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Crítica | Nebraska – Uma comédia em tons de cinza

Poesia em Preto e Branco.

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
8 de julho de 2016 · 4 min de leitura
Crítica | Nebraska – Uma comédia em tons de cinza

Depois de um desmistificador olhar sobre a sociedade havaiana em Os Descendentes (que lhe rendeu um Oscar como corroteirista), o diretor Alexander Payne retorna com uma saudável mistura entre o humor e o drama com Nebraska, sucesso do Festival de Cannes que traz Payne e um talentoso time de volta à cerimônia da Academia deste ano.

A trama se concentra no idoso Woody Grant (Bruce Dern), que acredita ter ganhado 1 milhão de dólares em um sorteio e acaba por ficar obcecado em reclamar seu prêmio. Certo de que é apenas um golpe publicitário, seu filho David (Will Forte) promete levar o pai até o estado de Nebraska a fim de lhe garantir uma espécie de satisfação.

Em sua estreia como roteirista de cinema, Bob Nelson elabora uma narrativa muito simples e concentrada nas diferentes situações que ocorrem no caminho da jornada para Nebraska. O mais significativo deles, é certamente a visita de Woody, David e Kate (esposa do protagonista, vivida pela excelente June Squibb) à cidade natal do casal, onde acabam por encontrar parentes e colegas dos velhos tempos. Nelson acerta ao proporcionar os diálogos mais desinteressantes da face da Terra (especialmente aqueles entre a pacata família Grant), e Payne o segue com inteligência ao apostar em um ritmo lentíssimo e sem muitos cortes em tais cenas – mesmo que ocasionalmente maçante, é essencial para a criação de humor do filme. O diretor também agrada ao trazer planos divertidíssimos (como aquele em que dois sujeitos mascarados preparam-se para um ataque inesperado) e que funcionam com o timing de seu elenco – mesmo que completamente unidimensionais, é impossível não rir com os irmãos interpretados por Tim Driscoll e Devin Ratray.

Por outro lado, é interessante a decisão de Alexander Payne em rodar o filme em preto-e-branco, já que esta confere melancolia à saga de Woody Grant. Mesmo que pontualmente engraçado, o personagem do ótimo Bruce Dern é uma figura trágica (alcoólatra, solitário e ingênuo demais), e o veterano ator é eficaz ao dominar um andar manco e devagar; assim como expressões confusas e uma falha audição. E o diretor de fotografia Phedon Papamichael captura com seu inteligente jogo de luzes e sombras o tom apropriado para o longa, fazendo desejar que a Academia voltasse a dividir a categoria entre colorida e preto-e-branco, dada a incrível beleza das imagens capturadas. Além disso, a trilha sonora de Mark Orton contribui ao trazer uma curiosa mistura entre noir e country.

Novamente sobre Payne, devo apontar uma cena específica que traz uma mise en scène fabulosa e absolutamente simples, que comprova seu talento absoluto como cineasta de forma sutil. Logo após os dois filhos (Forte e Bob Odenkirk, da série Breaking Bad e a vindoura Better Call Saul) saírem do carro, Woody fica no banco de trás e sua esposa atrás do volante. Ao retornarem, não há outra decisão estética a não ser colocar Forte ao lado de Woody e Odenkirk ao lado da mãe, o que revela muito sobre seus personagens – e a qual dos pais cada um dos irmãos confere mais afeto. Um exemplo que revela um Payne mais contido, mas nem por isso menos eficiente.

No fim, é interessante observar Nebraska como uma obra sobre a auto-satisfação, mesmo que seja pautada em mentiras. Seja no suposto prêmio do protagonista, que logo desperta interesses alheios, ou em diversos momentos do último ato, o filme de Alexander Payne acerta ao analisar essa temática de forma bem-humorada e até tocante. Mas se a satisfação dos personagens aqui é pautada em elementos fraudulentos, a do espectador diante do filme é verdadeiramente genuína.

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Nebraska (EUA, 2013)

Direção: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson
Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 115 min

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Tags: #Bob Odenkirk #Bruce Dern
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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