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Crítica | Longe do Paraíso – Além das Aparências

Em Longe do Paraíso, nenhum dos três personagens principais pode ou consegue levar facilmente a vida que deseja.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
23 de janeiro de 2018 · 4 min de leitura
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Abaixo do elemento cósmico presente em todas as tragédias melodramáticas há uma realidade social imprescindível. Na cultura e principalmente na literatura ocidentais, o embate que movimenta as grandes histórias sempre é o do indivíduo contra a sociedade. De um lado, o sujeito com as suas predileções, objetivos e planos; do outro, o coletivo cujos valores enraizados em algum ponto indefinido da história quase nunca são parecidos com os do primeiro. Na maior parte do tempo, em vez de uma superação dialética (para usar termos aristotélicos), o que há é um confronto em que o derrotado mais comum costuma também ser o mais fraco.

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Em Longe do Paraíso, nenhum dos três personagens principais pode ou consegue levar facilmente a vida que deseja. A protagonista Cathy Whitaker (Julianne Moore), embora desperte tardiamente, se vê presa num casamento em ruínas, ao mesmo tempo que se apaixona por Raymond Deagan (Dennis Haysbert),  jardineiro que trabalha na casa; este, por sua vez, também se encontra apaixonado por ela, porém é impedido pela situação matrimonial de Cathy e pelo racismo característico dos Estados Unidos da década de 1950; e, por fim, Frank Whitaker (Dennis Quaid), o marido da protagonista, é homossexual e luta internamente contra isso não só para manter uma aparência social como também para vencer o próprio preconceito.

Nesse emaranhado de paixões, amores e descobertas conflitantes, o que existe em comum é a preponderância da sociedade em detrimento do indivíduo. Nos filmes de Todd Haynes, essa espécie de guerra desigual é recorrente. Em Mal do Século, por exemplo, apesar de não ser a sociedade como um todo a principal inimiga, são os confortos de um determinado estilo de vida que anulam dentro da própria protagonista a sua identidade. Na relação umbilical entre conteúdo e forma, isso se refletia através de uma estética paralisante e quase imóvel.

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Já em Carol, assim como em Longe do Paraíso, além do fato do vilão invencível ser o coletivo social, Haynes optou pelo formato dos melodramas dirigidos por Vincente Minnelli e principalmente por Douglas Sirk. No caso específico de Longe do Paraíso, chama atenção o leque de recursos dispostos em cena. Há um trabalho cuidadosos com a textura e a paleta de cores da época (com um destaque especial para a explosão de azul em um diálogo entre Cathy e Frank, característica comum de Sirk), letreiros típicos da década, uma trilha sonora particular, fusões complexas e uma mise-en-scène cuidadosa e atenta ao trabalho teatral dos atores.

A olhos incautos, isso corre o perigo de parecer uma perfumaria estilística desprovida de maiores significados. No entanto, ao recorrer a essa estética e aos filmes que eram feitos nos anos retratados em Longe do Paraíso, Haynes encontrou o território perfeito para fazer o seu cinema referencial e apresentar a subversão contida em sua história. Nos melodramas de Minnelli e Sirk, apesar de os personagens encontrarem forte resistência das pessoas que estavam ao redor ou das situações em que estavam inseridos, os sentimentos daqueles anos permanecia presente e não era fortemente confrontado pelos autores.

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Já no filme de Haynes nota-se a coragem de usar esse contexto cinematográfico para representar grupos parcialmente marginalizados, os quais apareciam raramente nesse tipo de cinema. Os desejos mais oprimidos pelos valores daquela sociedade se tornam os protagonistas de Longe do Paraíso, como as atrações homossexual e inter-racial (o outono representando o cair da casa de cartas e o inverno simbolizando a tristeza posterior é de enorme sensibilidade). Também há o mérito de mostrar como, às vezes, o elemento contrário se encontra justamente nos sujeitos que mais o desprezam e fazem de tudo para combatê-lo. Trocando em miúdos, os aspectos externos são interiorizados e para destruí-los, luta-se contra uma parte de si mesmo.

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O desdobramentos e os resultados disso tudo constituem a essência do filme. São nos pormenores e nas consequências de certas ações que a câmera do diretor se posiciona e extrai os melhores momentos. E partindo da constatação feita na primeira linha deste texto, o aspecto cósmico e social da tragédia só pode ser evitado através da conquista da autonomia. Caso contrário, o destino e as engrenagens da sociedade engolem tudo o que está a frente.

Longe do Paraíso (Far From Heaven – EUA, 2002)

Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes
Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, Viola Davis
Gênero: Drama
Duração: 108 min.

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Tags: #Cinema #crítica #Dennis Quaid #Douglas Sirk #Filme #Julianne Moore #Mal do Século #Melodrama #Todd Haynes #Vincente Minnelli #Viola Davis
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