo ponto, o filme busca orbitar sobriamente sob a personagem de Elize – vivida por Lorena Comparato – de forma a lentamente encaixar o quebra cabeça do “por quê” que levou a ela fazer o que fez. Passeando sob a recontagem da história do casal desde amantes no tempo de garota de programa de Elize, a casados pombinhos onde ela conquista o sonho de princesa vencendo na vida após uma vida sofrida e carregada de trauma. E ainda indo um pouco além em querer apresentar o fato (raro nessas produções, ainda mais envolvendo assassinas femininas) de que ela não bate tão bem das ideias, ou pelo menos revela um toque sádico na personagem quando a vemos caçando veados com o marido e Elize tão bem atira quanto escola um animal sem um pingo de amadorismo e absoluta frieza de sangue.
Mas até aí seria tentar desvendar camadas para tentar defender um produto que, não só quase que se esquece por completo dessa tentativa inicial de denotar psicopatia, como ainda vem cuidadosamente embalado sob a mesma ege performática de entregar um drama “acessível”, humanamente falando. Colocando personagens assassinas sendo esquivadas de culpabilidade (quase) total e querendo mais é coloca-las nesse lugar de “é complicado” dado ao suposto passado trágico das personagens. Como se isso excusasse o crime que cometeram ou jogasse tudo numa área moral cinzenta, o que excuso dizer vem como uma bela dose de covardia e higienização moral.
A operação de sanitização completa: querendo simultaneamente o prestígio de estar contando uma história “complexa” e o conforto comercial. Relativizando a responsabilidade para transformar uma criminosa assassina real em uma protagonista trágica, fascinante em complexitude, vulnerável, bonita, traumatizada e emocionalmente acessível.
É de uma crueza cínica – e absolutamente normalizada – cujos erros grotescos já advinham das séries do Ryan Murphy ao retratar esses sujeitos que cometeram atrocidades com uma elaboração psicológica e mais complexidade narrativa do que as próprias vítimas. E a tragédia passa a possuir timing na forma com que organiza a realidade como ficção: escolhendo onde cortar, qual rosto permanecer na tela, qual informação esconder até o terceiro ato, qual depoimento colocar sobre uma montagem de imagens, qual silêncio prolongar, etc.

Substituindo o julgamento moral por uma espécie de empatia compulsória ao fornecer infância problemática, relações abusivas, conflitos familiares, humilhações, carências afetivas, frustrações. E pouco a pouco, a pessoa que cometeu o crime deixa de ocupar o centro moral da narrativa como autora de um ato monstruoso e passa a ocupar o centro emocional como “mulher complexa que chegou a um limite”. Tornando a complexidade psicológica, que deveria explicar sem absolver, passar a funcionar dramaticamente como uma espécie de absolvição informal.
Não ajuda o fato de que o formato do filme em questão é o padrão básico do básico “drama complexado for dummies” conjurado nesse retângulo digitalizado de streaming que poderia ser só um episódio caro de uma série da HBO estendido por uma chatice inconformavelmente basicona em todas as notas que tenta puxar. “Olha o quanto estamos demorando contemplativamente nessa cena de caça: quem de fato é a presa e o caçador ein?!” ou vamos fazer a personagem discutir sobre traição, vomitar, sinalizar que está grávida e logo perdoar o marido tudo na mesma sequência e esperar que a gente engula algum sentimento disso que não seja absolutamente arquitetado por roteirismo.
E como podemos tornar isso ainda mais palatavel como formato de gênero e ajudar a repercutir ainda mais?! Ora, agindo de forma “edgy” onde além de uma hipersexualização da figura principal ao ponto de rainha empoderada do corpo e mente; como também transformar o horrendo ato de violência final como esse ritual sanitizado de qualquer peso fora sons que revelam ainda seu Q de sadismo; e interromper tudo com uma nota final humanizável “fofa” para quebrar ainda mais a carga culposa em busca dessa “imparcialidade amoral” na retratação e julgamento dos fatos.
Além do mais estamos falando de figura feminina no Brasil, onde o arquétipo é imediatamente volúvel para arquitetar uma espécie de conto consolador e trágico de sororidade quebrada pelo veneno masculino. Veja como a mãe de Elize e ela são afastadas por conta do padrasto abusador; olha como a amizade entre Elize e sua prima/cunhada se dissipa a partir do momento que a morte do marido se torna um empecilho. Isso não é passar pano ou negar as ações do patético personagem de Marcos — retratado como um magnata empresário fracassado e com vício doentio em pornografia ao ponto de sacrificar as mulheres de sua vida a bel prazer. Mas a partir do momento que tenta usar disso para martitizar Elize a uma “vítima das circunstâncias” e não de seus atos a obra imediatamente perde qualquer conjectura dramática válida pois já adotou um lado de conversa – onde não deveria haver lado nenhum.

Para tornar uma criminosa tridimensional, não precisa necessariamente torná-la moralmente mais aceitável, como se reconhecer a humanidade de alguém exigisse diminuir a gravidade daquilo que ela fez. E pior: fomentar a reação de público que pouco se discute o peso das consequências e dos atos e mais lançar tópico de trend que repercute com frases como “espero que a diva esteja bem”.
Infelizmente não vai ser dessa vez onde pessoas vão aprender que não é necessário fabricar ambiguidade onde ela não existe. Que um ser humano pode ser simultaneamente vítima de circunstâncias terríveis e autor de uma atrocidade imperdoável. E que não precisamos transformar uma dessas verdades na desculpa para a outra. Trauma explica comportamento, não apaga agência!