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Crítica | A Fortaleza Escondida – A Fraqueza de Kurosawa

Um Kurosawa que serviu como catapulta para outro filme melhor.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
26 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | A Fortaleza Escondida – A Fraqueza de Kurosawa

Akira Kurosawa queria agradecer pela ótima experiência que teve com a Toho, o estúdio que apostou tudo no talento do cineasta nas ótimas produções de Os Sete Samurais e Trono Manchado de Sangue, filmes certamente de grande risco financeiro. Para isso, parou de seguir o caminho grandioso dos épicos samurais para realizar uma aventura de comédia popular com A Fortaleza Escondida.

Nada mais digno para o cineasta experimentar outros campos e se renovar novamente, porém, mesmo sendo um sucesso absoluto de bilheteria e, posteriormente, tornando-se um clássico a ponto de influenciar boa parte da criação de Star Wars, o filme é simplesmente medíocre perto do que havia feito até então. E grande culpa disso é pelo nítido exagero de Kurosawa em tornar uma aventura simples em um épico rebuscado.

Comédia para Poucos

Kurosawa já abre o filme com a dupla de camponeses imbecis chamados Tahei (Minoru Chiaki) e Matashichi (Katamari Fuhiwara), dois ex-soldados que participaram de uma guerra de clãs e acabaram perdendo tudo nas batalhas quando acreditavam que ficariam ricos com os saques de vilas e aldeias. Maltrapilhos e resmungões, os dois veem sua péssima sorte virar quando descobrem peças de ouro escondida em pedaços de madeira espalhadas em um riacho.

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Decididos a saquear tudo, logo são interrompidos pelo poderoso general Rokurota Makabe (Toshirô Mifune), que os recruta para transportar duzentas peças de ouro perdidas na dizimação do clã Aikizuki. O ouro está escondido na fortaleza do general e precisa chegar até o território do clã aliado Hayakawa para financiar a reestruturação dos Aikizuki. Para isso, Makabe também transportará a princesa Yuki, única herdeira do clã, disfarçada como menina muda para que os camponeses não suspeitem de nada do seu plano. O problema é que a jornada para cruzar a fronteira terá diversos desafios que testarão a lealdade dos pobres homens com seu patrão.

Ou seja, mesmo se valendo de uma típica trama aventureira e despretensiosa, Kurosawa consegue encaixar o diálogo moral tão presente em seus filmes. Aqui, o dilema ético sempre orbitará a ganância e pobreza ética dos dois camponeses contra a nobreza altruísta e correta do general e da verve digna da princesa gritalhona Yuki.

O jogo de conceito é a força motriz do conflito secundário do longa e repetido à exaustão. Com a dupla, temos diversos planos frustrados em roubar o ouro ou estuprar a princesa enquanto o general se afasta para planejar novas ações para o grupo cruzar a fronteira em segurança até retornar e desmontar as intenções pérfidas da dupla.

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O problema do plano conceitual do longa é justamente a repetição exaustiva dessas esquetes nada ou pouco engraçadas tornando absolutamente todos os personagens superficiais ao extremo e, até mesmo, irritantes. Apesar de apelar ao slapstick sucessivas vezes para realizar o tom cômico dos abobalhados Tahei e Matashichi, Kurosawa consegue criar boas piadas a partir de ironias inteligentes feitas com muito auxílio do visual ousado do filme.

Uma delas envolve a dupla subindo um morro dificílimo para chegar na fortaleza escondida entre as montanhas para logo darem de cara com Rokurota já os aguardando no terreno, avisando que havia uma passagem secreta ao lado. A graça disso é o modo como Kurosawa expõe a piada, pois nitidamente os dois camponeses partem correndo para o morro antes mesmo do general conseguir lhes avisar da facilidade escondida.

Outro bom momento envolve um plano inteligente de Rokurota para atravessar a fronteira de modo legal, sem precisar travar batalhas com soldados inimigos. Permitindo a travessia do grupo, pouco tempo depois o capitão da fronteira é avisado sobre a viagem proibida que escolta a princesa Yuki que ele acabara de garantir passagem. É uma ironia ingênua, mas eficiente para a proposta popular da obra.

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Aliás, essa natureza talvez seja onde Kurosawa erra demais ao tentar conferir esse tom “descontraído” da obra, afinal se trata de outra grande produção com cenas que até visam homenagear a icônica sequência da Escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin. Kurosawa entende o “descontraído” com o “exagerado”. Os personagens não cativam pela caricatura, além de Rokurota que chega a ser minimamente interessante em sua jornada gloriosa para proteger a princesinha mimada chatíssima que berra ao falar, a narrativa é atrofiada pendendo sempre para deus ex machinas e conveniências narrativas fazendo o grupo ser extremamente sortudo em todos os entraves – incluindo uma reviravolta final absurda, mas relativamente justificada, além de um final dilatado em excesso para conferir uma recompensa anticlimática para os camponeses sugerindo alguma mudança catártica nunca vista no filme.

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De fato, dilatação é o que define A Fortaleza Escondida. Kurosawa erra ao apostar que seu filme tem fôlego para sustentar 140 minutos de exibição somente com a força do elenco e da natureza repetitiva dos conflitos. Como o grupo é um tédio completo de acompanhar, em poucos minutos o filme também tem seu ritmo prejudicado.

Esse é o primeiro filme que Kurosawa trabalharia com o TohoScope, a variante japonesa da técnica Cinemascope, permitindo enquadramentos mais amplos horizontalmente. Rapidamente vemos como o diretor se adapta bem a mudança de formato, mesmo que não haja uma intensa obsessão por enquadramentos perfeitos como havia feito em seu filme anterior. Como a história do longa se vale de uma intensa caminhada a céu aberto, Kurosawa usa o formato para capturar paisagens belas e grandiosas, além de usar, como sempre, a profundidade de campo de modo eficiente para estabelecer maior distância entre os elementos em cena.

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Fica nítido que Kurosawa se dedica inteiramente em criar duas set pieces maravilhosas sendo a primeira envolvendo uma rebelião de escravos – aqui o diretor captura o movimento massivo de uma multidão raivosa, e o duelo perfeito de Rokurota contra um antigo rival em uma luta fabulosa com lanças antecedida por uma perseguição rápida e intensa. No duelo, enfim, apesar da grande predominância de planos abertos para deixar a ação fluir exibindo a fantástica coreografia, nota-se que Kurosawa começa a usar um pouco mais da linguagem clássica do cinema samurai. Mas apenas com o som, pontuando o clima através de uma trilha musical repleta de pausas e pequenas explosões.

A Frágil Fortaleza

Em uma obra estranha, Kurosawa comete diversos equívocos para tornar esse filme popular em uma espécie de épico mal concebido. O conceito proposto se esgota rapidamente e os fracos personagens não inspiram muito fascínio para aguentar a extensa jornada fornecendo algum prazer ao espectador. Mesmo que tenha servido como grande inspiração para a franquia milionária de George Lucas, A Fortaleza Escondida é uma obra frágil demais de um cineasta que simplesmente é eficaz em fazer grandes épicos samurais de drama. A comédia em uma aventura exagerada, certamente não foi seu forte.

A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no san-akunin, Japão – 1958)

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Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni, Shinobu Hashimoto, Ryûzô Kikushima
Elenco: Toshirô Mifune, Minoru Chiaki, Katamari Fujiwara, Susumo Fujita, Takashi Shimura, Misa Uehara
Gênero: Comédia, Aventura
Duração: 139 minutos.

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https://www.youtube.com/watch?v=VBBeeOdQRiE

Tags: #Akira Kurosawa #Hideo Oguni #Katamari Fujiwara #Minoru Chiaki #Ryûzô Kikushima #Shinobu Hashimoto #Takashi Shimura #Toshirô Mifune
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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