O Pintassilgo, longa baseado no livro de Donna Tartt, tinha tudo para ser um grande filme, já que a história já estava escrita e só era necessário adaptá-la para o cinema. O grande problema da produção é em relação ao roteiro querer se mostrar grande demais. Ao criar uma trama que tenta focar em várias das questões presentes no livro, de mais de 700 páginas, acaba por se perder na imensidão de detalhes abordados em suas páginas, e levar isso para o cinema não é uma tarefa fácil. Não à toa o filme tem mais de duas horas de duração e esse pensamento em tentar colocar muitas questões presentes na obra original no longa acaba por deixá-lo totalmente superficial e com várias cenas sem sentido.

O que pode ser visto durante as mais de duas horas da produção é o roteiro perdido em criar uma abordagem que pudesse ser relevante. Ao contar a história de vida do garoto Theo Decker (Ansel Elgort) e seus traumas por crescer sem a mãe e com um pai que não o amava, fatos que acabam por deixar feridas no garoto, e depois, na fase adulta, por entrar em um relacionamento sem amor, passa novamente por outra situação de tristeza. São tantas as subtramas criadas que o diretor John Crowley (Brooklyn) esquece da trama principal, que depois do primeiro ato se torna totalmente irrelevante. 

O que o roteiro tentou fazer foi contar toda a vida do garoto, desde o momento do atentado terrorista que esteve presente, e isso é um grande tiro no pé. Há uma precipitação em muitas situações, como no próprio pintassilgo em si, a obra de arte do Museu que dá nome ao longa, e que é o principal gatilho da trama e que serve para dar início aos acontecimentos presentes na vida de Theo. O que o diretor faz é simplesmente deixar de lado o quadro do pássaro, e assim perde-se totalmente a sintonia conquistada de início. Havia um mistério no ar do porque o menino queria pegar aquele quadro e qual seria sua motivação. Não tocam no assunto nos dois primeiros atos, e então, somente no terceiro ato é que dão a devida importância ao quadro. Porém já é tarde demais, pois o telespectador não se importava mais para a narrativa sem sentido que havia sido apresentada até então.

Das várias cenas desnecessárias estão a do casamento de Theo Decker, que em um corte temporal faz com que o personagem já apareça casado, um claro exemplo de que esse episódio não precisava estar na história, mas a colocaram para tentar dar maior personalidade ao personagem. Essa questão do casamento chama bastante a atenção, por sinal, por que não havia indícios nenhum de que Theo iria se relacionar com aquela garota, e do nada já aparecem apaixonados um pelo o outro. A própria possível relação homossexual de Theo, quando criança, com seu colega russo Boris (um Finn Wolfhard com interpretação caricata) é algo que não é aprofundado, dão dicas de que se gostam, mas não é algo que se desenvolve. Durante toda a narrativa o que se presencia são situações não trabalhadas da maneira correta. 

John Crowley não é um diretor ruim, pois tem obras de respeito em seu currículo, como Brooklyn e True Detective, fato que o gabarita para um filme dessa complexidade e magnitude. Dos erros acima citados nenhum supera o de ter perdido grande parte do filme em focar na vida de Theo garoto e não em sua vida adulta. A infância do garoto é importante, para mostrar certas questões que estarão presentes em sua vida quando crescer, mas é tanta ladainha ao mostrar sua infância e adolescência que não chega a lugar algum, quando chega no que é interessante, na fase adulta de Theo, perde-se totalmente a importância da narrativa. O telespectador já está derrubado quando chega no principal, isso justamente por ter perdido tempo com tanta coisa que foi esquecida no ato final. É um erro tão grande de direção que parecia ser John Crowley um diretor iniciante.

Há também um claro erro de montagem. O filme não seria ruim se tivesse sido montado de outro jeito, por exemplo, dando mais vida a questão do quadro do pintassilgo, se tivesse se aprofundado na relação com Boris, e a própria vida familiar de Theo, que é apresentada apenas pela parte do pai. Se tivesse sido montado dando maior enfoque em soluções e respostas mais relevantes ao público e dessem maior visibilidade para a questão dramática do personagem, possivelmente, seria um longa muito menos previsível e mais interessante.

Há uma mensagem escondida em O Pintassilgo que é bonita, mesmo com o filme abordando os temas de forma errada. O pássaro do quadro é uma bela metáfora sobre liberdade, pois queira ou não, Theo quando menino, após o acontecimento do atentado terrorista no Museu, tem essa sensação de querer cuidar da própria vida e ter uma liberdade, isso fica claro quando vai viver com o pai e tem o seu amigo Boris como válvula de escape para os seus traumas.

O que mais chama a atenção em O Pintassilgo é o forte elenco. Porém, isso não é o suficiente para prender a atenção do telespectador no drama barato filmado por John Crowley. Nomes consagrados do cinema, como Nicole Kidman, Ansel Elgort, Sarah Paulson, Jeffrey Wright e Finn Wolfhard parecem todos sem alma, não que suas atuações estejam ruins, mas seus personagens não prendem a atenção de quem vai assistir. A própria personagem de Nicole Kidman, uma mulher misteriosa que recebe o jovem Theo em sua casa, mas que depois de ter ótimas cenas é totalmente deixada de lado. Sempre quando algo ganha nosso interesse o diretor resolve abandonar aquilo e ir para outro assunto.

É uma pena que um livro tão interessante seja levado de forma jogada ao cinema. Merecia algo melhor e um olhar mais apurado para situações mais emblemáticas e interessantes que são totalmente jogadas pelo ralo por parte do roteiro. John Crowley é esforçado, cria uma ambientação interessante, contratou bons atores, mas falhou no principal fator, que é o de dar maior imersão para o que realmente importava, que era a narrativa e como ele como diretor a iria desenvolver. O Pintassilgo é daqueles filmes difíceis de esquecer, mas não pela sua qualidade, e sim por ser um filme chato.

O Pintassilgo (The Goldfinch, EUA – 2019)

Direção: John Crowley
Roteiro: Peter Straughan, Donna Tartt (livro)
Elenco: Oakes Fegley, Ansel Elgort, Nicole Kidman, Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson, Willa Fitzgerald, Finn Wolfhard, Aneurin Barnard
Gênero: Drama
Duração: 150 min