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Catálogo

Crítica | Não Amarás – Os Perigos da Paixão Platônica

O amor em toda sua imperfeição.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
22 de março de 2018 · 4 min de leitura
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Às vezes, a genialidade vem puramente do simples. O Decálogo, primeira obra-prima de Krzysztof Kieslowski, tem vários episódios geniais na antologia, porém dois deles se tornaram longas-metragens completos com importantes diferenças entre as duas versões. É o caso de Não Amarás, anteriormente o sexto episódio da série, transformado em filme.

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É fato que a narrativa de Não Amarás, apesar de lenta, possui enorme potencial para ser tratada com maior densidade, afinal é uma história que precisa de tempo para ser contada para não soar artificial. Isso ocorre por conta da característica mais marcante da narrativa: o bisbilhotar da vida alheia.

A Primeira Noite de um Homem

Tomando firmemente a ideia voyeurística de Janela Indiscreta, Kieslowski apresenta a vida do virgem de dezenove anos, Tomek, um garoto obcecado por uma bela mulher que mora no prédio diante do seu. Com uma rotina fixa e solitária, o jovem tem seus momentos de prazer ao espionar, religiosamente, a misteriosa moça todos os dias da semana. Impelido por um amor platônico e idealizado, o jovem passa a modelar sua rotina e usar os recursos à sua disposição para tentar conhecer sua paixão e conquistá-la.

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Kieslowski, assim como em Não Matarás, não entra no mérito da atividade imoral que o jovem faz para saciar seus desejos e acalmar sua ansiedade. As lentes do diretor apenas mostram, com muito silêncio, toda ingenuidade do rapaz que consegue afetar a vida da mulher, com traquinagens, toda vez que ela faz algo que o desagrada, provocando ciúmes – como deitar com diferentes homens.

Também é particularmente curioso que o nível da ingenuidade do menino não chega nem mesmo a conter malícia, pois ele não se masturba e nem ameaça a vida da mulher. É apenas um stalker que não se faz ser notado de forma alguma, até criar coragem para conhecer a mulher. De fato, toda a primeira metade é focada no ponto de vista de Tomek no qual Kieslowski sempre traz pequenos acontecimentos mundanos da vida comum para manter o interesse do espectador ativo.

Tudo isso é eficaz por conta do uso intenso de câmera subjetiva para vermos com os olhos do bisbilhoteiro toda a rotina e as diferentes emoções que a mulher experimenta. Inevitavelmente, os dois acabam se encontrando com o protagonista revelando seu hábito indecente para ela, Magda. Isso ocorre já em um momento próximo da exaustão do desenvolvimento de Tomek e suas espionagens. Logo, nota-se que Kieslowski tem plena noção do ritmo necessário para o filme sofrer as principais reviravoltas.

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A mudança é bem-vinda por trazer uma dinâmica de relação amorosa bastante original que sofre diversas transformações indo de completo repúdio, para pena até mesmo culpa. Por eventos derradeiros ocorridos neste miolo, o diretor é muito inteligente ao trocar o ponto de vista da narrativa colocando a observada como observadora. Ou seja, Magda se torna stalker de Tomek, assim como muda-se o foco do amor.

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Como o espectador acaba preso com Magda, não temos consciência do que houve com Tomek por uma boa parte de tempo até a conclusão final que traz uma das catarses mais bonitas de qualquer romance dramático que eu já tenha visto. A poesia metafórica do final une diversos pontos que o diretor trabalha ao longo do filme pertinentes ao que conhecemos do sofrimento de Magda e dos esforços de Tomek para se aproximar dela. Logo, por conta desse resgate em uma cena de imaginação, no momento mais frágil de Magda, o espectador tem a plena ciência de quanto o amor pode ser sagrado e edificante.

O Amor em Duas Vidas

Com um trabalho simples, tanto no roteiro quanto na câmera, Kieslowski desmonta paradigmas ao trazer essa peculiar história de amor repleta de pequenas reviravoltas apaixonantes que evocam certo suspense angustiante. Essa é uma grande narrativa de amor cheia de imagens íntimas, eróticas ou não, que certamente tem toda a capacidade de prender sua atenção até o final do longa.

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A contradição do amor nunca foi tão bem retratada por um olhar muito humano.

Não Amarás (Krótki film o milosci, Polônia – 1988)

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Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Grazyna Szapolowska, Olaf Lubaszenko, Stefania Iwinska
Gênero: Drama, Romance
Duração: 87 minutos

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Tags: #Krzysztof Kieslowski #Krzysztof Piesiewicz
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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