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Catálogo

Crítica | O Deserto dos Tártaros – A Paranoia da Guerra

A despedida definitiva de Valerio Zurlini.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
3 de maio de 2018 · 5 min de leitura
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A resiliência de Valerio Zurlini parecia não ter fim. De longe, sua carreira é uma das mais sofridas dentro da História do Cinema, já que o cineasta possuía um talento similar ao dos maiores nomes do Cinema Italiano e, mesmo assim, era completamente escanteado enquanto seus colegas continuavam a receber elogios mesmo já aposentados. Talvez seja um fato que Zurlini tenha começado a trabalhar na época, concentrando a maior parte de sua carreira nos anos 1960 enquanto o mundo prestava atenção nas novidades do Cinema Francês.

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Mesmo assim, Zurlini entrou na década de 1970 com produções importantes, apesar de poucas. Em A Primeira Noite de Tranquilidade, o cineasta trouxe um panorama ideológico profundo enquanto explorava as diversas tonalidades da depressão melancólica. Em 1976, o cineasta encerraria sua carreira com o filme mais caro e mais audacioso de sua carreira: o épico solitário O Deserto dos Tártaros.

Alienação e Medo

Zurlini traz a adaptação do clássico livro de Dino Buzzati, considerado uma das obras-primas da literatura italiana. Seguindo à risco a proposta do autor, conhecemos o jovem tenente Giovanni Drogo (Jacques Perrin) que recebe alegremente a convocação de servir a guarda do Forte Bastiani, localizado nos limites do território do império que encara a vastidão do Deserto dos Tártaros, em uma eterna vigília contra os “selvagens” que lá vivem, apesar de que em toda a existência da vigília, nenhum militar ter testemunhado a existência desses nômades.

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Ao chegar em Bastiani, um forte totalmente esculpido nas rochas naturais daquele lugar desolado. Uma imobilidade eterna que faz da guarnição, literalmente, parte da geografia da fronteira. Drogo se estabelece rapidamente e ganha destaque no lugar, conquistando rivalidades e amizades ao longo dos muitos anos de serviço.

Mesmo sendo uma obra escrita durante os anos 1940, Zurlini faz uma adaptação que conversa paralelamente muito bem com a paranoia da Guerra Fria e da iminência de um conflito nuclear que nunca chegou. Dessa forma, como a narrativa atravessa décadas, temos um épico solitário mostrando uma infinidade de eventos moribundos em Bastiani que não necessariamente focam no protagonista apenas. O cineasta visa criar um lugar orgânico, mas ainda assim muito artificial pelo propósito da vigília ser um tanto absurda diante dos fatos apresentados sobre a existência dos tártaros que praticamente são uma lenda entre a guarnição.

Como temos focos muito dedicados para alguns dos colegas de Giovanni, vemos como o constante estado estressante dessa impaciente espera se reverte em agressões, síndromes de pequenos poderes, além de outros elementos repletos de paixões humanas negativas. Os únicos acontecimentos que tiram o estado perene de sobrenaturalidade daquele lugar são as raras visitas de oficiais que geram luxuosos e estranhos jantares, algumas emoções noturnas de vigílias suspeitas, as breves visitas na cidade mais próxima e, por fim, nas constantes desistências de outros integrantes da guarnição.

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Se tratando de um drama silencioso, com pouca quantidade de diálogos e muita contemplação dos ricos cenários e paisagens estonteantes, Zurlini deixa a cargo da passagem temporal para desenvolver as angústias de Giovanni que transita sempre no conflito eterno se deve ou não abandonar seu posto, mesmo quando acaba gravemente doente. O cineasta mostra um aspecto muito íntimo da vida militar e sobre a honra que os homens guardam que praticamente os transformam em uma parte vitalícia de Bastiani, mesmo que o lugar seja inóspito e nada agradável.

A vida acaba se resumindo apenas ao ofício e nada além disso. O ritmo vagaroso da montagem em um filme já excessivamente longo, transfere perfeitamente essa angústia da imobilidade, do tempo congelado e da perene situação que aqueles homens se encontram, desperdiçando vidas inteiras. Ao mesmo tempo que Zurlini cria uma crítica às guerras, também mostra a necessidade da vigília ao concluir a obra em um dos momentos mais angustiantes de sua filmografia inteira.

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Sua tristeza e desesperança transparecem com temas densos que ele traz aqui, já indicando o rápido avanço da melancolia que por fim também conduziria Zurlini para o suicídio. A solidão, a morte e a tortura de uma vida sem prazeres e alegria resplandece nas imagens sombrias e monocromáticas do lugar, além do contraste sempre evidente entre os uniformes militares com o branco amarelado do calcário de Bastiani indicando o fato de não-pertencimento e alienação.

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É uma atmosfera similar a de um museu abandonado com certo misticismo assombrado que o cerca. Zurlini nunca havia acertado tanto na atmosfera de uma obra como ocorre aqui. O trabalho de câmera, mesmo que seja sutil e muito menos movimentado que obras anteriores, possui grande precisão cinematográfica, potencializado sempre pelo uso correto da trilha musical, além da segmentação correta da montagem que compreende toda o paradoxo da atmosfera ser inquietante e, ainda assim, muito tranquila.

O Silêncio do Isolamento

Entre diversos filmes de sua carreira, O Deserto dos Tártaros certamente é um dos mais desafiadores de Zurlini. O conceito do silêncio, medo e isolamento são trabalhados de modo realmente sublime, mas exigem muito tempo em um filme já bastante longo que explora situações redundantes propositalmente para exibir essa crítica à guerra e ao medo do desconhecido. Sendo a última obra de sua vida, nota-se a grande preocupação do cineasta dar tudo de si para criar um épico solitário que poderia ser melhor lembrado pelos curadores da crítica histórica responsáveis em jogar luz a obras relativamente desconhecidas.

Difícil, indigesto e por vezes confuso, há imagens assombras aqui que mostram todo o cansaço de um artista talentoso totalmente negligenciado tanto em vida quanto na morte. Essa era a carta de despedida de Zurlini.

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O Deserto dos Tártaros (Il deserto dei tartari, Itália, França, Alemanha Ocidental – 1976)

Direção: Valerio Zurlini
Roteiro: Valerio Zurlini, Dino Buzzati, André G. Brunelin, Jean-Louis Bertuccelli
Elenco: Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Giuliano Gemma, Helmut Griem, Philippe Noiret, Max Von Sydow
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 140 minutos.

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Tags: #Jacques Perrin #Max von Sydow. #Philippe Noiret #Valerio Zurlini
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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