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Lizzie Borden pegou um machado
E deu a sua mãe quarenta golpes.
E quando ela viu o que tinha feito,
Ela deu a seu pai quarenta e um.

A história de Lizzie Borden pode não ser tão conhecida pelo público brasileiro, mas certamente faz parte da cultura estadunidense com uma força muito maior do que poderíamos imaginar. A jovem socialite do fim do século XIX foi, de acordo com o que falam acerca de seu nome, responsável pela cruel matança do pai, um rico empresário, e da madrasta, dilacerando-os com quarenta machadadas cada um. Apesar de julgada num tribunal, cuja repercussão atingiu até mesmo o mesmo nível do caso O.J. Simpson mais de um século depois, ela foi inocentada por falta de evidências, e mesmo assim a própria comunidade onde vivia começou a espalhar boatos sobre o que a motivaria a realizar tais atos – incluindo um suposto caso de amor com sua empregada, Bridget Sullivan. Relembrada até hoje, Lizzie foi até mesmo transformada em cantiga infantil e, agora, trazida para as telonas em uma perspectiva mais dramática e tensa.

Entretanto, por mais que as intenções do diretor Craig William Mcneill tenham sido as melhores, seu filme transformou-se em um festival de monotonia narrativa, permanecendo em um único tom durante toda a trajetória da personagem-título, optando por convencionalismos do gênero ao invés de ousar e buscar uma originalidade para as produções de época. Em meio a tanto misticismo que rondava a família Borden e a figura central dos homicídios, o showrunner Nick Gomez alcançou o patamar desejado por Mcneill em duas minisséries em formato de docudrama – e Christina Ricci também conseguiu um pouco mais de prestígio que Chloë Sevigny interpretando o mesmo papel.

Lizzie (Sevigny), primogênita da família Borden, sempre se sentiu presa dentro de casa e nunca se conformou em viver dentro dos limites que seu pai, Andrew (Jamey Sheridan), lhe impusera. Para a época, viver em um ciclo de rebeldia era inaceitável, inclusive para uma moça tão madura quanto aquela que não deveria ter se conformado com o status de solteira. De qualquer forma, Lizzie não é como as outras mulheres, sendo constante alvo de chacotas dos outros moradores de Fall River, Massachusetts – não que ela se importasse; o pai e a madrasta, Abby (Fiona Shaw), se contentaram com o papel de esconderem como sua família realmente é em prol de uma imagem que precisam, por algum motivo, manter para os outros. E talvez essa necessidade de se provar para os outros, de se importar com a opinião alheia, é o que a tenha levado a cometer atrocidades indescritíveis.

Nessa nova versão, a protagonista assassina seus pais, auxiliada pela força e pela presença de Bridget (Kristen Stewart), uma imigrante que vai para os Estados Unidos em busca de recursos para cuidar de sua família e é contratada pelos Borden. Bridget é construída dentro de uma bolha tímida e recatada, mas que logo se afeiçoa pelos gestos gentis de Lizzie e nutre um sentimento de desespero e ódio por Andrew, o qual passa a abusar dela quase todas as noites, mesmo com a ciência da nova esposa. E, além dessa personalidade complexa, que sem dúvida é um dos poucos pontos altos da produção, é interessante ver Stewart abraçando essa personalidade, lançando-se em um adorável sotaque irlandês, bem como uma performance notável.

Infelizmente, as coisas se mantêm por isso mesmo: Mcneill, em colaboração ao roteirista Bryce Kass, parece não fazer o bastante para transformar o novelesco melodrama no que realmente deveria ser – um suspense. Para qualquer pessoa que conheça o mínimo da história, tudo o que acontece não é novo, e é por isso que o desejo de uma nova perspectiva deveria falar mais alto. Os personagens mantêm-se todos dentro de uma mesma bolha, sem características claras o suficiente que os diferenciem entre si, chegando até mesmo a confundir o espectador. E dentro de uma atmosfera tensa como a que nos é apresentada em um aplaudível prólogo, não poderíamos esperar menos que uma arquitetura angustiante, acompanhada de uma narrativa ao menos envolvente.

Porém a comoção nunca existe e reflete a zona de conforto claramente abraçada pelo cineasta. O unidimensionalismo dos atos é confrontado pelo tipo de biografia que é dramatizada – e um caso como o de Borden definitivamente merecia um pouco mais de cuidado. O trabalho cênico também não contribui muito para aumentar a tensão ou refletir o crescente romance entre Lizzie e Bridget, respaldando em um jogo orquestrado na câmera na mão, em planos “longos”, por assim dizer, e uma simetria exagerada que também não consegue conversar com a obra. Exceto por alguns momentos, principalmente em um dos quais Stewart se entrega de corpo e alma para o pièce de résistance de sua personagem e nos cativa, nem que seja por alguns segundos.

A fotografia asséptica poderia ter um respaldo mais onírico, talvez partindo da personalidade perturbada da protagonista-título, mas recusa-se a sair de uma saturada luminosidade estourada, adentrando pelas inúmeras janelas do casarão e envolvendo as personas em uma aura inexplicável e sem sentido. Sevigny até consegue fazer bom proveito de Lizzie, mas no caso só alcança uma potência maior ao lado de sua colega de cena. Entretanto, mesmo com os diálogos, as duas não desfrutam de uma química apaixonante, e sim algo crível que não ousa muito além disso.

Lizzie é medíocre, e os pontos altos não conseguem ofuscar os deslizes: ambos ocupam o mesmo espaço nos holofotes do longa-metragem, alguns falando mais alto do que outros, mas sem grande disparidade. E foi essa decisão de se manter num drama biográfico convencional que impediu que o fabulesco conto de Lizzie Borden ganhasse uma releitura merecida.

Lizzie (Idem – EUA, 2018)

Direção: Craig William Macneill
Roteiro: Bryce Kass
Elenco: Kristen Stewart, Chloë Sevigny, Fiona Shaw, Kim Dickens, Denis O’Hare, Jamey Sheridan
Gênero: Biografia, Crime, Drama
Duração: 105 min.

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