Com o fim da década de 1970 e a intensa guerra comercial contra a União Soviética se tornando forte, diversos países do chamado Bloco do Leste, nada menos que repúclias dominadas pela influência dos sovietes, começaram a perder os dirigentes mais “linha dura” para outros presidentes que prometiam maior abertura dos regimes muitas vezes totalitários.

Não por menos, com essas ondas de mudanças positivas, que o cineasta polonês Andrzej Wajda conseguiu realizar dois filmes extremamente políticos e contrários aos governos socialistas do leste europeu trazendo diversas das práticas abusivas do Estado contra o cidadão comum. Se inspirando no breve passado e nas greves que deram força ao partido Solidariedade do qual Lech Walesa acabou se tornando importante parlamentar em 1989, enfim, abrindo a Polônia novamente.

Porém, a sequência direta de O Homem de Mármore estreou em 1981. O Homem de Ferro é um longa politicamente ainda mais ativo que o anterior, com críticas mais explícitas, muita consciência sobre a vida e sofrimento dos poloneses que estavam na beira da fome por conta do plano “genial” de congelamento de preços, além de trazer alguns personagens importantes do filme original.

Resistência

Ainda assim, mesmo sendo uma obra importante para o cinema polonês e um marco na carreira de Wajda, é muito perceptível que O Homem de Ferro também se trata de um cinema mais fraco, arrastado e bem menos interessante que o anterior. Dessa vez, acompanhamos uma importante greve de operários no principal porto do país. Os trabalhadores, sempre traídos pelo sindicato refém do poder absoluto do governo, são liderados pelo filho do revolucionário frustrado Mateusz Birkut, Maciej Tomczyk.

Enquanto os cidadãos e estudantes se revoltam com os operários contra o governo, o establishment político contrata Winkel, um jornalista alcóolatra, para buscar evidências polêmicas do passado de Tomczyk para assassinarem a reputação do líder a fim de desmotivar o movimento dos trabalhadores.

Em primeiro momento, o roteirista Aleksander resiste à tentação de criar uma narrativa exatamente nos mesmos moldes de O Homem de Mármore que se vale de uma história de investigação similar a Cidadão Kane. Embora seja louvável essa resistência à facilidade ao preferir focar uma história mais linear focada em trazer uma jornada bastante previsível por Winkel, infelizmente isso joga todo o primeiro ato em um clima estranhíssimo no qual nada parece acontecer, apesar de termos demonstrações claras de abuso de poder e chantagens do governo.

Isso ocorre para fornecer algum sentido de resistência, além de Wajda sustentar sequências relembrando vítimas de manifestações anteriores que foram massacradas pelas forças do Estado. Isso, apesar da dificuldade do ritmo arrastado, se torna um pilar importante da obra, pois ela se conectará intensamente com os eventos relembrados.

É justamente a partir do segundo ato que o roteirista cede e retoma a estrutura não-linear de outrora, oferecendo diversos flashbacks para mostrar quem é Maciej Tomczyk, o inflexível homem de ferro. Revelando um passado turbulento com Birkut, pai de Tomczyk, há muitas sequências repetitivas que mostram o quão engajado e revolucionário o jovem protagonista é. Logo, todo o conflito que ronda o jovem é rapidamente estabelecido: a relação paterna complicada e a vontade de tirar o país da injustiça.

Tudo se torna mais complexo quando Birkut é assassinado em uma manifestação da qual os estudantes decidiram não aderir, jogando toda a culpa do ocorrido nas costas de Tomczyk. Entretanto, por conta do vai-e-vem narrativo e no foco de um protagonista chato/redundante, prejudicam o progresso da obra.

A história sobre o Tomczyk também se torna redundante e repetitiva até, enfim, chegarmos na entrevista mais aguardada, envolvendo a protagonista de O Homem de Mármore, a cineasta Agnieszka. Retomando a cena de encerramento do filme anterior, vemos o desenlace do fracasso de sua obra não finalizada para trazer importância à figura de Birkut. Tudo fica ainda mais rico quando descobrimos o forte grau de envolvimento que ela construiu ao lado do filho do objeto de estudo de seu filme. Ela sente na pele, ao lado de Tomczyk, a repressão do governo até acabar presa por apoiar a greve dos operários liderada pelo marido.

Esse certamente é o segmento mais rico e interessante da obra, apesar de tomar tanto tempo que deixa a conclusão do longa realmente apressada. Wajda escolhe mostrar a situação do modo mais orgânico e realista possível e como opta por restringir o ponto de vista narrativo no conhecimento de Winkel, o espectador não tem ciência dos acontecimentos que levam à vitória dos operários. Wajda só tem interesse em criar uma potente crítica e forte retrato histórico, tornando O Homem de Ferro um dos filmes menos universais, já que é preciso um conhecimento aprofundado sobre os eventos retratados.

Por conta dessa atmosfera de resistência operária e revolução, Wajda ironicamente não utiliza o swing rebelde de O Homem de Mármore na estética da sequência. Apesar de termos muito uso de câmera na mão, fotografia sombria e pouco saturada, enquadramentos centrados no realismo cênico sem qualquer maquiagem visual, o tom geral é bastante sério, até mesmo clássico, permitindo que o diretor crie algumas cenas memoráveis, principalmente as envolvendo poderosos reencontros entre Tomczyk e Agnieszka.

O uso da trilha musical quase ausente é muito precisa, mas sempre muito adequada ao tom estético do longa que não busca celebrar uma grande vitória sobre o medo incutido pelo regime, mas sim uma lamentação intensa por conta de tantos de aprisionamento e vida difícil que os comunistas trouxeram para o povo polonês.

Solidariedade

Mesmo que bastante inferior ao original, O Homem de Ferro é uma obra importante para a Polônia. O olhar crítico e muito corajoso de Wajda em entregar um retrato factual de toda a miséria de uma nação é digno de aplausos, além de focar em exibir argumentos pró-regime simplesmente absurdos para justificar abusos de poder e privação de liberdade civil.

É sumariamente necessário que o espectador tenha assistido a O Homem de Mármore antes de se aventurar neste, pois será uma experiência totalmente confusa, já que Wajda não perde tempo em contextualizar as coisas para o espectador. Esse filme é encaminhado diretamente para a Polônia. Com muito amor, lágrimas, carinho e solidariedade.

O Homem de Ferro (Czlowiek z zelaza, Polônia – 1981)

Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Aleksander Scibor-Rylski
Elenco: Jerzy Radziwilowicz, Krystyna Janda, Marian Opana, Irena Byrska, Boguzlaw Linda, Lech Walesa
Gênero: Drama
Duração: 156 minutos

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