Apesar da Nova Hollywood ser declaradamente reconhecida com seu início por Easy Rider, há muito do cinema renovado dos anos 1970 em Juventude Transviada, clássico de Nicholas Ray, além de possivelmente ser o maior filme de sua vida. Isso, em 1955. Saindo do seu hit instantâneo por Johnny Guitar, Ray recebeu um voto de confiança na Warner que permitiu que o realizador fizesse um filme mais autoral para a época.

Com toda a certeza, Ray trouxe um filme perfeito em sua cabeça que inventou uma realidade própria para gerar a força motriz da obra, crendo veementemente que estava a retratar a vida de milhares de jovens com a narrativa criada. Passado o deslumbramento histórico que a obra gerou e também a performance simbólica de James Dean como protagonista, é um fato certo que Juventude Transviada simplesmente não envelheceu nada bem, fazendo pouco ou nenhum sentido para uma audiência hoje. Talvez seja justamente por isso que, com algumas alterações, o filme fosse melhor se pensado para os anos 1970 nos quais de fato os jovens passavam por problemas diversos.

Perdidos na Noite

Stewart Stern e Irving Shulman fazem de tudo para inserir algum sentido na história pensada por Nicholas Ray. Temos então a narrativa sobre a pequena tragédia de Jim Stark (James Dean), um jovem habituado a mudar de cidades sempre que problemas surgem na sua vida por ordens de seus pais superprotetores que o mimam intensamente. Parando na delegacia depois de uma noite de bebedeira em Los Angeles, Stark é novamente perdoado por seus pais nada rígidos, mas encontra dois outros jovens, Judy (Natalie Wood) e Platão (Sal Mineo) que também sofrem com questões paternas.

Acreditando que terá um ótimo primeiro dia de aula para recomeçar sua vida, logo Jim tem seus planos furados por conta da implicância do namorado valentão de Judy para com ele. Disposto a resolver essa querela irracional, Jim aceita um desafio mortal para ser aceito na comunidade estudantil. Porém as consequências do ato jogam Jim, Judy e Platão em uma noite de aventuras perigosas.

É totalmente peculiar a este filme que ele comece tão bem e termine tão mal. Juventude Transviada sofre de diversos males e de um realismo que só funciona na cabeça de Nicholas Ray, mas certamente é muito feliz estabelecer os pilares de um conflito que simplesmente parecia ser o filme, mas que logo após uma trágica morte, se torna outro completamente diferente.

Os roteiristas abordam com eficiência para justificar a rebeldia de Jim e suas tentativas escapistas. Nada sobre questões existenciais aqui, mas sim um desejo completo de atenção paterna para conseguir causar uma catarse em seu pai para que ele pare de ser tão subjugado pela esposa e em perpetuar discussões inúteis. Já com Judy, há certa luxúria e um amor infantil rondando sua relação com o pai, inferindo uma paixão proibida – isso aparece e nunca mais é mencionado novamente.

O trabalho mais complexo certamente se dá com Platão, o garoto obviamente homossexual muito frustrado com a ausência de afeto dos pais que acabaram de se divorciar. Porém, há certo exagero para mostrar que o garoto é desequilibrado para já apresenta-lo como um matador de filhotinhos de cães. Ou seja, os três personagens desejam uma figura máscula e forte para capitanear seus destinos, dar respostas certas para suas frustrações e dominar o ambiente familiar.

A partir desse cenário tenebroso, os roteiristas colocam o protagonista para interagir com esses dois adolescentes com bastante intensidade. O problema é que temos somente um dia como espaço diegético para todos os eventos dramáticos do filme ocorrerem. Apesar disto deixar o ritmo bastante dinâmico, também torna boa parte da história em algo completamente surreal.

Primeiro que os personagens mal têm tempo para serem desenvolvidos de forma similar ao sentimento humano ou o convencional narrativo para mudanças tão bruscas como as que ocorrem aqui. Por exemplo, Judy e Jim rapidamente superam a morte de um personagem que havia morrido há poucas horas e logo se apaixonam perdidamente no decorrer de uma noite repleta de fugas da realidade. Enquanto isso, se convencem que são figuras paternas para Platão que deseja ser aceito como filho dos dois e formar uma grande família feliz. Mas, antes de realizar seu sonho, o garoto surta e começa a atirar com armas de fogo contra alguns bullies da gangue do falecido levando a uma bizarra perseguição policial e um dramalhão surreal no clímax da obra – no qual todos os sentimentos bastante claros dos personagens são expostos em diálogos péssimos.

O pior de tudo é que Ray filma os elementos de modo realmente pretensioso como se quisesse que o espectador levasse tudo o que ocorre na tela do modo mais sério possível a ponto de comprar o drama artificial que ele propõe. Há simplesmente um excesso de caricatura, principalmente em Platão, um garoto que realmente é impossível comprar o discurso de “pobre coitado” que Ray tenta emplacar quando é claro que o menino é um desajustado deprimido muito além da linha do aceitável. Isso não torna a “amizade” dele com Jim mais excêntrica ou especial, mas sim bizarra, inclusive pelas atitudes que Jim toma posteriormente naquela noite por uma pessoa que ele conheceu, literalmente, há poucas horas antes.

Ray não conhece limites para as mudanças tonais que propõe com bastante frequência partindo de um drama escolar repleto de potencial para virar um drama psicológico barato, mas ainda interessante até culminar em um final violento para lançar uma crítica social sobre a criminalidade com menores de idade e suas motivações para agirem com tanta rebeldia.

Há momentos, sim, memoráveis dentro de Juventude Transviada como a ótima sequência envolvendo uma corrida mortal que culmina em uma tragédia através de uma conveniência narrativa esquisita – essas não faltam aqui, principalmente no clímax. Ou na abordagem que Ray toma ao exibir o primeiro dia de aula de Jim e uma sessão bonita dentro do planetário, apesar do motivo ridículo para a gangue desejar eliminar a existência do protagonista.

Rebelde com Causa

Apesar de tudo isso, Juventude Transviada é um bom filme. Nicholas Ray tem um olhar engessado, mas muito competente com a técnica cinematográfica, além de fazer bom uso da profundidade de campo para gerar maior dimensão ao perigo que os personagens encaram. Fora isso, é muito feliz com a decupagem de ação bem organizada e com seus enquadramentos ricos em Cinemascope visando valorizar cenários e paisagens californianas fabulosas como a da mansão muito conhecida por Crepúsculo dos Deuses e das cenas que se passam no Observatório Griffith.

O problema apenas reside na artificialidade completa dessa história que o diretor pensa ser tão genial e comunicativa, mas que envelheceu terrivelmente a ponto de ficar caricata. Seu impacto na época certamente teve valor o suficiente, além da morte de James Dean ter catapultado o filme que estreou um mês depois do triste acidente do ator. Simplesmente há muita psicologia barata e desenvolvimento surreal de seus personagens em uma questão de tempo diegético tão absurda para que Ray consiga sustentar qualquer crítica que ele pretendia com seu filme.

No fim, ele acaba exatamente como Platão durante o clímax: totalmente perdido, atirando para todos os lados.

Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, EUA – 1955)

Direção: Nicholas Ray
Roteiro: Nicholas Ray, Stewart Stern, Irving Shulman
Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Corey Allen, Dennis Hopper
Gênero: Drama
Duração: 111 minutos