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Crítica | O Mágico de Oz (1939) – Dorothy nos Tempos do Cólera

Tachar O Mágico de Oz como uma simples obra de ficção fantástica é cometer um erro imperdoável.

Thiago Nolla
Thiago Nolla Redação
17 de outubro de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | O Mágico de Oz (1939) – Dorothy nos Tempos do Cólera

O Mágico de Oz é um dos filmes mais relembrados e adorados de todos os tempos. Desde sua comovente história de superação e autoaceitação delineada perfeitamente por L. Frank Baum até as inovações técnico-artísticas, a obra de Victor Fleming parece não envelhecer. Mesmo os cineastas contemporâneos, principalmente aqueles que ousam se aventurar no mundo da fantasia, buscam referências do clássico longa, remodelando-as em uma tentativa de aproximá-las das novas gerações. Entretanto, sua atemporalidade talvez seja um dos maiores atributos – afinal, quem não conhece a história de Dorothy, os sapatinhos de rubi, o temido feiticeiro da cidade das Esmeraldas e os macacos voadores? É claro que se restringir apenas aos artifícios narrativos é cair no senso-comum; afinal, a trama que se desenrola vai muito além do que os olhos podem ver.

Judy Garland, queridinha da MGM em seus anos dourados, foi a escolhida para encarnar a protagonista e mal imaginava que sua incrível performance a colocaria no centro dos holofotes de Hollywood. Dorothy, a heroína da aventura, é uma garota do interior que vive com os tios numa gigantesca fazenda, sonhando com o dia em que a monotonia do campo dará lugar a novas descobertas e amizades. Basicamente, ela deseja transformar seus sonhos em realidade e se sentir parte de algo grande – e é aqui que a premissa do “cuidado com o que deseja” ganha força. Após abrigar-se em sua casa, ela e o cachorrinho Totó são pegos por um forte tornado e levados à mística terra de Oz, lar dos munchkins e da terrível Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton).

Já aqui podemos perceber uma sacada inteligente de Fleming: a caracterização de dois mundos totalmente distintos. Dorothy sente-se presa em uma rotina cíclica no Kansas, e sua chegada a um lugar totalmente desconhecido é motivo para um compulsório, porém justificado, encantamento. Logo, é quase instantâneo notar o motivo do diretor ter optado pela sépia na realidade e pelo technicolor no fantástico, no sobrenatural – e venho dizer que as habilidades do time artístico superam e muito as tentativas falhas de trazer cor às telonas. Partindo desse princípio dual, a narrativa cênica mantém-se em equilíbrio entre o antigo e o novo (para a época), além de criar uma tendência híbrida que seria revisitada décadas mais tarde.

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Assim que chega à Província Munchkin, a heroína já recebe ameaças de sua arqui-inimiga por ter aterrissado sobre sua irmã. Ela não apenas se vê numa corrida pela sobrevivência, pois é jurada de morte, como também percebe que terá um extenso caminho a percorrer para voltar para casa – e é aqui que seus ideais entram em conflito. Dorothy talvez perceba que não está pronta o bastante para lidar com a independência obrigatória e precisa do apoio de pessoas conhecidas, ao menos para guiá-la. Porém, a própria chegada isolada da garota prenuncia um evento certeiro: a batalha final será dela e somente dela. Afinal, a Bruxa é a representação do obstáculo de propriocepção e não é por acaso que é caracterizada com a cor verde: em um sentido mais simbólico, tal tom está associado à plenitude e ao crescimento, não da feiticeira, mas sim de Dorothy.

O filme está fincado à jornada do herói de Joseph Campbell. A protagonista a princípio nega o chamado à aventura para depois descobrir que, ao cruzar o limiar entre os dois cosmos, não há caminho de volta: a única coisa a se fazer é seguir pela Estrada de Tijolos Amarelos até encontrar o Mágico e pedir sua ajuda. E é claro que, nesse meio-tempo, ela encontra aliados de extrema importância que se sentem incompletos e vazios por inúmeras razões. O Espantalho (Ray Bolger), o Homem-de-Lata (Jack Haley) e o Leão Covarde (Bert Lahr) talvez sejam o trio de coadjuvantes mais adorado da era clássica do cinema, principalmente por se manterem respaldados na commedia dell’arte e mergulharem com fidelidade nos arquétipos que representam. Cada um deles deseja também alguma coisa e resolve se unir à garota.

Tachar O Mágico de Oz como uma simples obra de ficção fantástica é cometer um erro imperdoável. Fleming não apenas imprime sua perspectiva acerca do romance de Baum, mas recupera também seus elementos críticos. Escrito em 1900, a ascensão de uma força poderosa e temida é reflexo dos governos imperialistas que impõe suas vontades às minorias – nesse caso, a relação abusiva entre a Bruxa e os munchkins. A aparição de uma força etérea e “intangível” insurge com Glinda (Billie Burke), a Bruxa Boa do Sul, e preconização uma iminente mudança nas configurações autoritárias de Oz. Afinal, pelo que podemos apreender, é Dorothy quem traz o necessário para destituir a Bruxa Má do Oeste e revelar as reais intenções do Mágico (Frank Morgan), um charlatão que assumiu tal papel para enganar e ganhar o respeito da população de Esmeralda. Trazer esses elementos para o final da década de 1930 também tem sua carga, visto que a época era propícia para o crescimento de movimentos extremistas, incluindo o nazi-fascismo, e para o início da II Guerra Mundial.

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O longa também traz inovações técnicas, como já mencionado. O uso das cores vibrantes e de uma direção de arte competente é apenas a cereja do bolo; deve-se mencionar a destreza cênica com a qual Fleming conduz a narrativa com exímia maestria, criando coreografias que não se resumem apenas ao plano visual, mas estendem-se para suas respectivas causas e consequências. Os frames trazem o refinamento estético e se assemelham a pinturas neorromânticas, perscrutadas pela fantasia excessiva e envolvente. Aliás, não é à toa que os efeitos especiais do filme representem um salto considerável para o nicho em questão, desde a utilização de centenas de figurinos até a minúcia das maquiagens.

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De fato, algumas sequências são inesquecíveis. Seja na rendição de Garland com Over the Rainbow, coroada com o Oscar de Melhor Canção Original, ou na frase que resume todo o escopo da obra, inúmeras construções foram reaproveitadas com o passar do tempo e, apesar de não terem atingido o mesmo sucesso que o original, servem como belas e singelas homenagens a um dos melhores filmes de todos os tempos. E conforme os créditos aparecem na tela, é difícil não se emocionar. No final das contas, apenas uma coisa é certa: não há lugar como o nosso lar.

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, EUA – 1939)

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Direção: Victor Fleming
Roteiro: Noel Langley, Florence Ryerson, Edgar Allan Woolf, baseado no romance de L. Frank Baum
Elenco: Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton, Charley Grapewin, Clara Blandick
Gênero: Aventura, Fantasia, Musical
Duração: 102 min.

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Tags: #O Mágico de Oz
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Thiago Nolla
Escrito por

Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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