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Crítica | Higiene Social – Para admiradores de monólogos

E um pouco de monotonia...

Herbert Santos
Herbert Santos Redação
12 de outubro de 2021 · 4 min de leitura
Crítica | Higiene Social – Para admiradores de monólogos

Ensaios de peças e filmes muitas vezes ocorrem em ambientes abertos, onde atores e diretores constroem no ar as futuras ações dos personagens. Seja com um tom de voz ou um passo para frente, tudo vem de uma leitura detalhada do roteiro. Em Higiene Social (Hygiène Sociale, 2021), de Denis Cotê, que está presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, esses ensaios mais parecem o produto final.

O diretor explora o universo dos diálogos e assuntos que pode vir a colocar diante das telas, sem o uso do visual. Ele pede, de maneira tímida, que cada pessoa traga seu cenário e construa a situação na qual os personagens se encontram.

A trama muito simples acompanha Antonin, um cineasta aspirante que tem conversas reflexivas com cinco mulheres. São elas: sua irmã, uma coletora de impostos, sua esposa e sua amante. Já a quinta sintetiza todas essas conversas, e serve como uma voz de consciência para o personagem. Fica aqui uma questão: será que Cotê não estaria fazendo um estudo de personagem antes mesmo de realizar a obra? Há uma estranheza de que cada conversa auxilia na construção de Antonin, entretanto, visto o filme como um experimento de produção em um período de pandemia, e usando a simplicidade do diálogo como matriz, de nada servem, pois não há uma conclusão. São como uma experiência momentânea, um fast food.

Maxim Gaudette, que interpreta o protagonista, consegue entregar um bom ritmo, dentre inúmeras falas e diversos tons necessários. As conversas vão de cômicas até reflexões sobre o estado humano, e sua performance entrega uma energia que talvez não fosse necessária para o papel, mas que no final auxilia a digestão da história. Larissa Corriveau, que interpreta Solveig, a irmã, é a única que consegue acompanhar e, em uma cena hilária, superar o protagonista. Algo verbalmente interessante, debatendo à altura, sem soar falso. Já as outras, com sua pouca participação e uma insistência em assuntos similares, pareceu superficial e de pouca expressão com o que poderia ser realizado. Uma pequena tentativa vem de Evelyne Rompré, que interpreta a esposa. Há uma vertical para que seja construído um novo diálogo ou vertente mais parruda, mas não acontece.

Dentre as coisas que ali chamam atenção é a fotografia de François Messier-Rheault,  que já havia trabalhado com Cotê em Antologia da Cidade Fantasma (Répertoire des villes disparues, 2019), que faz uma leitura em pinturas e até mesmo fotografia contemporânea para enquadrar cada um dos diálogos. Há pouca movimentação de atores, nem muita profundidade de campo ou alteração de iluminação; tudo fica à mercê do local. É sábio o uso de lentes objetivas que permitem, mescladas à luz natural, a quebra da profundidade de campo, com um foco infinito, deixando à quem assistir a decisão em que olhar. Só na primeira cena, em certo ponto do quadro, um desfoque digital completamente fora de lugar acaba roubando a atenção do plano.

Quem realmente merece reconhecimento é o departamento de som, representado por Jean-François Caissy e Frederic Cloutier. Cada momento, dialogo ou situação, tem uma dedicatória extrema ao desenho de som. É muito importante compreender que em cada fala existe uma tonalidade, e junto dela a ambientação extradiegética. Como não se trata de um local onde podemos ver o que está acontecendo, Cotê preferiu por construir os cenários por som, acentuando e sublinhando as cenas. Marcante é a conversa com a coletora de impostos, onde claramente se escuta uma obra com caminhões e trabalhadores, enquanto os personagens estão em uma região de vegetação alta. Criando assim uma sensação de conversa mais burocrata. É um mundo completamente imaginário.

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Para os que gostam de monólogos, é uma boa pedida para uma sessão e divertimento curto. Mas se for necessário preencher os olhos e uma trama mastigada, Higiene Social é apenas um experimento de monotonia, onde o diretor consegue em alguns momentos boas descontrações, mas no final fica um gosto de preguiça em desenvolver outros meios de gravação e saída cinematográfica pós pandemia.

Higiene Social (Hygiène Sociale, Canadá – 2021)

Direção: Denis Cotê
Roteiro: Denis Cotê
Elenco: Maxim Gaudette, Larissa Corriveau, Eleonore Loiselle, Eve Duranceau, Kathleen Fortin, Evelyne Rompré
Gênero: Drama
Duração: 71 min

Acompanhe mais da nossa cobertura da 45ª Mostra Internacional de São Paulo

Tags: #45ª Mostra Internacional de São Paulo #Higiene Social #Mostra SP
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