A Netflix já se notabilizou pela qualidade de algumas de suas produções, não apenas em relação à narrativa ou a estética de seus filmes e séries, mas também no sentido de conseguir angariar uma audiência surpreendente para frente da tela. Depois do sucesso estrondoso de Bird Box (Susanne Bier) começou uma busca, pela plataforma de streaming, em conseguir um produto que conseguisse repetir tal feito, e é aí que entra a tentativa frustrada de transformar O Silêncio em um possível sucesso.

Há muitos elementos de produções recentes do gênero de terror que foram empregados de forma equivocada no filme. A começar pelo próprio apocalipse no qual o longa quer trabalhar a ideia da raça humana estar à beira da extinção por causa de criaturas cegas que atacam quando ouvem algum tipo de barulho. A ideia da trama é boa, mas nada original, pois já vimos isso em Um Lugar Silencioso (John Krasinski) e até mesmo no já mencionado Bird Box. Ou seja, O Silêncio pegou a ideia de dois filmes de sucesso e os colocou ali de forma atropelada.

É possível pegar referências de outros longas sem precisar copiá-los na cara dura, algo que John R. Leonetti (Annabelle) não fez. O Silêncio está mais para um amontoado de referências no qual a trama se prende para criar sua história. Por ser uma adaptação de um livro (não lançado no Brasil), isso seria um fato que poderia ajudar o diretor dando uma vantagem para trabalhar em cima de algo já criado e assim ir mudando a narrativa do livro com o que achasse que seria mais relevante para o público.

O diretor se perdeu totalmente no conceito que quis criar quanto a atmosfera de terror e caos. O terror praticamente inexiste, primeiro por ser óbvio, segundo por abusar demais nos clichês. A obviedade em conjunto com o show de clichês acaba matando o terror que poderia vir a dar certo. O diretor toma medidas tão preguiçosas em relação a algumas cenas que o telespectador consegue antever o que irá acontecer e em vez de John Leonetti tentar os surpreender acaba fazendo exatamente o que o público imaginava que iria acontecer. 

Não há momentos de tensão, justamente por causa da obviedade e da tentativa frustrada em se fazer terror. A tensão está muito ligada as cenas de suspense, mas pelos motivos acima listados também acaba por matar algo que possivelmente iria funcionar. Em duas situações, na cena do carro e quando estão entrando na residência é que há uma tentativa em se criar uma atmosfera de pânico que não funciona por serem pessimamente trabalhadas e por ter um desfecho que cai exatamente naquilo que vem sido dito aqui, que é a obviedade das cenas. 

Além de ter uma história extremamente fraca e batida e com situações incrivelmente abomináveis, há ainda um outro elemento na produção que ajuda bastante a deixar o telespectador com antipatia a tudo o que é apresentado. Os personagens são rasos, sem um trabalho de desenvolvimento em relação a suas vidas particulares e também na relação deles como uma família, algo que pode ser visto em Um Lugar Silencioso e que em O Silêncio não é bem aproveitado. Há uma relação de pai e filha ali que daria muito assunto para a trama, mas que é totalmente mal trabalhado.

O elenco puxado por Stanley Tucci (Jogos Vorazes) e Kiernan Shipka (O Mundo Sombrio de Sabrina) tem atuações contidas em grande parte do tempo e em alguns momentos ficam bastante abaixo do pedido para a trama. Nas horas de tensão e pânico Stanley Tucci parece estar participando de um drama familiar e não de um thriller, sua atuação é bastante decepcionante e não convence. Kiernan Shipka está melhor e apesar de estar apática se sobressai ao restante do elenco, sua simpatia ajuda bastante em deixar a personagem mais amável e menos sem graça.

Diferente com o que ocorreu em Bird Box em que as criaturas não apareceram de forma física (algo que foi muito criticado pelo público da Netflix) em O Silêncio elas surgem aos montes para matar qualquer pessoa barulhenta. Claro que as criaturas ajudam na tentativa de se criar uma atmosfera de terror, algo que não funciona pelo simples fato dessas criaturas serem enganadas facilmente. Sua forma física também não põe medo, algo que não acontece, por exemplo, com os monstros da franquia Criaturas, em que todos os monstros colocam em pânico com facilidade o telespectador.

John R. Leonetti não foi a escolha certa para liderar este filme. Em seu currículo há mais fracassos e decepções que acertos. Foi John R. Leonetti o responsável por dirigir longas fraquíssimos como 7 Desejos e Efeito Borboleta 2, possivelmente Annabelle foi sua melhor direção até o momento. Chamar um diretor com tantos longas ruins na carreira é um equívoco porque a chance dele acertar é muito baixa em relação as altas expectativas que o público da Netflix vem demandando ultimamente em relação ao conteúdo de suas produções.

O Silêncio foi claramente uma tentativa frustrada de conseguir um viral instantâneo e viu as críticas negativas serem superiores as positivas para o longa, algo que provavelmente frustrou as intenções de uma futura continuação. É um filme cheio de boas intenções, mas que naufraga quando a história parecia que ia caminhar. Netflix precisa pensar rápido em criar conteúdo de mais qualidade, já que vários serviços concorrentes de streaming estão surgindo e logo poderão bater de frente com o conteúdo original da empresa. 

The Silence (O Silêncio – EUA, 2019)

Direção: John R. Leonetti
Roteiro:Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Tim Lebbon (Livro)
Elenco: Stanley Tucci, Kiernan Shipka, Miranda Otto, Kate Trotter, John Corbett, Kyle Breitkopf, Dempsey Bryk
Gênero: Horror, Thriller
Duração: 90 min.

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