Há alguns momentos na vida profissional de alguns diretores especializados em um gênero que simplesmente decidem explorar novas fronteiras. A transição do terror para a aventura ou ficção científica basicamente é uma das mais clássicas da indústria. O que é incomum é ver alguém como Peter Farrelly, especializado em dirigir comédias canastronas com seu irmão Bob como Passe Livre, Debi e Lóide, O Amor é Cego.

Basicamente, com Green Book: O Guia, temos a estreia do diretor no drama, mesmo que o longa seja carregado de momentos doces repletos de humor. Ao contrário do que pode parecer ser, Green Book é mais do que um mero Oscar bait lançado cirurgicamente na época de grandes premiações do cinema americano.

Já tendo conquistado 3 Globos de Ouro, de fato é difícil negar o quão charmoso e interessante Green Book é, já que traz uma discussão sobre racismo que foge do cenário extremamente denso e deprimente que vemos sendo trabalhadas anualmente por diversos cineastas.

Equilíbrio Sustentável

Escrita por três roteiristas, a narrativa de Green Book é bastante simples, apesar de demorar quase meia hora para engrenar de fato. Em 1962, Tonny Lip (Viggo Mortensen) é um ítalo-americano canastrão que trabalha como segurança em um clube noturno em Nova Iorque. Repentinamente, o clube é fechado para reformas e Tonny começa a se preocupar em arranjar um bico para sustentar sua família.

Em questão de pouco tempo, acaba encontrando a oportunidade de trabalhar como motorista de Don Shirley (Mahersala Ali), um pianista negro considerado gênio da música. Shirley deseja encarar o racismo do sul dos Estados Unidos ao fazer uma turnê nos rincões mais perigosos do país, porém tocando apenas para a elite da sociedade de cada cidade visitada. Pelo ótimo pagamento, Tonny engole o próprio orgulho e também seu preconceito e aceita viajar com o pianista.

Durante a jornada, encara diversas situações desconfortáveis que não experimentaria se estivesse viajando sozinho, compreendendo os perigos reais e injustificados do racismo que manchou a história dos EUA.

Como havia mencionado, o longa não se trata de um drama intenso, mas de abordagem similar aos feel good movies tradicionais que chegam no fim do ano nos cinemas. Apostando as cartas na amizade expressiva que é nutrida ao longo da jornada, os roteiristas conseguem entreter o espectador com facilidade.

A começar com as performances espetaculares de Mortensen e Ali, encarnando trejeitos muito distintos que colaboram para a colisão de dois mundos que o filme traz, exibindo preconceitos de ambos os lados. Tonny é um personagem bastante estereotipado, carregado com sotaque italiano, maneirismos repletos de expressões corporais e um tanto rude com uma visão limitada de seu mundo.

Já Shirley é seu completo oposto. Um virtuoso graduado, inteligente, deprimido, contido e muito racional, sempre freando seus impulsos repletos de rebeldia a cada situação extremamente desconfortável que acaba encontrando.

Pelas lentes de Peter Farrelly e também por sua direção ótima com os atores, percebemos o quão frustrado é Don Shirley durante e após seus shows selecionados. Deixando aberto à interpretação do espectador, Farrelly demonstra como a arte de tocar piano é uma válvula de escape para Shirley, conseguindo emanar toda a raiva que reprime dentro de si em algo belo e vibrante.

A grande novidade fica mesmo por essa interação pouco habitual da característica extraordinária que levaram esses homens a começarem uma longa amizade mesmo com vidas tão distintas. Na troca voluntária em diálogos primorosos, os personagens conhecem o mundo um do outro, e Shirley consegue ter mais contato com a cultura afro-americana, já que ele, por sua posição capital-social ser tão privilegiada, se sente como um verdadeiro peixe fora d’água.

De resto, infelizmente, o longa descontraído ousa não explorar grandes polêmicas, principalmente a que tange a sexualidade de Dr. Shirley gerando apenas um inchamento desnecessário do filme ou em um drama forçado, já que isso não é abordado posteriormente. Farrelly traz muitas situações similares a de outros filmes muito mais pesados sobre o tema e não consegue ir muito além do básico.

Porém, por conta do título do filme, não há como negar que Green Book não seja um filme sobre racismo. Logo, não há defesa para essa dramédia ser bastante superficial em alguns dos temas que aborda. Se fosse um filme sobre trocas de experiências e crescimento interpessoal entre os dois ótimos personagens.

Em termos visuais, Farrelly é mais comportado e realiza um filme quadrado, praticamente um telefilme com orçamento mais generoso. Apostando em diversos enquadramentos bastante óbvios que cumprem apenas o básico, o longa não tem grande apelo visual nem pela direção, nem pelo design de produção que é apenas muito eficiente em recriar a década de 1960 – o fato de ser um road movie ajuda bastante a economizar nessa área já que temos muitas passagens em hotéis.

Um exemplo também do desperdício do roteiro e também da direção de arte se dá justamente durante uma passagem tensa do filme. A cena ocorre em um casarão típico das plantações de algodão do século XIX nos EUA, um dos símbolos mais fortes sobre racismo na América. Apesar de haver sim certo conflito, o fato de Shirley tocar embaixo de um teto tão simbólico e repressor não é adereçado em diálogo, auxiliando na construção de Tony Lip em compreender as feridas do preconceito.

Sinal de Mudanças

Green Book é um bom filme que emociona e diverte. É interessante ver Peter Farrelly expandindo seus horizontes e começar a tatear outros gêneros além da comédia escrachada. Já aqui, é possível notar que o diretor consegue ter a delicadeza necessária para conduzir momentos sensíveis da obra, sem tornar a experiência melodramática e piegas. Apesar de não ir tão à fundo na questão que pretende trazer ao debate, é sim um filme que merece ser visto.

Green Book: O Guia (Green Book, EUA – 2018)

Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Brian Currie, Nick Vallellonga
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Mike Hatton
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 120 minutos

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