Cinema

Crítica | Não Fale o Mal usa a velha fórmula de refazer uma boa ideia (e estragá-la)

Não Fale o Mal está longe de ser o primeiro filme estrangeiro destruído em sua versão norte-americana.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
5 min de leitura

Diz a lenda que o visionário produtor da Hollywood clássica, Irving Thalberg, fazia questão de ser fiel aos livros e peças de teatro que adquiria sempre que levantava suas produções. Ele acreditava que, quando você adapta uma obra original de sucesso, nunca sabe realmente qual o segredo do êxito, e portanto o mais razoável seria sempre permanecer o mais próximo possível do material original.

Agora, vamos saltar quase um século para frente até chegarmos a 2024: Não Fale o Mal é a refilmagem norte-americana da produção dinamarquesa de mesmo nome e lançada em 2022. Nos dois filmes, a trama parte de uma situação corriqueira: de férias na Toscana, dois casais com um(a) filho(a) acabam fazendo amizade e combinam vagamente de voltar a se ver em breve. Um dos casais vive em Londres e passa por uma crise matrimonial; o outro casal vive no campo e convida o primeiro para um final de semana de isolamento e passeios ao ar livre. Marido e mulher aceitam e partem na viagem levando sua menina.

Como você estraga uma boa ideia trocando originalidade por repetição de clichês em Não Fale o Mal

O original (dirigido por Christian Tafdrup e roteirizado por ele e por Mads Tafdrup) é mais um dos filmes muito interessantes do circuito independente que não dão as caras por aqui. Colecionou prêmios e indicações a ponto de chamar a atenção de Hollywood, que comprou o roteiro para uma nova versão em inglês. É de se imaginar (usando lógica elementar) que, se o filme tem qualidades a ponto de valer a pena fazer uma nova versão (com elenco famoso e mais alcance de mercado), é pelo que ele tem de diferente e não por ele repetir chavões e situações que vemos todos os dias em filmes do gênero. Logo, o mais natural seria que a refilmagem preservasse o que ele tem de melhor: ou seja, seu diferencial.

Quem já assistiu ao filme original sabe que ele é uma crônica social muito ácida transmitida pelo diretor em forma de um filme de suspense. O resultado é incômodo e provocativo e é bem expresso em seu título: no caso, a melhor tradução para “Speak No Evil” poderia ser “Finja que não viu” ou algo parecido. As questões que o roteiro original propõe são: Até onde você finge que nada está errado apenas para preservar a polidez social e evitar constrangimento ou confrontação? Vale arriscar a cautela e o instinto de sobrevivência somente para escapar de um instante desconfortável?

A versão dinamarquesa (cuja fama é um prêmio para o rigor e a originalidade do tratamento) mantém tal premissa até o limite (ou seja, até o desfecho, que é devastador). É bizarro e incômodo do início ao fim pela fidelidade a seu próprio universo de valores e ao conjunto de conflitos sobre os quais se debruça. Não faz concessões às convenções de gênero ou ao espetáculo. Deve ser por isso que chamou atenção da indústria. E aí a indústria foi lá, fez tributo a ele e, em retribuição, destruiu o conceito na refilmagem.

Refilmagens são a nova praga da indústria

Seria ótimo que o original de 2022 pudesse ganhar maior projeção com uma distribuição de peso (chegando até mesmo ao Brasil). Mas na impossibilidade disso, a refilmagem poderia fazer o mesmo que Michael Haneke fez com seu próprio Violência Gratuita, que ele refilmou em inglês repetindo praticamente página por página do tratamento original. E é quase isso que o diretor e roteirista James Watkins faz na versão de 2024: por cerca de uma hora, a refilmagem segue os passos seguros e perspicazes no outro filme – há clima, mistério, incômodo, um diálogo repleto de coisas não ditas e pequenos mal-entendidos que vão aumentando a tensão por baixa da mesa.

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Até que ele…bem, ele desiste. Depois da metade, o que era um filme original e que não sairia da cabeça do espectador por dias cai na vala comum do jogo de gato e rato, da correria e da barulheira típicas de 95% dos filmes hollywoodianos do subgênero de “perseguição”: alguém persegue, outro alguém foge, um procura, outro se esconde, um personagem precisa “salvar o dia”, você sabe que todo mundo vai se machucar em algum nível mas, bem, no final é o de sempre.

Não Fale o Mal está longe de ser o primeiro filme estrangeiro destruído em sua versão norte-americana. Basta se lembrar da obra-prima argentina O Segredo de Seus Olhos, que virou o terrível primo gringo Olhos da Justiça, ou da desanimadora refilmagem norte-americana do clássico sul-coreano Oldboy. O espectador que assiste a qualquer das novas versões terá uma pálida noção do que era o material original.

O que sobra aqui, por sua vez, é a presença sempre poderosa de James McAvoy, cada dia mais parecido com uma versão renovada de Russell Crowe. É pouco para o filme que poderia ser o melhor de seu gênero na temporada. Irving Thalberg teria preservado mais do original – afinal, como saber se a parte que foi modificada não era o real motivo de prestígio do primeiro filme?

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