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Crítica | O Jovem Karl Marx – Propaganda e ingenuidade cinematográfica

Bastam alguns minutos de projeção para saber quase todas as etapas do desenvolvimento narrativo de O Jovem Karl Marx.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
24 de outubro de 2017 · 3 min de leitura
Crítica | O Jovem Karl Marx – Propaganda e ingenuidade cinematográfica

*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Bastam alguns minutos de projeção para saber quase todas as etapas do desenvolvimento narrativo de O Jovem Karl Marx. Não há a menor necessidade de conhecer a história de vida do biografado para prever que acompanharemos a típica trajetória do homem talentoso e inquieto que sacrifica muitas coisas e  se coloca contra  pessoas próximas – ou a sociedade em geral – para se tornar um sujeito auto-realizado e historicamente relevante; ou que testemunharemos clichés cinematográficos como o uso de fade-out depois de um personagem desmaiar e o ajuste do desfoque quando ele acorda, justamente no momento em que a câmera subjetiva que recria o seu ponto de vista é dominada pela figura de sua futura parceira.

Todavia, há um elemento diferente que faz com que a obra de Raoul Peck se destaque negativamente das demais. É um fato conhecido que as cinebiografias (ou recortes biográficos) constituem um dos subgêneros mais formulaicos. Obviamente, há obras dessa natureza que são caracterizadas por experimentação e ousadia formal – os recentes O Formidável e Rodin, filmes sobre determinados períodos nas vidas de Jean-Luc Godard e Auguste Rodin, respectivamente, são bons exemplos. Porém, a maioria delas segue o formato narrativo/estético convencional e a cartilha de mostrar as diferentes facetas da pessoa retratada, contrapondo o sucesso profissional com os defeitos comportamentais.

O Jovem Karl Marx vai pela via contrária. Não me entendam errado, o longa é genérico e banal em todos os sentidos, no entanto, ele se nega a mostrar qualquer aspecto negativo da personalidade do famoso teórico comunista. Tanto ele quanto Friedrich Engels são homens geniais, à frente do tempo, ambiciosos, corajosos, ousados, carinhosos, engraçados, responsáveis e preocupados com a paz universal. Não há nada em suas respectivas personalidades que deponha contra nem mesmo um defeito capaz de nos convencer que estamos vendo a história real de dois seres humanos.

Inicialmente, isso pode ser confundido com um erro, mas, ao passo que a narrativa vai se desenrolando, torna-se claro que não estamos diante de uma obra artística preocupada com aquilo que nos é mostrado ou interessada em problematizar as questões que Marx e Engels abordaram em seus textos. Na verdade, o seu objetivo é outro e tem muito mais a ver a com a propagando política descarada. Peck, Pascal Bonitzer e Pierre Hodgson não querem desvendar o homem. Pelo contrário. Desejam ilustrar o mito, com todas as verdades e mentiras que acompanham as mitificações.

Deste modo, é impossível levar a produção a sério, tanto da perspectiva histórica quando artística. A recriação de época e o elenco são competentes (August Diehl, de Bastardos Inglórios, é um daqueles atores hipnóticos, dos quais é difícil desgrudar os olhos) e até há boas ideias (como as primeiras cenas em que Marx e Engels interagem, que recria parcialmente a lógica de uma comédia romântica), porém, o evidente caráter propagandístico e a parcialidade com que retrata um dos fundadores do comunismo são imperdoáveis. O filme parece ter sido feito muito mais pelo agente publicitário de algum partido político do que por um artista preocupado com a realidade concreta.

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O Jovem Karl Marx (Der Junge Karl Marx, O Jovem Karl Marx– 2017)

Direção: Raoul Peck
Roteiro: Raoul Peck, Pascal Bonitzer e Pierre Hodgson
Elenco: Auguste Diehl, Stefan Kornaske, Vicky Krieps, Olivier Gourmet, Hannah Steele, Alexander Scheer
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 118 minutos

 

Tags: #Cinema #crítica #Filme #Rodin
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