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Crítica | Minha Vida de Abobrinha

A animação em stop-motion é uma técnica que teima em resistir em um mundo onde a animação em 3D impera. Difícil de produzir, leva-se anos para concluí-la e, na maior parte dos casos, não há o mesmo retorno financeiro que as animações produzidas em computação gráfica. Para o grande público, existem apenas dois sobreviventes do movimento, os ingleses do estúdio Aardman Animations (Wallace & Gromit, Fuga das Galinhas, Piratas Pirados), e os americanos do estúdio Laika (Coraline, Paranorman e Kubo). Mas há vida para esse tipo de animação em outros lugares, como é o caso do diretor Claude Barras, que há algum tempo vem produzindo curtas no gênero e finalmente pode mostrar sua técnica com o novo filme, adaptação de um livro escrito pelo autor Gilles Paris, Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie De Courgette, 2016).

A animação franco-suiça conta a história de Icare (apelidado de Abobrinha), criança de 9 anos que, após a morte súbita de sua mãe, acaba sendo levado para um orfanato. Neste lugar, Abobrinha conhecerá outras crianças, que como ele, tiveram experiências traumáticas com seus pais. A procura de um amor fraterno e um passado traumatizante, todas as crianças dividem o mesmo fardo. Tal fardo que as transformou, fizeram-nas do jeito que Abobrinha encontra no início do filme.

As crianças são o ponto alto da película, com pensamentos existencialistas e mais maduros do que os adultos ao seu redor, a animação nunca esquece de que apesar de tudo elas ainda são crianças. Ainda brincam, fazem estripulias, tentam entender como é esse tal de amor e como isso leva os adultos a transpirarem muito e deixarem o “piu-piu explodir”. Outro elemento que ajuda muito na caracterização é o excelente elenco infantil na dublagem original, com vozes que transparecem a genuinidade dos diálogos.

Apesar do passado triste das crianças, o filme acaba sendo um sopro de esperança em seus futuros. Ao contrário do tom pesado nos diálogos que remetem às suas trágicas histórias, a trama equilibra bem o tom do filme e se torna aconchegante.

A animação consegue dar maturidade e camadas para os personagens sem perder sua essência e não confiná-los a apenas estereótipos do gênero. Simon, por exemplo, é um garoto que não é apenas o bully da história. Ele evolui de tal jeito durante o filme que ao final dele se torna um personagem completamente diferente do que é proposto no início. O roteiro não tem vergonha de discutir temas pesados quando se trata dos parentes ausentes das crianças, como abuso infantil e uso de drogas e álcool. Cada uma é bem explorada no roteiro e tem seu espaço no longa. Ao final, nos sentimos extremamente familiarizados com elas e até com certa vontade de continuar acompanhando suas jornadas ao final dos breves 60 minutos de filme. E isso é infelizmente um dos pontos negativos, já que o filme em alguns momentos parece passar rápido demais em alguns problemas e não há um senso de perigo tão grande. Alguns minutos extras não fariam mal para o desenvolvimento de certas passagens.

Indicado a melhor animação ao Oscar, à primeira vista já é possível perceber a razão pela ovação nos prêmios internacionais. A técnica de stop-motion da animação é extremamente fluida e com um cuidado muito particular nos detalhes dos cenários. Barras escolhe locais menores e fechados para dar ênfase na qualidade da animação dos personagens, ao mesmo tempo que prioriza o diálogo e a interação entre eles.

A direção de arte intensifica as emoções dos personagens e seus formatos dizem muito sobre cada um deles. Os olhos grandes, corpo pequeno e braços cumpridos, cada personagem tem sua identidade realçada pelos detalhes visuais. Das cores no cabelo, nas olheiras e nas roupas.  A trilha sonora de Sophie Hunger também é um ponto forte, extremamente eclética, misturando ritmos de rock, jazz e blues.

Minha Vida como Abobrinha é uma linda e intimista animação em stop-motion francesa, que ganha o espectador pela forma madura de como desenvolve os temas de seus personagens. Abobrinha e seus amigos são crianças, entendem o mundo como crianças, mas refletem o abuso que sofreram através da auto-reflexão e a compreensão de seu papel no mundo adulto. Uma ótima estreia para o diretor Claude Barras.

Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie De Courgette, Suíça, França – 2016)

Direção: Claude Barras
Roteiro: Céline Sciamma, Claude Barras, Germano Zullo, Morgan Navarro
Elenco: Gaspard Schlatter, Sictine Murat, Paulin Jaccoud, Michel Vuillermoz, Raul Ribera, Estelle Hennard, Elliot Sanchez, Lou Wick
Gênero: Animação, Drama
Duração: 66 min

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Publicado por Rodrigo Ribeiro

Jornalista e aficionado por games e cultura pop. Acredita que os games podem ser considerados uma forma de Arte e que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas parassem de brigar na internet e voltassem a jogar seus queridos videogames.

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