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Catálogo

Crítica | Katyn – Um Massacre Ignorado

Wajda coloca Katyn em evidência.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
20 de março de 2018 · 8 min de leitura
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Há certas bizarrices no olhar Humano sobre a História do século XX, o mais sangrento de todos. Infelizmente, certos massacres nunca são relembrados como se deve. Isso acontece com grande frequência sobre os crimes cometidos durante o período mais violento da União Soviética que durou até a morte de Stálin. Entre holocaustos inteiros que muita gente nunca ouviu falar – como o tenebroso Holodomor, ou o massacre de Katyn no qual vinte e dois mil soldados poloneses foram exterminados de modo sistemático – assim como os judeus nos campos de concentração nazistas.

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Não fosse Andrzej Wajda, o genocídio ocorrido nas florestas de Katyn não seria tão facilmente relembrado, afinal é um ocorrido que revela o quanto o governo de Stálin foi assassino. Para quem conhece o cinema de Wajda, já sabe que seus filmes são profundamente politizados vide os clássicos O Homem de Mármore e O Homem de Ferro que trazem retratos apurados sobre o início da reconquista da liberdade da Polônia contra a União Soviética.

Porém, talvez seja adequado dizer que Katyn é o filme mais pessoal e também político de toda a carreira do importante cineasta. Wajda viu e sentiu o pior momento da Polônia na pele quando a União Soviética e a Alemanha Nazista invadiram seu país e o dividiram em dois, ignorando a soberania do país e dando origem a toda a Segunda Guerra Mundial.

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Como todos sabem, a guerra é um jogo de estratégia e Stálin fez uma aposta bem no início do confronto enquanto ainda era aliado de Hitler: eliminar a força combatente e intelectual do país. Por conta da maioria dos soldados fazerem parte da força trabalhadora polonesa, o extermínio de todo esse exército conseguiu deixar o país de joelhos depois da queda do Terceiro Reich. As promessas do Ocidente em não permitir o avanço de Stálin depois do fim da Guerra foram quebradas e rapidamente a Polônia virou uma república socialista anexada ao Bloco do Leste.

Com apenas treze anos na época, Wajda não viu somente seu país perder a soberania, a liberdade e diversos dos habitantes mais importantes da sociedade, mas também sofreu com a morte de seu pai justamente assassinado ao lado de seus compatriotas nas florestas de Katyn. Justamente por isso que há um esforço notável de Wajda em fazer o melhor possível para honrar a memória daqueles que foram covardemente assassinados.

Memória Eternizada

É preciso de todo esse contexto para compreender Katyn, já que Wajda não está minimamente interessado em oferecer uma narrativa clássica. O cineasta traz, eficientemente, um retrato sobre os dias de ocupação soviética e nazista na Polônia até a completa permanência soviética no final da Guerra.

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O longa tem início justamente no dia da invasão, exibindo diversos cidadãos desesperados se encontrando em uma ponte na qual os dois lados fogem de um invasor perigoso diferente até perceberem que não há saída, estão totalmente encurralados. Nesse cenário, a jovem mãe Anna (Maja Ostaszewska) procura desesperadamente seu marido, Andrzej (Artur Zmijewski), um oficial de alto escalão do capturado e rendido exército polonês.

Porém, Andrzej é realocado pelos soviéticos em um dos muitos campos de concentração até ser transferido para o derradeiro e sombrio destino que o aguarda em Katyn. Apesar deste ser o foco principal do longa, a abordagem narrativa é fragmentada sendo transmitida através de diversos pontos de vista das mulheres e filhos que foram experimentaram a tragédia irreparável da morte violenta de entes queridos enquanto tentavam sobreviver em um país ocupado e totalmente rendido por duas potências pérfidas.

Com essa liberdade narrativa, Wajda consegue exibir eventos importantíssimos sobre a ocupação como as perseguições, assassinatos escondidos, fechamento das universidades, intensa propaganda alienatória, falta de energia e alimentos, entre outras coisas. Cada ponto de vista traz essas características que realmente oferecem uma atmosfera aterradora da vida naquela época.

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Enquanto essa abordagem é interessante e bastante rica, também compromete o desenvolvimento dos personagens e do drama “fictício” que Wajda cria como ponto principal da narrativa. Apesar do espectador ficar horrorizado com a situação dos personagens, é difícil gerar uma reação emocional que o diretor deseja, pois há sim bastante melodrama aqui. Como os personagens são muito desconhecidos e de características iniciais um tanto rasas, o efeito acaba se tornando um pouco piegas, longe do ideal dramático que outras sequências evocam.

Há outros dois temas bastante debatidos aqui. Um é eficaz e outro é genial. O primeiro envolve o passar dos anos nos quais as protagonistas já sabem que ocorreu o massacre de Katyn provocado pelos soviéticos, já que diversas listas com o nome dos mortos são divulgadas. Há um jogo de esperança vs. realidade que rende reviravoltas boas e inicia o melhor drama do filme: a culpa de ignorar o crime dos verdadeiros responsáveis pelo massacre.

Wajda é bastante didático para fazer o público compreender através de uma exposição de vídeos de arquivo que o massacre foi realizado pelos soviéticos, mas que, após a derrota da Alemanha na Guerra, rapidamente a culpa do genocídio foi jogada para o lado perdedor. Logo, os sobreviventes de Katyn que foram cooptados pelo novo sistema socialista empregado para reestruturar a Polônia ficaram em um limiar perigoso: assumir a verdade indesejada e morrer ou conviver com uma das mentiras mais terríveis da História para sobreviver nessa novo e nada promissor país?

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Esse conflito enreda três pequenas narrativas muito fortes envolvendo culpa, resistência e a negação da memória para os mortos. Os conceitos são formidáveis e dialogam diretamente sobre como uma nação assume os piores pecados para sobreviver, de modo similar ao que aconteceu aos parisienses sob ocupação nazista.

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O longa também se torna mais amarrado neste terceiro ato poderoso no qual Wajda encontra uma solução condizente e justificada para assumir o flashback que mostra de fato toda a crueldade e frieza da matança silenciosa na floresta.

Filme Testamento

É justamente nesse ponto que a direção de Wajda se torna mais, digamos, característica do diretor. A câmera na mão se torna mais expressiva, as imagens são mais fortes e há um grau mais poético de experimentação cênica inclusive se valendo de um jogo de montagem muito bonito no qual uma reza do Pai Nosso é mostrada em diferentes trechos sendo proclamada por diversos soldados segundos antes de serem executados e jogados como lixo em uma vala comum.

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Do aperto claustrofóbico dos transportes até o local de execução, para o súbito desespero dos homens ao perceberem que seriam executados ao adentrarem um bunker sombrio, até a frieza sádica dos sovietes ao matar milhares de homens de modo sistemático, Wajda simplesmente captura tudo com seu olhar repleto de tristeza.

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Aliás, mesmo que Katyn seja o filme Wajda “menos” Wajda, o realismo sempre tão prezado pelo diretor é firme e presente em toda a projeção. O cuidado da recriação da Polônia de 1940 é formidável conferindo uma falsa impressão de viagem no tempo de tão minucioso que é o cuidado com figurinos, penteados e cenários, além de momentos encenados realmente grandiosos aglomerando multidões inteiras.

Também por ser um dos poucos blockbusters que Wajda dirigiu, além de ser um filme para honrar a memória dos mortos, o diretor assume um tom de cenografia bastante clássico com enquadramentos ornamentados e equilibrados fugindo do caos estético que o cineasta flertava em outros momentos de sua carreira. Ainda que tenhamos uma paleta de cores fria e bastante monocromática aliada a uma iluminação muito bem-feita, mas igualmente sombria, Katyn é um longa extremamente belo, principalmente no visual.

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Mas isso não retira o mérito da trilha sonora, principalmente a musical composta por Krysztof Penderecki que se vale de muitos tons graves e acordes densos do violoncelo para conferir a iminência de um terror inescapável e praticamente invisível.

Coragem em Forma de Filme

Wajda sempre foi um fervoroso cineasta contra o regime socialista instalado à força na Polônia. Seus filmes colocaram o cinema polonês no mapa como um dos mais importantes do mundo e ele tinha plena consciência da importância deles como registro. Justamente por isso que Katyn é um longa que não deve ser esquecido ou ignorado como ocorreu por tempo demais com o massacre ocorrido nas florestas de Katyn.

O cineasta teve a coragem de apontar que os soviéticos eram tão desprezíveis quanto os nazistas e que um de seus maiores líderes provocou a miséria de sua nação. Nos primeiros minutos de exibição, Wajda já mostra que não está para tratar o tema com panos quentes e já mostra oficiais nazistas e soviéticos se cumprimentando, além de outros rasgando as bandeiras polonesas, brancas e vermelhas, deixando apenas o vermelho comunista nos mastros simbolizando perfeitamente o tratamento que os invasores tiveram com os invadidos: completo desprezo e autoritarismo.

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Wajda não se rendeu e ignorou os crimes soviéticos como o Ocidente fez por longos anos. Até mesmo na época da realização de Katyn, houve certa resistência da Rússia em entrar em um consenso oficial sobre os eventos ocorridos na floresta (no fim jogaram a culpa em Stálin, mas diminuindo bruscamente a contagem oficial do número de mortos).

Através de Katyn, a memória dos mortos foi honrada e a verdade tornada imortal, mas mais importante, acessível.

Katyn (Idem, Polônia – 2007)

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Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Wajda, Przemyslaw Nowakowski, Wladyslaw Pasikowski, Andrzej Mularczyk
Elenco: Andrzej Chyra, Maja Ostaszewska, Artur Zmijewski, Danuta Stenka, Jan Englert, Magdalena Cielecka
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 122 minutos

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Tags: #Andrzej Wajda #Maja Ostaszewska #Oscar
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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