Se há um subgênero do terror que nunca sai de moda esse é o do terror sobrenatural, em que um espírito ou uma entidade demoníaca se apodera de algum corpo ou se utiliza de sua energia negativa para criar pânico e caos na vida dos envolvidos. Clássicos antigos como O Exorcista e mais recentemente Atividade Paranormal, souberam como ninguém criar medo com uma boa história e usando de elementos que criassem esse cenário assustador para a trama. Essa questão dos sustos (ou a falta deles) é apenas uma das coisas que mais chama a atenção em Maligno (The Prodigy). 

Uma produção que tem como protagonista um garoto que assombra sua família por meio de uma dessas entidades que se escondem em um corpo e que tem como proposta o horror, falha feio em criar essa atmosfera assustadora. O principal defeito do filme é justamente a falta dos principais componentes desse subgênero. É um longa que tenta dar medo pelo suspense criado em torno do garoto, mas que não funciona, pois já se sabe que o menino é maldoso desde o início e ao criar todo um mistério acerca do que ele vai fazer é algo que não funciona, ainda mais que o próprio roteiro já pré mostra o que vai anteceder os acontecimentos.

Essa obviedade na construção do horror do roteiro tira bastante da carga assustadora que um filme desse poderia trazer ao público. Não é uma produção que o telespectador vá se assustar ou ter medo, até porque o foco do diretor Nicholas McCarthy (Pesadelos do Passado) é outro. A ideia é a de fazer uma produção com um pé no sobrenatural, mas com o foco em deixar claro que o garoto é um sociopata, uma criança que nasceu maldosa e por isso comete as diversas atrocidades apresentadas no longa.

Em muitos momentos não se sabe qual caminho que o diretor quer tomar, justamente por fazer com que o filme seja hora criminal hora sobrenatural. O roteiro se mostra confuso em não saber como resolver essas duas questões, mesmo o telespectador já sabendo qual o tema principal do filme e o que é essa tal energia que está no garoto e que o faz cometer tais atos.  Essa falta de decisão em focar em algo fica bastante claro no primeiro e segundo ato, com a decisão já tomada no terceiro ato em que as situações se desenrolam. 

Um fator que ajuda a matar o suspense da trama é o excesso de mistério em nos mostrar quem está praticando os atos estranhos na residência, algo desnecessário já que o próprio filme já nos mostrou que o garoto é maligno. Também há a questão em querer esconder os atos do garoto, não os mostrando muito explicitamente e deixando que tais práticas sejam melhores mostradas no ato final. Não há uma agilidade quanto a narrativa apresentada, tudo é mostrado com uma certa demora, algo que em algumas cenas dá certo sono.

Um acerto desta produção é a tentativa em evitar clichês famosos no gênero, na verdade chega até ser estranho não ver esses clichês usados a rodo, já que muitos deles caberiam em várias cenas que pareciam ter sido criadas para esse fim, mas que acabaram tomando outro caminho que não o da obviedade em relação a essas situações. O diretor parece não querer fazer com que o personagem cometa atos que já são esperados pelo público, mas acaba caindo nesses clichês justamente por não saber o que fazer com a história. É estranho dizer isso, mas tais clichês fazem falta em uma produção do gênero, ainda mais em alguns momentos em que se espera que eles apareçam. 

Miles Blume (Jackson Robert Scott) é o menino antagonista, é um vilão ao estilo de Damien em A Profecia que era o mal em reencarnado, e também lembra a garota do filme a A Órfã. O trabalho de criação desse vilão é bem construído, primeiro ao mostrar um garoto inocente e simpático, mas que por trás daquela máscara existe um mal escondido e que precisa ser libertado para que as atrocidades sejam cometidas.

Não é algo novo colocar uma criança com cara de ingênua para cometer crimes. O Anjo Malvado (com atuação espetacular de Macaulay Culkin) já trazia uma criança extremamente maldosa como antagonista. Mesmo não sendo nada novo há de se dar o braço a torcer que crianças que cometem crimes sempre são uma solução para roteiros rasos, pois é só as colocar em cena cometendo algum crime que já facilita na hora de dar uma dinâmica para a história. 

A mocinha da trama ou possível heroína é mãe do garoto, interpretada pela atriz Taylor Schilling que se sai bem como protagonista, consegue prender a atenção do público, mesmo não sendo uma personagem excelente. As cenas de investigação em que ela procura saber o que acontece com o filho são as mais interessantes do filme, e com sua atuação eficaz facilita em segurar a atenção do público em frente a tela. 

Maligno não é um filme ruim, é apenas um longa que foi feito para apresentar um tema, mas que acaba por ficar preso nessa questão principal. Algo parecido ocorreu em A Órfã, em que todos queriam saber o que raios a garota tinha de errado. Em Maligno há a tendência de logo de cara já mostrar que há algo de errado há com o garoto e a partir de então fica preso em querer impressionar de alguma forma, algo que só acontece realmente nos últimos 20 minutos. Quem curte uma produção de suspense com crianças como foco principal da história não ficará decepcionado, agora quem procura se surpreender talvez não fique convencido com o que vai assistir. 

Maligno (The Prodigy, EUA – 2019)

Direção: Nicholas McCarthy
Roteiro: Jeff Buhler
Elenco: Jackson Robert Scott, Taylor Schilling, Peter Mooney, Col Feore, Paul Fauteux, Brittany Allen, Paula Boudreau Elisa Moolecherry
Gênero: Horror, Thriller
Duração: 97