Dentro de uma lista razoavelmente grande de filmes nostálgicos e memoráveis que Arnold Schwarzenegger carrega em seu legado de sendo talvez o maior astro de ação de todos os tempos, me surpreende que um de seus filmes como Inferno Vermelho não tenha um melhor reconhecimento, ou sequer fama, que prova tanto merecer.

A trama segue Ivan Danko (Arnold Schwarzenegger), um policial russo durão e disciplinado que é obrigado a trabalhar ao lado do extrovertido detetive Art Ridzik (Jim Belushi), enquanto partem em uma perigosa investigação no encalço de Viktor Rostavili (Ed O’Ross), um perigoso criminoso internacional envolvido com tráfico de drogas e terrorismo que fugiu da Rússia para os Estados Unidos, e responsável pela morte do antigo parceiro de Danko.

Como podem ver, nada mesmo de tão especial aparente com uma trama que soa já tão familiar e sim previsível em estrutura. E tendo em perspectiva um público mais picuinha de hoje e dos críticos que sempre foram os mais exigentes com os filmes de Schwarzenegger, talvez seja bem visível o porquê e os motivos de certas coisas que podem ir contra a imagem do filme em sequer ser interessante ou atraente nos dias de hoje, e que ocasionou ele cair em certo esquecimento.

Primeiramente, é um filme de Walter Hill, e não será meu trabalho aqui apontar todos os inúmeros filmes desprezados que preenchem a filmografia do diretor desde Caçador de Morte à Warriors – Os Selvagens da Noite, entre outros que o consolidaram como um dos maestros da ação nos anos 70 e 80, e um dos maiores discípulos de diretores como Don Siegel (Perseguidor Implacável), que compartilhavam de uma certa semelhança em terem um talento especial para filmes policiais e Westerns, ou quando misturavam ambos os gêneros constantemente em seus filmes, assim como é o caso com Inferno Vermelho.

E Arnold sendo o grande astro que era, e que aqui em seu auge oitentista já tinha trabalhado com alguns dos diretores mais renomados do gênero desde James Cameron (Exterminador do Futuro, True Lies), John McTiernan (O Predador), John Milius (Conan, o Bárbaro), entre outros, já era hora dele fazer um filme com Walter Hill, cujo sempre desejaram mutuamente em trabalharem juntos, mas Hill nunca tinha encontrado a trama certa para encaixar o gigante Austríaco. Então porquê não fazer um filme buddy-cop com ele sendo um Russo vindo para os EUA e assim disfarçar seu sotaque nórdico não é mesmo?!

Segundo, é um filme não muito falado de Arnold Schwarzenegger, e você sabe o que isso deve significar para a maioria das pessoas: é provavelmente uma porcaria (o que é longe disso), como é o caso da maioria dos não tão memoráveis filmes do Arnie (o que esse é). Talvez compartilhe do mesmo triste fardo de outro filme do ator como O Último Grande Herói que, assim como Inferno Vermelho, são dois dos filmes mais subestimados do ator e que mostravam ser filmes de características tão únicas na filmografia do ator e nunca tiveram um reconhecimento merecido.

Acima de tudo, é um filme buddy-cop sem qualquer estereótipos raciais com um dos personagens da dupla sendo um negro, como de usual em filmes do gênero. O que deve significar então que isso é definitivamente uma tomada no gênero datada e coberta de “white-washing”, assim como todo produto de sua era de preconceito racial em Hollywood, certo? ERRADO!

Dizer o tipo de artista que Hill é já se torna um argumento suficiente por si só para fazer este tipo de crítica (se é que existe) soar  completamente estúpida, um filme como o ótimo 48 Horas está aí para provar isso. E sendo Inferno Vermelho outro buddy-cop em sua filmografia, serve para mostrar o ótimo trabalho com que Hill pode fazer no gênero, como ele faz aqui.

Onde diferente de outros diretores que consagraram alguns dos melhores filmes do gênero explorando relações e personalidades complexadas entre personagens de carácter distinto, mas que encontravam união e amizade através de seu trabalho pela justiça, seja com Richard Donner e sua franquia Máquina Mortífera ou Shane Black e seus bons roteiros como O Último Boy Scout e o recente Dois Caras Legais.

Enquanto Hill que conseguia ir além de seus interessantes personagens, e gostava de explorar o mundo em que viviam e as leis da violência que o ditavam. Inferno Vermelho está com evidências de sobra disso, pois se o filme não compensa em uma trama clichê, ele entrega nessa invejável estética e mistura de gêneros que muitos outros filmes gostariam de ter metade dessa qualidade.

Por isso você pode ver logo de cara como Hill simplesmente arrasa na direção do filme. Encontrando aquele equilíbrio perfeito de um tom que se leva mesmo a sério, mas sem perder um pingo de suas ótimas e frequentes batidas cômicas, e muito menos esquecer ou tornar sua trama policial desinteressante. Tudo isso é refletido na maneira inventiva em que Hill consegue estruturar o filme, construindo a personalidade dos personagens se usando da mise-en-scène em seus cenários de forma muito inventiva.

Indo de um ritmo deliberadamente lento e com a cinematografia de Matthew F. Leonetti adotando essa aura quase contemplativa quando o filme está ocorrendo na URSS, com as lentes capturando a escala imensa de Moscow com belos enquadramentos grandes, enfatizando a pomposidade limpa e rústica da Rússia europeia com sua fria tonalidade branca, enquanto os lugares fechados são quentes e revelam conforto, exceto na cena intro do filme em que Ivan deixa uns mafiosos completamente quebrados em uma ótima porradaria dentro de uma sauna.

Ou quando seguimos Ivan em suas perigosas desventuras em Chicago tentando ser um lobo solitário em uma terra de lobos, vemos como Hill sempre muda o tom frenético do filme para algo mais calmo e preciso, tudo indo em perfeita contrapartida ao mundo barulhento, quase extravagante e sonoramente poluído onde finalmente conhecemos Art e a terra prometida da América, e começamos a seguir a dupla que obviamente não aguentam estar nem um centímetro do outro, mas que devem juntos se dedicar nessa perigosa investigação, e talvez aprenderem a se respeitar até lá, ou provavelmente não.

Se você pensou que a influência do Western sobre Hill não poderia encontrar lugar aqui, você foi ingênuo o suficiente. É claro que não é uma presença estruturalmente forte ou esteticamente óbvia na maior parte do filme, mas quando vemos Arnold sacando um Magnun 44. e explodindo sacos de sangue nos capangas como se ele estivesse em um filme de Sam Peckinpah, e até mesmo tirando a chance antes de perguntar: “Quem é Dirty Harry?”, aí você sabe que está assistindo algo para te deixar com um sorriso enorme na boca.

Claro, você sempre pode contar com Hill para dirigir alguns tiroteios totalmente divertidos. Usando de seus cortes rápidos precisos à cada soco e tiro, acompanhado de uma câmera frenética, mas que sempre deixa de vermos o sangue espirrando ou as batidas de carro. Um retrato de um tempo onde você podia ter essas comédias de ação com boas doses de violência catártica sem se deixar amenizar em tom.

Junto à isso você também pode sempre contar com Hill para escrever alguns personagens realmente interessantes, e por que não decentemente envolventes, como é o caso aqui com a dupla Ivan e Artz. De um lado, temos o simpático russo estereotipado de Arnold em seu modo fodão ligado em tempo integral, determinando em fazer o trabalho acima de tudo e de todos, mas que esconde uma sutileza humilde em suas origens e uma moral íntegra. E ouvir “Hora de alimentar o periquito” pronunciada com o sotaque do gigante austríaco se fazendo de Russo soa tão doce e fofinho.

Enquanto Jim Belushi que sempre passa por um desmerecimento constante, sempre sendo comparado ao seu irmão John Belushi (Irmãos Cara de Pau) enquanto como ator ele já provou mais de uma vez ter uma manha própria em ser mais do que apenas o “cara engraçado” do filme, com seus três jeitos únicos. Fazendo de Artz o homem comum trabalhador e policial competente, com carisma de sobra, mostrando sua constante língua afiada mas que logo admite quando está errado ou foi ofensivo, sempre sendo cheio de si, mas com um bom coração. E de sobra compartilhando também de uma ótima química com Schwarzenegger.

Embora ele sirva na maior parte do tempo do filme como sendo apenas o  principal alívio cômico, sempre com uma piada pronta na ponta da língua e com diálogos que constantemente satirizam o capitalismo, enquanto deixa Arnold brilhar melhor nas usuais sequências de ação, mas ele ainda se mostra uma presença muito agradável, com frases do tipo: “Em um copo com limão, certo? Pois é, eu vi Dr. Zhivago!” provando sua participação aqui obrigatória!

Outro grande fator que faz o filme realmente ser ótimo é sua excelente dupla, pois nada de muito marcante tem presença no elenco. Mesmo que o vilão Viktor Rostavili possa ser o típico russo malvado genérico que já cansamos ​​de assistir, Ed Ross consegue ter aquela personalidade asqueroso com um olhar pedindo para ser odiado. E Hill consegue garantir a ele um confronto final envolvendo um duelo de ônibus versus ônibus contra Ivan que é simplesmente impagável.

E impagável é exatamente o que Inferno Vermelho é. Com Walter Hill garantindo aqui todas as receitas perfeitas para fazer um divertidíssimo buddy-cop, ouso dizer até que é seu melhor filme do gênero, obviamente não desmerecendo ambos os 48 Horas que dirigiu com a ótima dupla Eddy Murphy e Nick Nolte. Mas Inferno Vermelho consegue ir além em seu tom mais diversificado, sendo ousado, brutal e até seco em certas partes, mas comedido em uma boa dose de diversão.

Resultando aqui em um de seus melhores filmes, mas também em um dos melhores filmes e papéis da carreira de Schwarzenegger facilmente. Um filme que você pode quase encarar como sendo esse thriller de ação de caráter político que segue uma linha perto de filmes como Três Dias do Condor e Operação França, só que junto de um típico filme de ação brucutu do seu grande astro Arnold Schwarzenegger, não poderia ter havido um casamento mais perfeito.

Inferno Vermelho (Red Heat- 1988, EUA)

Direção: Walter Hill
Roteiro: Walter Hill, Harry Kleiner, Troy Kennedy-Martin
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jim Belushi, Ed O’Ross, Peter Boyle, Gina Gershon, Laurence Fishburne
Gênero: Ação, Comédia, Policial
Duração: 104 min

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