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Crítica | Harry Potter e a Pedra Filosofal

O começo do maior fenômeno cinematográfico infanto-juvenil!

Thiago Nolla
Thiago Nolla Redação
14 de novembro de 2016 · 6 min de leitura
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Harry Potter e a Pedra Filosofal é um dos mais fortes e bem trabalhados filmes de aventura, transbordando com atmosfera, pincelado com o macabro e o sublime – e surpreendentemente fiel à sua fonte original. Muitos erros poderiam ter sido cometidos, mas nenhum deles se concretizou: a firme direção de Chris Columbus tornou-se um clássico encantador que faz jus à estória. O romance escrito por J.K. Rowling é vívido e diversas vezes esbarra no visceral, e sua adaptação para os cinemas poderia tornar as coisas um tanto quando fofas e confortáveis.

Mas não foi isso que aconteceu.

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Mostrando-se como um Indiana Jones para um público mais jovem, o longa conta uma história de aventuras sobrenaturais e emocionantes, onde personagens multicoloridos e excêntricos alternam a vez em cena com criaturas assustadoras – um cão de três cabeças, uma infestação de visgos assassinos e um ser imortal de duas cabeças que bebe sangue de unicórnio. Assustador, sim, mas não tanto como você pode pensar – o suficiente.

Três jovens espirituosos são o centro do filme. Daniel Radcliffe interpreta Harry Potter, com óculos de aro redondos e um pouco mais velho do que o imaginei quando li o livro pela primeira vez. À época, o ator já havia dado vida a David Copperfield no filme homônimo da BBC, e se Harry será o herói de sua própria vivência nesta história, ainda não fica claro nos primeiros minutos.

Deixado quando ainda era bebê na frente de uma casa suburbana, Harry é criado por sua tia e seu tio numa relação não-mútua e pobre, por assim dizer, até ser convocado por uma revoada de cartas para estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts – uma Oxford para bruxos, mas na qual você até pode dizer a palavra “maldito” sem ter problemas. Na escola, Harry aprende sobre a arte das poções, dos feitiços, e do manejo da vassoura. Ele é resguardado de perto pelo diretor Alvo Dumbledore: um velho – e alto – bruxo de longas barbas branco-pérola, interpretado por Richard Harris, cuja habitual presença de cena se encaixa perfeitamente com o tom da obra. Harris é assistido pela austera e amante da disciplina Minerva McGonagall, Professora e Vice-Diretora: uma performance à la Jean Brodie de Maggie Smith. Ian Hart é o tímido e introspectivo Professor Quirrell, e Alan Rickman dá vida ao soberbamente sinistro Severo Snape, proferindo suas falas de forma praticamente estática e aterrorizante.

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Mas Harry não está sozinho nessa jornada. Já nos primeiros momentos em Hogwarts, se torna amigo do desastrado alívio cômico da franquia, Rony Weasley, um Jack Wild para Mark Lester interpretado por Rupert Grint, e Emma Watson como a magnífica Hermione Granger: imperiosa, impetuosa e extremamente leal a seus valores.

Os efeitos especiais para este filme são simplesmente estonteantes: a direção de fotografia de John Seale e o design de Stuart Craig atraem-se de forma indescritível. Fiquei boquiaberto aos incríveis planos do saguão de entrada de Hogwarts, com suas escadas movediças e quadros falantes e animados. A cena principal de Quadribol, um excêntrico esporte que se joga voando em vassouras, é surpreendentemente emocionante.

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E aquelas casas! É sério que em 2001 crianças de Amersham até Zâmbia podem realmente se importar para qual casa os protagonistas serão selecionados? A resposta é sim. Os novatos, em seu primeiro dia, passam por um teste de “livre-arbítrio”, por assim dizer, no qual sentam-se num banquinho e sobre suas cabeças é colocado o aparentemente temível Chapéu Seletos. Obviamente, esta sequência nos relembra do discurso em Carruagens de Fogo (1981) feito pelo diretor, no qual os calouros de Cambridge descobrem que ser um homem de Caius é muito melhor que ser, por exemplo, um Trinity. Mas a diferença não chega aos pés daquela existente entre Sonserina, a casa dos talentosos e sedentos por poder, e Lufa-Lufa, a casa dos nerds e risonhos.

Columbus lida com toda a fantasia de forma direta – tanto quanto possível – e felizmente nunca sucumbe à tentação de distorcer a história para agrado dos adultos ou para impor uma dose extra de “surrealismo” obtuso, o que seria horrivelmente errado e condescendente. É interessante especular o que teria acontecido caso Terry Gilliam fosse contratado para dirigir Harry Potter – talvez se tornaria uma obra multicolorida recheada com camadas de paternalismo e círculos narrativos. Ou então uma adaptação natalina de Alice no País das Maravilhas. O filme de Columbus, embora preso em total fidelidade ao livro, nunca desaponta tanto sua fonte original quanto seu público-alvo.

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É um investimento de seriedade, o qual é ressarcido quando chegamos ao clímax catártico da narrativa, muito mais importante que a batalha de Harry para reaver a Pedra Filosofal – um plot levemente desapontador tanto nas telonas quanto nas páginas. O ponto de virada ocorre quando o protagonista tem uma visão de seus falecidos pais no lendário Espelho de Ojesed, um objeto encantado que tem a capacidade de refletir nossos desejos mais íntimos. A história de Harry Potter – sua opressão pela família “trouxa” e então seu empoderamento através da magia – não faz sentido sem o fato da morte de seus pais. É algo que se relaciona às fantasias mais inerentes a qualquer criança: o medo do abandono misturado com o gostinho de liberdade.

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O pai de Harry é uma versão um pouco mais calva e mais sorridente dele mesmo. Sua mãe é – bem, alta, com cabelos escuros, olhos cândidos, assim como a filha da autora. Eles são seraficamente calmos, e sua presença heroica os torna muito semelhantes aos pais biológicos do Super-Homem, Jor-el e Lara, os quais colocaram seu bebê indefensível dentro de uma nave e o mandaram para um lugar onde ficaria a salvo, antes de explodirem em seu planeta-natal Krypton. Certamente, a figura paternalista de Harry é efetivamente substituída por Dumbledore – uma representação quase divina. E o filme não esconde a presença diabólica de Voldemort (dublado originalmente por Richard Bremmer), que desafiou a autoridade e caiu dos céus e, agora, deixando um rastro de sofrimento por onde passa, convence seus seguidores que não há o bem e o mal: há apenas o “poder”.

Nada poderia ter mais ares de uma série épica que essa. Há pernas. Há asas. Há até vassouras voadoras. A ótima saga Harry Potter, à época em que estreou, competiu com os próprios filmes de James Bond. E Harry envelheceu com o passar dos anos, levando seus fãs com ele através dos caminhos tortuosos da adolescência e da própria vida adulta. Obviamente, vemos muito da fórmula da jornada do herói, tanto nos livros quanto nos longas-metragens, aludindo a outras franquias de sucesso como Star Wars. Mas o formulaico existe para ser quebrado; afinal, todas as histórias já foram contadas – agora é necessário descobrir novos métodos de narrá-las, e é isso que a saga criada por Rowling faz.

Ao final de fantásticos e divertidos 152 minutos, a velha frase “deixá-los querendo mais” ficou piscando na minha cabeça. Acho que nunca vi essas palavras fazerem tanto sentido.

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Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, EUA – 2001)

Direção: Chris Columbus
Roteiro: Steve Kloves, J.K. Rowling
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Adrian Rawlins, Alan Rickman, Alfie Enoch
Gênero: Aventura, Família, Fantasia
Duração: 125 min

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Thiago Nolla
Escrito por

Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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