Se você dizer em voz alta que um filme poderia ser capaz de reunir alguns dos melhores nomes trabalhando hoje Oscar Isaac, Ben Affleck, Charlie Hunnam, Pedro Pascal e de sobra um bem subestimado como Garrett Hedlund (Tron: O Legado, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi), para contracenarem juntos sob a direção de um dos melhores diretores trabalhando atualmente como J.C. Chandor (Margin Call – O Dia Antes do Fim, O Ano Mais Violento); parece ser bom demais para ser verdade.

Mas eis que o filme realmente existe e Operação Fronteira conseguiu finalmente lançado pela Netflix depois de tantos atrasos de produção. E a boa notícia é de que as expectativas que o belo elenco pode reunir sobre o projeto, altas demais ou moderadas, são capazes sim de serem atendidas com o que se é encontrado aqui com um filme bem realizado, mesmo que dentro de suas várias familiaridades, mas cujo o imenso talento reunido é capaz sim de elevar a qualidade de Operação Fronteira para algo um pouco além de puro entretenimento.

Após uma operação da polícia ter acabado em um massacre sem frutos, Santiago (Oscar Isaac) um ex-agente das forças especiais decide reunir seus antigos colegas e melhores amigos para planejar um assalto contra um poderoso traficante Gabriel Lorea em uma zona fronteiriça da América do Sul, pouco povoada e cercada de montanhas. Onde pela primeira vez em suas carreiras militares de prestígio, eles empreendem nessa perigosa missão para si mesmos, em vez de para um país. Mas quando a missão toma um rumo inesperado e ameaçam fugir do controle da equipe, os cinco homens agora se veem em uma corrida contra o tempo para sobreviver, apenas podendo contar com suas habilidades e lealdade entre si.

Praticidade e eficiência

Depois de tantos atrasos de produção e constantes trocas de diretor, elenco e produtora, e afins, quase parece um verdadeiro milagre que Operação Fronteira finalmente tenha saído do papel e funcionado competentemente como um thriller dramático com sua boa dose de ação como se apresenta aqui e possivelmente uma das boas pedidas da Netflix em 2019. Embora há uma inevitável curiosidade que o filme desperta para si, mas não exatamente sobre a história em si mas sobre a sua produção.

Algo tão atribulado que, se conhecendo bem o histórico de tudo, não deixa de nos fazer imediatamente imaginar como teria sido a pegada e visão original vinda da diretora Kathryn Bigelow para o filme, sendo o projeto originalmente dela e também tendo em vista sua boa perícia em filmes militares como o ótimo Guerra ao Terror. Uma coisa certa é de que talvez teríamos um filme com um tom menos enfatizado na ação e entretenimento que o de Chandor vende aqui.

Embora muito da assinatura do parceiro roteirista da diretora, Mark Boal, ainda marque traços visíveis aqui. Principalmente na forma como a técnica bem detalhista e realista sobre o império do tráfico nas regiões fronteiriças da América do Sul é apresentada, mas sem nunca explanar um contexto histórico expositivo sobre o território ou sequer dando uma localização exata da região onde a missão da trama se passa, deixando tudo à bel interpretação do espectador.

E cujo o roteiro de Chandor e Boal ajuda a estabelecer criativamente isso com o mínimo de informação possível apenas indicado que eles devem cruzar os Andes, a maior rede montanhosa da América do Sul, o que já deixa no imaginário do público a possibilidade de ser em qualquer país e o enorme perigo igual pelo que estão para enfrentar.

O que pode ficar difuso à primeira vista pode ser o que exatamente o diretor em cargo pôde querer contar com essa história tão simples mas que tanto lhe interessou. Tendo em conta de que J.C. Chandor mostrou ter uma visão muito própria e única em seus filmes até hoje em sua curta carreira, mas que nunca parecem ficar claras logo na primeira assistida. Com muito se baseando nas suas interessantes inspirações que ele mostra carregar em seu estilo.

Vide Margin Call que fortemente remetia à um drama no estilo de Sydney Lumet como em Rede de Intrigas ou Dia de Cão, na forma em que ele explora como aquela situação afetava psicologicamente seus personagens. Ou O Ano Mais Violento que parecia um drama ala Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola mas com fortes traços de filme de máfia que remetia à Scorsese, e construía uma vibe de um thriller dos anos setenta como Operação França.

O mesmo tipo de excelentes inspirações podem ser enxergadas em Operação Fronteira, enquanto pode se dizer que o filme carrega o físico e o drama de um perfeito filme de Michael Mann, exatamente por contar aqui uma história de homens amantes de sua profissão que nunca conseguiram realmente largar, que sentem-se inspirado por elas, mesmo que isso lhe traga perigos fatais às suas vidas. Sem falar de algumas cenas de ação excelentemente criadas aqui, com nenhum mínimo sinal de câmera tremida sendo usada.

Onde Chandor mostra saber criar uma ação limpa e com energia bem calibrada para serem tensas, compreensíveis e eletrizantes. Mas não poupando em usar belíssimas tomadas de grua que quase passeiam pelos veículos durante as perseguições de carro junto de bons planos abertos sempre deixando a construção de espaço visível e palpável. E com os usuais tiroteios muito bem planejados, com os pés fincados no realismo e que ocorrem em momentos muito pontuais e de efetivos impacto de adrenalina no filme.

Mas que em seu desenrolar, bruscamente se torna um filme de sobrevivência na selva que bastante remete à um filme de Werner Herzog, possuindo um forte sentimento de imprevisibilidade na luta entre homem vs natureza, deixando a belíssima fotografia de Roman Vasyanov capturar belíssimos cenários paisagísticos que destacam a imensa escala do filme e por onde a jornada dos personagens está tomando um lento rumo. Ao mesmo tempo que o filme acaba assumindo um tom quase cínico e de humor negro quando eles começam a perder aos poucos tudo que vieram buscar, sem poupar na seca brutalidade quando necessário.

Embora o filme parece se conter bastante em certos momentos de não mostrar um banho de sangue ou um certo nível à mais de brutalidade que realmente mostre as terríveis e chocantes consequências da profissão de seus personagens, deixando muito disso a cargo do drama psicológico e o embate moral entre cada um dos homens ao longo do filme.

Uma Jornada de Moralidade

Já de cara é garantido que este não é um filme que vá agradar a todos os gostos. Ainda mais pelo seu estilo de direção que é calmo e sem pressa alguma, embora faça um bom trabalho estabelecendo cada personagem e suas motivações individuais, alguns maiores que outros claro, mas num geral, todas eficientes. E que podem se dizer como as melhores coisas do filme e os gatilhos pelo qual os temas que Chandor busca abordar aqui são despertados.

Advindo logo de cara em sua introdução com o personagem William (um bom Charlie Hunnam) em seu discurso para um grupo de fuzileiros, falando sobre a natureza da violência que o homem é capaz de despertar para cumprir seu objetivo, ou como é o caso do filme, um grupo de ex-soldados fiéis à sua bandeira, mas cujo objetivo se tornou a ganância pelo bem próprio. Algo que vem se espelhar em cada um de forma diferente na missão em que embarcam.

De um lado William mostrando achar de forma ignorante de que está fazendo a coisa certa, mas por dentro mostra que sentia falta dessa vida, assim como o irmão Ben (Garrett Hedlund). Enquanto Morales (um sempre bem vindo Pedro Pascal) mostra claramente estar o fazendo para ter os seus recursos para suprir o vício.

Enquanto com as duas principais âncoras dramáticas do filme, temos em Santiago alguém que diz buscar fazer a diferença em sua missão de matar o traficante e tomar domínio de seu dinheiro sujo. Mas que se mostra ser tão movido a ganância quanto Davis (Ben Affleck), o mais desesperado de todos. Alguém que começa o filme como sendo o metódico planejador que se recusava em voltar para esse universo ao aceitar a missão, mas que num piscar de olhos muda seus sentimentos quando vê o poço de dinheiro que eles encontram.

Exatamente quando ele começa a agir de forma mais brusca e violenta, sugerindo que eles matem todos os capangas de Lorenzo que ele havia previamente insistido em não realizar, e mais tarde cometer atos ainda mais questionáveis. A sede de ganância sendo capaz de tomar conta da boa vontade dos homens de coração bom. E que partem em uma jornada que promete acabar nada bem para o grupo.

Sem dúvidas o personagem mais dramaticamente destacado dentre o elenco, embora seja Isaac que de sobra sempre se mostra ser muito convincente no papel que interpreta e sustenta o protagonismo principal com um homem bem intencionado, mas que logo encara o resultado de risco que ele coloca seus amigos graças as suas “boas intenções”.

Mas é Affleck que mostra o personagem mais multifacetado do filme, vendendo bem de início a frustração de vida que Davis carrega, que logo se torna um sopro de alívio quando reencontra os amigos e mais tarde um olhar de desespero quando sua missão se torna apenas salvar o dinheiro. Mas embora todo o elenco receba um devido protagonismo graças ao imenso charme e carisma de todo o elenco, e a relação do grupo consegue despertar as emoções necessárias graças à ótima química do elenco, que como dito no início, é o grande brilho do filme.

Não querendo desmerecer de forma alguma o bom trabalho realizado por Chandor aqui. Mesmo que se mostre o seu filme menos dramaticamente inspirado ou original até hoje, ainda é capaz de se mostrar como sendo um belo estudo de moral e honra, amizade e irmandade, reflexivo em pequenas medidas e de sobra um ótimo entretenimento de ação e aventura com ótimos personagens. O que faz difícil dizer que Operação Fronteira não é mesmo um filme que vale ao menos uma conferida, o que todos os talentos envolvidos provam valer!

Operação Fronteira (Triple Frontier,EUA – 2019)

Direção: J.C. Chandor
Roteiro: Mark Boal e J.C. Chandor
Elenco: Oscar Isaac, Ben Affleck, Charlie Hunnam, Pedro Pascal, Garrett Hedlund, Adria Arjona
Gênero: Ação, Aventura, Thriller
Duração: 125 min