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Crítica | Holocausto Brasileiro

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O Brasil é um país peculiar desde sua fundação e pelos seus principais eventos históricos serem marcados pela controversa. Polêmicas e polêmicas que surgem todos os anos que parecem pouco mover a incredulidade do povo brasileiro. Porém, uma das coisas que não tínhamos aqui, além de desastres naturais de magnitude colossal, era um holocausto.

Bom, a conveniência histórica era essa até a jornalista Daniela Arbex quebrar uma parede de vidro espelhado revelando uma terrível realidade que durou mais de oito décadas no país: o chamado holocausto brasileiro.

Isso ocorreu no Hospital Colônia de Barbacena, no interior de Minas Gerais. Inaugurado em 1903, o Colônia tinha como principal propósito tratar pacientes tuberculosos, mas rapidamente o foco foi alterado atendendo apenas pessoas com problemas psicológicos severos.

Outro século, recém-saído dos anos 1890, sem conhecimento, sem medicação, sem recursos, sem equipe qualificada, o Colônia viraria um inferno vivo em pouquíssimo tempo. Um inferno que traria a morte de 60 mil pacientes ao longo das oito décadas que se manteve em funcionamento.

Visando resgatar essa memória, Daniela Arbex pautou um estudo muito sério sobre esse acontecimento obscuro em nossa História. Agora como documentário, as páginas do livro ganham mais vida e a memória torna-se imagem em movimento.

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A grande vantagem de Holocausto Brasileiro é a busca de Arbex por um discurso imparcial o que torna o longa menos enviesado e tendencioso. E em documentários, é fácil criar uma narrativa para te fazer crer no material apresentado. Arbex sabiamente usa sua formação em jornalismo a seu favor, colocando todos os lados possíveis para oferecer depoimentos sobre a experiência de terem vivido e trabalhado no Colônia.

Então temos depoimentos de antigos pacientes e sobreviventes do Colônia, das enfermeiras do local, do relações públicas da época, de fotógrafos que registraram o que ocorria ali, de seguranças, documentaristas, parentes de vítimas, entre outros. Logo, o rol é diversificado expondo com clareza o ponto de vista de cada um que fizeram parte da traumática história.

A começar é bem difícil não associar o trabalho, tanto do livro quanto do filme, com a obra Entrevistas de Nuremberg, de Leon Goldensohn, psiquiatra responsável por diversos detentos do presídio de Nuremberg, lotado de oficiais nazistas, antes dos julgamentos definitivos. Nas entrevistas, há a descoberta de uma dimensão ainda maior do horror.

A cineasta tem essa consciência. Não é por menos que inicia o documentário com uma entrevista de um ex-maquinista responsável por trazer diversos pacientes, no “vagão dos loucos”, para o Colônia durante anos. Estabelecido isso, outro entrevistado, um estudioso historiador, já expõe a óbvia comparação. Nesses momentos, sim, com sutileza, Arbex vai criando a narrativa do documentário.

A boa oportunidade fica com as entrevistas dos “oficiais nazistas”, os enfermeiros. No caso, duas, discorrem sobre as dificuldades e do descaso da administração pública com o Colônia expondo as atrocidades cometidas – que aconteceram em diversos outros manicômios brasileiros também, como a punição por choque. É através delas que depreendemos as causas de tanta mortandade: fome, frio e doenças diversas. Além de ficar claro que, obviamente, Colônia era um reduto de indesejados, abandonados ou presos nos pátios do hospício.

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Não era necessário ser louco para ser esquecido no Colônia. Hoje, vemos com incredulidade, tratando o tema como absurdo e cruel. Certamente o era, mas avançamos tremendamente em questões humanitárias em 30 anos do que os tratos disponíveis na época. Lugares como o Colônia eram convenientes para a sociedade despejar seus páreas, indesejados, deficientes, etc.

Algo que faltou no discurso bem construído do documentário é justamente um aprofundamento maior na questão histórica e sociológica condizentes à época, além de um breve apanhado sobre o avanço da medicina psiquiátrica e também sobre os padrões da loucura. Com isso, mesmo de fácil dedução, seria mais evidente que os sãos encarcerados no Colônia acabaram tão insanos quanto os verdadeiros doentes mentais que lá moravam.

Nessas entrevistas com os responsáveis pela gestão do local, senti muita falta de um confronto maior por parte da entrevistadora. Quando digo confronto, não se trata de tratar o entrevistado com grossura, mas sim condicionar a conversa em busca da brecha para encaixar a pergunta de ouro que podem render momentos de epifania para o filme. O melhor uso disso que já vi foi em O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer – filme com conceito até que similar. Por exemplo: “a sra. não sente, hoje conversando e relembrando, que algumas das atitudes que fez podem ser consideradas como abusivas? Se sim, hoje se arrepende de algo?”.

Quando se confronta o entrevistado, visivelmente culpado e indefeso, ou se ganha uma catarse honesta ou há a explosão temperamental na qual o personagem te enxota e encerra a entrevista. O longa carece disso, pois permanece nesse discurso passivo nas entrevistas, com caráter de registro das memorias daqueles cidadãos.

Os entrevistados que foram internados no Colônia também apresentam um enorme desafio, afinal, como colocar credibilidade nas palavras de uma pessoa fora de realidade? Arbex consegue através de um método inteligente: entrevistar as pessoas que foram fotografadas em diferentes décadas no Colônia, unindo depoimento dos fotógrafos com o dos pacientes, além de, até mesmo, algumas enfermeiras lembrarem de alguns pacientes.

O destaque dos mentalmente incapazes motiva e emociona o espectador. Impossível não nos padecermos com o sofrimento de pacientes ingênuos e indefesos, com boa parte dos distúrbios controlados. Porém, os diamantes do documentário, Arbex mantém escondidos até o final.

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São os entrevistados que foram internados no manicômio sem apresentarem distúrbios mentais na época. As histórias deles exploram a loucura dos sãos, de uma maldade profana e satânica ao nos levar à reflexão sobre como foram vítimas do descaso de seus familiares, dos profissionais e do Estado.

Arbex ainda faz revelações ainda mais perturbadoras sobre o destino dos corpos dos mortos indigentes, porém, na forma, o documentário não é feliz em apresentar o empirismo das provas ao usar closes e cortes videoclipados a la documentários policiais chocantes dos anos 2010, tirando qualquer credibilidade dos documentos expostos no longa. Porém, como Arbex enfatiza que apurou a autenticidade das provas, quem eu sou para duvidar?

Aliás, é justamente nesse arco que ela realiza seu primeiro confronto em uma entrevista. Um momento excelente, mas que logo se arrefece. Outras características interessantes são abordadas, como a relação da comunidade religiosa com o manicômio e da linha do tempo do retrocesso que o Colônia sofria até seu desligamento.

Na técnica, é um documentário de narrador passivo que constrói seu discurso através de entrevistas e imagens de arquivo – também há certas passagens de cinema direto, captando a emoção dos personagens de modo mais singelo e poderoso. No uso das fotografias, há alguns equívocos da montagem ao apostar em muitos cortes rápidos quase que ininteligíveis mostrando partes das imagens até apresentá-las completamente. Quando as fotos ficam apropriadamente visíveis, o montador e a diretora não apostam na contemplação. Ela fica poucos segundos em tela e some. Uma tristeza, pois são fotografias valiosas.

Pequenos problemas técnicos com a montagem marcam o Holocausto Brasileiro, mas aos olhos do espectador normal, nada incomodará. Bons momentos de insight da direção estão nas visitas aos corredores fantasmagóricos do Colônia, inclusive “reconstituindo” um grande pavilhão. Pequenos momentos que valem muito. Aliás, Arbex tem essa preocupação visual no longa inteiro que é sempre muito variado na captação de material. A valorização dos entrevistados engrandece muito o documentário. Temos diversas histórias marcantes, uma mais sofrida e inacreditável que a outra. 

Holocausto Brasileiro é um excelente documentário de preservação de memória que tenta eximir a responsabilidade de apontar culpados. É bastante realista e bem-intencionado, mostrando uma realidade nada distante e que era considerada perfeitamente normal até pouco tempo. É um filme que fala sobre loucura e dos pequenos poderes, na propensão do homem em explorar terceiros incapacitados e silenciados, na expiação da maldade e frustração.

Colônia não foi o único manicômio com uma história tão trágica e perturbadora. O Brasil coleciona casos de possíveis outros holocaustos. Talvez ocorridos no Hospital Psiquiátrico de Juqueri, no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, no Hospital Psiquiátrico Charcot e até mesmo no Pinel.

Um problema enorme sem solução aparente e sem possibilidade de reparação.

Holocausto Brasileiro estreia no dia 20, às 21 horas, no canal Max (678 e 78 na Net). Após a exibição, que será reprisada ao longo do mês, o filme estará disponível na HBO Go.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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