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Crítica | Os Órfãos – A Desonra dos Filmes de Terror

Em 1898, o lendário autor britânico Henry James lançava sua obra-prima A Outra Volta do Parafuso, romance sobrenatural que se tornou referência literária para diversos estudos científicos, incluindo a vertente intitulada Neocrítica. Publicado no auge do gênero gótico – e aproximando-se de obras ultrarromânticas e até mesmo do conterrâneo Bram Stoker -, o livro logo caiu no gosto popular e, décadas depois, ganhou uma versão para os teatros e um filme dirigido por Jack Clayton que, até hoje, é considerado um clássico da indústria cinematográfica. E ainda que grande parte das pessoas esteja familiarizado com o título dessa obra, não foi até os últimos meses de 2019 que os escritos ganhariam mais duas versões modernizadas – uma delas em formato seriado e supervisionado por Mike Flanagan e a outra a encargo da diretora ítalo-canadense Floria Sigismondi, que ganhou fama com o longa The Runaways: Garotas do Rock.

Entretanto, diferente da interessante cinebiografia que comandou alguns anos atrás, a cineasta parece ter se perdido completamente ao levar sua própria perspectiva acerca de James para as telonas: o resultado de Os Órfãos, que tenta se nutrir de quaisquer elementos conhecidos do suspense e do terror, é uma frustrante aproximação de thrillers expressionistas que não faz o menor sentido e culmina em um finale incompreensível e aberto a todas as interpretações que os espectadores desejam transportar para a peça fílmica. E, por mais que Sigismondi almeje a uma construção com causa e consequência, eventualmente mergulha num surrealismo datado com efeitos visuais medíocres para nos arrancar ao menos uma centelha de emoção de um roteiro sem vida.

A história parte do mesmo princípio: aqui, a governanta protagonista retorna como uma narradora deturpada que é tratada o tempo todo como uma personagem aos cuidados de um narrador onisciente em terceira pessoa. Mackenzie Davis, saindo de participações em obras como Tully e Black Mirror, dá vida à professora infantil Kate Mandell, que é contratada pela família puro-sangue Fairchild (na verdade pela caseira, visto que os pais morreram num trágico acidente de carro) para ser tutora da jovem Flora (Brooklynn Prince), que nunca saiu da propriedade e não teve praticamente nenhum contato com o mundo exterior. Entretanto, assim que abandona sua vida na cidade grande e se instala nos aposentos da arrepiante mansão vitoriana, Kate começa a ter experiências do além-mundo que a colocam em uma saia justa e numa luta para descobrir se está enlouquecendo ou se está correndo grande perigo.

A promissora premissa é a melhor parte do filme – e um convite para que a audiência opte por se aventurar nas páginas do livro original em vez de perder quase duas horas em frente a uma insípida viagem injetada com reviravoltas idióticas. Para ser franco, não se pode tirar mérito das escolhas artísticas que Sigismondi faz ao lado da equipe criativa, ainda mais levando em conta que consegue capturar a essência do vanguardismo alemão do século XX e atribuir-lhe alguns aspectos contemporâneos e que vagam na tênue linha entre o anacronismo e a atemporalidade. Porém, a densa atmosfera, pincelada com uma névoa ao mesmo tempo convidativa e repugnante, não é o bastante para livrar o longa de tantos defeitos.

Em se tratando de uma incursão de gênero, a iteração não funciona por ser superficial e pedante demais; em se tratando de um bom entretenimento, sofre do mesmo mal. Davis e Prince entram em um princípio de relacionamento no primeiro ato que nunca se desenvolve, mergulhando, ao invés disso, em uma ruína inesperada que simplesmente existe por existir e não se vale da arquitetura predecessora. É costume, em filmes de terror, que as aparições fantasmagóricas e os contatos espirituais entrem em um crescendo crível e que siga um caminho formulaico e prático ao mesmo tempo – com exceções claras quando pensamos em James Wan, por exemplo, que excede nossas expectativas em quase todas as suas obras. Aqui, essa exponencial tensão parece estar infiltrada com a incapacidade do roteiro em seguir uma linha clara de raciocínio, valendo-se mais de jumpscares baratos do que a agonia de não saber o que espreita na escuridão.

Finn Wolfhard também deixa para trás seu papel como Mike na série sci-fi Stranger Things e é desperdiçado em todos os momentos que aparece. Encarnando o rebelde e perturbado Miles, Wolfhard é outra das vítimas de um frágil arco narrativo, mudando sua personalidade de uma hora para outra e nunca representando uma ameaça real da forma que deveria. Na realidade, o filme nos leva numa direção clara, deixando explícito que Miles havia sido possuído por Quint, um bruto cavalariço que havia se apropriado da casa depois da morte dos pais dos Fairchild e que abusara física e psicologicamente da última tutora – um cenário caótico que teria terreno extenso para twists inteligentes e cabíveis.

Todavia, das duas uma: ou a mudança é previsível, ou intangível. Os diálogos e as sequências são redundantes e não acrescentam em nada para nosso envolvimento, repetindo a mesma coisa durante os três atos; e, quando nos aproximamos do final, Sigimondi resolve transformar o terror em uma íntima psicose que transforma Kate numa mulher sem escrúpulos e que estava louca desde o começo – transferindo a própria responsabilidade emocional a uma esquizofrenia hilária de tão ridícula que é.

Os Órfãos é um forte candidato a um dos piores longas do ano e da nova década – e é muito difícil que alguma produção se equipare no tocante à quantidade de erros amadores que um talentoso time leva para as telonas.

Os Órfãos (The Turning – EUA, 2020)

Direção: Floria Sigismondi
Roteiro: Carey W. Hayes, Chad Hayes, baseado no romance de Henry James
Elenco: Mackenzie Davis, Finn Wolfhard, Brooklynn Prince, Joely Richardson
Duração: 94 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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